A ciência climática fez a sua parte. O Centro de Previsão Climática da NOAA, agência dos Estados Unidos, calcula em 83% a chance de o El Niño atual superar, entre outubro e dezembro, todos os eventos registrados desde 1950, e prevê um El Niño forte a muito forte ao menos até o trimestre de janeiro a março de 2027.
Isso cai exatamente sobre o plantio e o desenvolvimento da safra de verão. O El Niño, porém, não age sozinho. Em 2023/24, o Atlântico com temperaturas recordes mudou o padrão esperado e deixou o Centro-Sul seco no verão, destacando que a previsão precisa ser acompanhada mês a mês.
A pergunta que me interessa não é se o El Niño vem. É como essa informação entra nas decisões de quem financia, segura, vende insumos e compra grãos. Previsão que não virá decisão é só notícia.
O contraste regional do risco climático
O impacto do El Niño já é conhecido: empurra a chuva para o Sul e a tira do Centro-Norte do país. Este ano, o desenho vem reforçado. Para outubro a dezembro, a análise de risco climático da Agrosmart aponta chuva 88% acima do normal no Paraná, 52% em Santa Catarina e 53% em São Paulo. É água demais: colheita do trigo atrasada, mais doenças, semeadura de soja e arroz prejudicada, estradas e armazéns sob risco de alagamento.
No Matopiba, o sinal se inverte. Pela mesma análise da Agrosmart, o Maranhão deve ter 54% menos chuva, o Piauí 47% menos e o Tocantins 38% menos. Calor e falta de água logo após o plantio significam falha de estande, atraso e replantio. O norte de Mato Grosso entra na mesma faixa de risco, e a janela do milho de segunda safra fica espremida pelo atraso da soja.
A safra brasileira não é um único balanço
Esse contraste é o centro do meu argumento, e quero dizê-lo uma vez, com todas as letras: a safra brasileira não é um único balanço. O produtor do Piauí não recebe a sobra do Paraná. Crédito, seguro e contrato de grãos são honrados ou não estado por estado, mas é de produtor por produtor que o risco precisa ser medido e precificado.
Quem fizer isso agora vai atravessar o ciclo com uma carteira saudável. Quem seguir trabalhando com a média nacional vai descobrir o risco do jeito mais caro: em inadimplência, em sinistro acima do esperado e em renegociação às pressas.
E o colchão público será menor desta vez. Segundo O Globo, do valor previsto no Orçamento de 2027 para a subvenção ao seguro rural, somente R$ 318 milhões estão livres, enquanto R$ 882 milhões — mais de 70% do total — dependem de crédito suplementar aprovado pelo Congresso. Para 2026, o programa tem R$ 473 milhões. Menos subvenção significa menos produtor segurado justamente no ano de maior risco, e mais exposição concentrada no balanço de quem empresta.
Oportunidade e visão de longo prazo
O mercado financeiro já percebeu a ligação. O Estadão registrou que o El Niño ameaça aumentar a pressão sobre o crédito rural, que já vem de um ciclo difícil de endividamento no campo. Isso é uma oportunidade, não uma sentença. Instituições que usarem o dado climático para ajustar prazos, exigir manejo de risco e oferecer produtos adequados a cada região podem transformar o ano mais arriscado em fidelização de clientes.
Há também um horizonte que vai além desta safra. Eventos fortes costumam ser seguidos por uma inversão de padrão, e a região que hoje sofre com excesso de água pode enfrentar falta dela nos ciclos seguintes. Um modelo de risco que olha só para 2026/27 está olhando pela metade. Contratos de longo prazo, como financiamento de máquinas, armazéns e irrigação, precisam considerar pelo menos dois ciclos à frente.
O elo entre o dado e a tomada de decisão
O papel do produtor não é passivo nisso. Escalonar o plantio, escolher cultivares mais tolerantes, revisar a cobertura de seguro antes de semear e conversar com o banco com dados na mão são formas de chegar à mesa de negociação em posição melhor. Informação climática regional também é argumento comercial.
O agro brasileiro não sofre com falta de informação climática. Temos previsão com meses de antecedência e séries históricas de décadas. O que precisa ser construído é o elo entre o dado e a planilha de quem decide taxa, limite e prêmio. Quem construir esse elo primeiro sai na frente.
*Mariana Vasconcelos é produtora rural, co-fundadora e CEO da Agrosmart. É também Young Global Leader pelo World Economic Forum, Membro da Comissão de Segurança Alimentar da Fundação Kofi Annan e conselheira consultiva da Thought For Food, Fundação Espaço Eco (BASF) e Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). Tem formação executiva em negócios pela UNIFEI, Stanford, LSE e Singularity University.
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