1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. Forbes Mulher Agro: O Brasil Já Provou Que Sabe Produzir. E o Próximo Governo?
Forbes Agro

Forbes Mulher Agro: O Brasil Já Provou Que Sabe Produzir. E o Próximo Governo?

O desafio agora é transformar a eficiência do campo em competitividade

5 min

O agronegócio brasileiro protagonizou uma transformação extraordinária nos últimos 50 anos, período em que deixou de ser importador de alimentos básicos para se tornar o “Celeiro do Mundo”, abastecendo diversos mercados. Ciência aplicada, investimentos públicos e privados e capacidade empreendedora elevaram a produtividade e fizeram do país uma potência agroalimentar.

Em 2025, o agronegócio respondeu por 25,13% do PIB brasileiro, somando R$ 3,20 trilhões, segundo estimativa da CNA e do Cepea. A dimensão do setor ganha ainda mais relevância diante da projeção do Ministério da Agricultura (MAPA) de que a produção brasileira de grãos cresça 19,5% até 2034/2035, alcançando 405,9 milhões de toneladas. Na pecuária, a produção de frango, bovinos e suínos deve crescer 20,6% no mesmo período, reforçando o potencial do país.

Os entraves que a tecnologia não resolve

Contudo, potencial não é liderança garantida. Em muitas propriedades, a agricultura e a pecuária combinam mecanização avançada, dados em tempo real e inovação. Mas essa excelência convive com entraves que nenhum produtor ou empresário resolve sozinho: infraestrutura insuficiente, incerteza regulatória e baixa previsibilidade no ambiente de negócios. A pergunta, às vésperas de um novo ciclo político, é se o país criará as condições para que esse avanço continue e gere valor dentro e fora das fronteiras.

A conversa precisa ir além de slogans e disputas ideológicas. O agro não pede privilégios, precisamos de condições para planejar, investir e competir. E essa agenda não interessa apenas ao setor. Nas próximas décadas, enfrentaremos dois grandes desafios globais incontornáveis: garantir alimento acessível e ampliar a oferta de energia para o mundo. O Brasil pode contribuir para ambos com produção eficiente, inovação e energia de fontes renováveis, como os biocombustíveis.

Cinco prioridades para o futuro do setor

Se pudesse escolher cinco prioridades para a agenda do próximo governo para o agro, seriam estas:

1. Previsibilidade

O país precisa de regras claras e estáveis, segurança jurídica e previsibilidade regulatória, com respeito à legislação ambiental e ao direito de propriedade. Mudanças nas regras devem ser conduzidas com transparência e segurança, para que produtores e empresas possam planejar e investir no longo prazo.

2. Infraestrutura

A eficiência do campo perde valor quando máquinas e insumos enfrentam estradas precárias, corredores congestionados ou falta de capacidade de armazenagem. Rodovias, ferrovias, portos e logística precisam de planejamento e continuidade. Os gargalos reduzem a competitividade e encarecem os preços dos alimentos na gôndola.

3. Conectividade

Agricultura de precisão, telemetria, rastreabilidade e gestão de riscos dependem de conexão confiável. Internet no campo não é luxo, é infraestrutura para elevar produtividade, ampliar mercados e aproximar os produtores da inovação.

4. Crédito

O crédito e o seguro rural são essenciais para transformar o potencial do agro brasileiro em produtividade e desenvolvimento. O financiamento precisa ter custo, prazo e condições compatíveis com os ciclos de cada atividade, os riscos climáticos e a diversidade regional e produtiva do país. O acesso a crédito mais competitivo também depende de um ambiente macroeconômico sólido. A responsabilidade fiscal consistente ajuda a reduzir incertezas e o custo de financiamento, criando condições para que os juros retornem a patamares mais favoráveis aos negócios. Com instrumentos adequados e custos compatíveis, a atividade agropecuária pode recuperar atratividade e ampliar sua capacidade de gerar resultados sustentáveis.

5. Sustentabilidade

Produzir e conservar os recursos naturais são objetivos compatíveis, mas dependem de políticas públicas que reconheçam a diversidade regional e produtiva do país. A rastreabilidade, por sua vez, permite demonstrar a origem e as práticas adotadas ao longo da cadeia, ampliando transparência e confiança. Essas agendas fortalecem a credibilidade do agro brasileiro, que também deve beirar uma diplomacia comercial ativa e argumentos baseados em ciência.

Uma cobrança concreta por resultados

A realidade do agronegócio brasileiro é muito diversa em todo o país, sendo que as necessidades variam conforme escala, cultura, região e acesso a capital. O Congresso, estados, empresas e sociedade são parte da solução, mas cabe ao Executivo coordenar prioridades e prestar contas; portanto, a cobrança deve ser concreta. O setor precisa superar esses gargalos para realizar seu potencial.

O Brasil já provou sua aptidão para a produção de alimentos. O desafio é garantir que as condições do campo estejam à altura do século 21, junto com uma nova geração de produtores, que já chegou. Assim, o agro brasileiro poderá contribuir para transformar produtividade em prosperidade e estabilidade.

*Jaqueline Casale é zootecnista, sucessora e conselheira da Casale, empresa líder em máquinas para pecuária. Filha e esposa de produtores rurais, atuou em empresas globais como JBS Australia, PwC Brasil, Minerva Foods e BRF. Integra o think tank Forbes Mulher Agro (FMA).

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.