A primeira fala de Marcelo Melchior, CEO Brasil da multinacional Suíça Nestlé, ao se sentar na cabeceira de uma mesa de reunião na sede da companhia, complexo que ocupa os últimos 10 pavimentos de uma torre de 28 andares na marginal Pinheiros, em São Paulo, é se a entrevista concedida à Forbes começaria com um cafezinho – ele já havia tomado vários do que é um dos carro-chefe da companhia. Mas o assunto não era café, embora não deixou passar o fato de no país a Nestlé opera três sistemas de máquinas de espresso, trio que se vê espalhado em vários pontos da sede.
Regada a café, a conversa com a Forbes na tarde desta quarta-feira (2), tratou do anúncio de que a Nestlé investirá R$ 7 bilhões até 2028, por aqui, dos quais R$ 2 bilhões serão destinados à divisão de Nutrição e Saúde, criada neste ano para reunir os negócios de nutrição infantil, adulta e médica.
O maior projeto anunciado para a área é a construção de uma fábrica de fórmulas infantis em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, com aporte de R$ 600 milhões e capacidade para produzir 40 mil toneladas por ano. A unidade começa a ser levantada em 2027 e deve entrar em operação em 2028, ampliando uma estrutura industrial que já permite à multinacional fabricar no país 95% de tudo o que vende aos consumidores locais.
“É um investimento muito forte que estamos fazendo para melhorar a nossa competitividade e, principalmente, para sermos autossuficientes em fórmulas infantis”, diz Melchior. Uma parcela dos produtos comercializados hoje nessa categoria ainda vem do exterior, embora a companhia não informe quanto representa no total vendido. “Importamos uma pequena parcela de fórmulas. Mas, com o crescimento do mercado, se não atuarmos hoje, essa parcela iria crescer cada vez mais. Preferimos ser autossuficientes geograficamente no país, porque é muito difícil ganhar no Brasil com produtos importados, principalmente na área de alimentos.” O Brasil é o terceiro maior mercado para a companhia no mundo, empresa que em 2025 faturou US$ 115,8 bilhões (R$ 589,8 bilhões na cotação atual).

Os R$ 2 bilhões representam perto de 30% dos recursos previstos e serão distribuídos entre a nova fábrica, aumento de capacidade, tecnologia e eficiência industrial em outras unidades da divisão. Entre elas está Araçatuba, no interior paulista, hoje principal polo da Nestlé para a fabricação de fórmulas infantis, produtos de nutrição médica e alimentação adulta. Também faz parte do programa a produção de um tipo específico de soro de leite, matéria-prima utilizada nas fórmulas infantis, em Carazinho, município gaúcho a cerca de 300 km de Porto Alegre.
A concentração de uma parcela do capital em Nutrição e Saúde, uma das quatro prioridades de crescimento estabelecidas globalmente pela companhia, não significa que a Nestlé esteja reduzindo investimentos nos negócios que construíram sua presença no setor de alimentos, segundo Melchior. Café, Pets e Snacks e Alimentos continuam recebendo recursos e fazem parte do mesmo ciclo de R$ 7 bilhões. “Cada um desses setores têm uma dinâmica muito diferente”, diz o executivo, ao ser questionado se a companhia caminha para ter uma participação maior de produtos ligados à saúde do que aos alimentos tradicionais. “Dois bilhões são para Nutrição, mas tem os outros cinco que vão para vários negócios. Temos investimentos muito fortes em cafés e em chocolates.”
A novidade é a junção das áreas de Nutrição e Saúde humana, que cobre todo o ciclo de vida, do nascimento ao público prateado. Nessa divisão, por exemplo, as farmácias têm importância comercial maior do que em boa parte do portfólio tradicional. “Isso nos permite concentrar investimentos, talento, mais marketing, mais temas de execução no ponto de venda e os diferentes canais”, afirma Melchior.
“É muito importante o canal farma, para chegarmos melhor a esses clientes.” Segundo o IBGE, a população dos 50+ é da ordem de 62,2 milhões de pessoas, 29% da população. De acordo com o Data8, hub de pesquisa, inteligência de mercado e inovação especializado na Economia da Longevidade na América Latina, a chamada economia prateada dos 50+ movimenta atualmente R$ 1,8 trilhão por ano, equivalente a 24% de todo o consumo privado dos domicílios brasileiros. Até 2044 a estimativa é que chegue aos R$ 3,8 trilhões anuais.
O investimento em Ituiutaba em busca desse mercado é uma continuidade, porque o município já abriga a maior operação de lácteos da Nestlé na América Latina, onde são fabricados produtos das linhas Ninho e Molico. A nova unidade ficará ao lado desse complexo e produzirá inicialmente Nestogeno, Nestonutri, Ninho 1+ e Ninho 3+. Durante as obras, a companhia prevê a geração de cerca de 700 empregos e depois do início da produção, 100 postos diretos. A fábrica ocupará 11 mil metros quadrados, segundo Marcelo Citrângulo, vice-presidente de Nutrição e Saúde da Nestlé Brasil.

“Esse investimento vem para que a gente possa cobrir essa geração de demanda futura e não precisar importar mais produto”, afirma Citrângulo. A capacidade instalada também permitirá vender fórmulas produzidas em Minas Gerais para outros países. “Vai nos dar capacidade, inclusive, de exportar”, diz ele. Mas a companhia ainda não informa quais mercados poderão receber a produção brasileira, e Citrângulo ressalta que o primeiro destino é o consumo doméstico. “O mercado interno é muito grande.”
A nova fábrica chega em um momento no qual mudanças na alimentação passaram a entrar com mais frequência nas decisões de empresas do setor. Melchior cita o aumento da procura por proteína e fibras e o efeito do uso das chamadas canetas para perda de peso sobre os hábitos dos consumidores.
“Os hábitos estão mudando e temos que estar bem atentos a isso. Não é a primeira vez na nossa história que os hábitos mudam. Então, sabemos fazer essa passagem”, diz Melchior.
“Quando lançamos o leite condensado no Brasil não existia geladeira.” Isso ocorreu em 1921 e a ideia era recompor o líquido. “Depois, nos anos 1940, lançamos leite em pó e fizemos com que o uso do leite condensado ficasse obsoleto. Aí, tornamos o leite condensado em um ingrediente culinário.” O executivo cita também as cápsulas de café como outra mudança na maneira de consumir um produto já estabelecido.
Dos laboratórios à escala industrial
A divisão de Nutrição e Saúde passou a existir no Brasil em abril deste ano e representa 27% dos resultados das operações, reunindo estruturas que operavam separadamente. “Nutrition Health vem de uma junção de duas unidades de negócio, Nutrição e Health Science”, afirma Citrângulo. “Essas duas unidades sempre tiveram um propósito muito forte de ciência, tecnologia e soluções nutricionais.” Quando questionado sobre a união dos negócios, Melchior acrescenta: “Acho que nós tínhamos mais sinergias para trabalhar juntos.”
A Nestlé mantém cerca de 800 cientistas dedicados às pesquisas da área em diferentes países e informa investir US$ 1,8 bilhão por ano (R$ 9,2 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento relacionados à nutrição, saúde e bem-estar. Os centros científicos ficam fora do Brasil, enquanto equipes locais trabalham na aplicação das tecnologias às fábricas e aos produtos comercializados no País.
“São vários hubs que temos hoje, sete de R&D. Essa parte científica chega ao Brasil para a gente executar e experimentar, mas eles estão fora”, diz Citrângulo. Melchior explica a etapa seguinte dentro das fábricas. “Temos o que chamamos de grupo de aplicação. Esse grupo pega a pesquisa e ajuda a industrializar, a fazer com que funcione na fábrica. É tipo um tradutor. Fazer um negócio muito bonito no laboratório é uma coisa, mas é preciso na fábrica fazer 100 toneladas.”
Entre as tecnologias utilizadas nas fórmulas estão os HMOs (Human Milk Oligosaccharides), ou oligossacarídeos do leite humano. Eles são carboidratos complexos naturalmente presentes no leite materno e estão entre seus principais componentes sólidos, depois da lactose e das gorduras. Segundo Citrângulo, a operação brasileira já recebeu produtos desenvolvidos a partir da estrutura internacional de pesquisa. “Nós da Nestlé Brasil fomos pioneiros no lançamento da proteína otimizada. Depois, inserimos no produto os HMOs.” Explicando, proteína otimizada, ou tecnologia OptiPro, é uma formulação em que a quantidade e o perfil de aminoácidos das proteínas são ajustados às necessidades do bebê.
Uma estrutura para os lácteos
A necessidade de produzir ingredientes com especificações próprias levou a companhia de volta a Carazinho, onde a fabricação de soro de leite foi retomada em 2026. O produto será utilizado na nutrição infantil e faz parte dos R$ 2 bilhões reservados à divisão. Para fórmulas, o processo exige retirar os minerais do soro e depois recompor o ingrediente de acordo com as especificações do produto.
“Esse soro de Carazinho vai exclusivamente para fórmulas”, afirma Melchior. “É um soro muito específico e muito mais exigente, porque é preciso desmineralizar tudo e depois recolocar somente aquilo de que a formulação precisa. No caso da fórmula infantil, ela vai com tudo para um aparelho digestivo muito mais sensível.”
A Nestlé compra a quase totalidade do soro de fornecedores brasileiros e mantém acordos com queijarias, mas Melchior afirma que há alguma importação da Argentina e do Uruguai, sem informar o volume adquirido em cada origem. Esses novos usos ao longo do tempo, e a demanda em alta por proteína, fez crescer o valor industrial dessa matéria-prima, durante décadas tratada principalmente como um resíduo da fabricação de queijo. “Nós procuramos comprar daqui no Brasil”, diz o executivo.
“Antigamente o soro era um subproduto. Agora, acho que quase o queijo virou um subproduto do soro.” Em 2025, o Brasil importou 16,2 mil toneladas de soro de leite, por US$ 46 milhões, dos quais 14 mil toneladas vieram da Argentina. Além de Carazinho, os investimentos alcançam as fábricas de Ibiá e Ituiutaba, em Minas Gerais, onde a empresa prevê o uso de biometano no lugar do GLP em processos industriais como câmaras, fornos e caldeiras. A estrutura brasileira da Nestlé conta hoje com 18 unidades industriais, distribuídas por sete Estados e 12 centros de distribuição.