O bombom de chocolate mais refinado que os irmãos Gonzalo e Martín Chiriboga provaram em Paris era feito com cacau equatoriano. Uma etiqueta indicava que a matéria-prima vinha de Guayaquil, em seu país de origem. Apesar de conhecerem a história da produção de cacau no Equador, que remonta a mais de três séculos, os irmãos ficaram surpresos ao descobrir que marcas reconhecidas internacionalmente, como as italianas Venchi e Novi e as francesas Bonnat e Chapon, utilizavam o cacau de seu país para produzir chocolate.
Foi naquele momento, há 21 anos, que decidiram fundar a República del Cacao, com o propósito de produzir esses doces a partir da variedade de cacau fino de aroma, uma das mais valorizadas pela indústria mundial, para os consumidores equatorianos. Em 2007, lançaram essa linha e, em 2014, a linha profissional.

Paulina Páez, gerente-geral da unidade B2B da República del Cacao, lidera a linha profissional. Está à frente da área há mais de dois anos, depois de comandar equipes de estratégia, finanças e administração em diversos setores da economia equatoriana.
Segundo ela, essa experiência lhe permitiu assumir a diretoria Financeira e de Recursos Humanos da empresa, em 2021. Posteriormente, em 2024, passou a comandar o departamento responsável pela estratégia de negócios e pela expansão da organização nos diferentes mercados.
Com essa visão, em 2025, a República del Cacao registrou receita de vendas de US$ 21,6 milhões (R$ 115,23 milhões), segundo a Superintendência de Companhias, Valores e Seguros. Desse montante, 88%, equivalentes a US$ 19 milhões (R$ 101,37 milhões), vieram das vendas internacionais de um portfólio de 22 produtos.
Ao todo, foram exportadas mil toneladas de chocolate de cacau fino de aroma, destinadas a mais de 20 países, dos Estados Unidos à Malásia, incluindo Itália, Holanda e Canadá. Esses mercados foram abertos naquele ano.
Segundo dados da Associação Nacional de Exportadores e Industriais de Cacau do Equador (Anecacao), a companhia ocupa o primeiro lugar no país em exportações de chocolate, com participação de 38% em valor monetário e 42% em volume.
A fórmula do negócio
A República del Cacao opera com duas unidades complementares. A primeira é a B2C, que possui seis boutiques de chocolate em Quito e está presente em 12 aeroportos da América Latina. A segunda, responsável pela maior parte do faturamento, é a B2B, especializada em chocolate profissional para chefs, confeitarias, restaurantes e a indústria alimentícia em todo o mundo.
A linha profissional funciona desde 2014, com gotas e discos de chocolate desenvolvidos para uso especializado, destinados integralmente à exportação. Em 2025, a empresa participou de 48 eventos internacionais, realizou mais de 30 workshops e capacitou mais de 800 líderes do setor gastronômico. Conta com uma rede de mais de 20 chefs parceiros e 340 clientes ativos em todo o mundo.
“Sou responsável por toda a parte de abastecimento, desde a compra de matérias-primas até sua transformação e posterior comercialização nos mercados nacional e internacional”, afirma Páez. Ela acrescenta que assumiu a gestão da linha B2B em um dos momentos mais desafiadores da história recente do mercado.
O preço internacional dessa matéria-prima iniciou uma escalada sem precedentes. Passou de US$ 2.700 por tonelada (R$ 14.403,42) para picos históricos entre US$ 11.000 (R$ 58.680,60) e US$ 12.500 (R$ 66.682,50) por tonelada, em 2024 e 2025, impulsionado principalmente pela queda da produção africana.
“O custo do cacau quintuplicou. Não se tratava apenas de repassar os preços, mas também de enfrentar a complexidade do abastecimento.” A resposta foi apostar nas relações construídas ao longo dos anos com os fornecedores.
“Sempre pagamos acima do preço de mercado. Além disso, ao oferecermos capacitação e ferramentas, eles nos dão preferência na venda do cacau.” Na prática, essa rede de confiança foi sua principal proteção contra a escassez.
Enquanto outras empresas do setor deixaram de abastecer seus clientes internacionais, a República del Cacao manteve sua cadeia de fornecimento e conquistou espaço no mercado. O faturamento total de 2025 representou um crescimento de 36% em relação a 2024, conforme os dados publicados no relatório de sustentabilidade da empresa.
A cadeia que sustenta tudo
A fidelização começa com os produtores rurais. No ano passado, a empresa capacitou 80 deles em técnicas que vão da poda à adubação e ao manejo do solo. Todos estão em Vinces, na província de Los Ríos, onde funciona seu principal centro de recebimento de cacau. A empresa também fornece ferramentas e acompanha os produtores em seus processos de inclusão bancária e formalização.
A composição de suas matérias-primas reflete essa valorização da produção local, uma vez que 59% correspondem ao cacau e seus derivados, dos quais 80% são fornecidos pelo Equador, com o restante complementado por Peru, México e República Dominicana. “Em cada região, em cada solo, existe um sabor diferente. Com o Peru, podemos oferecer um perfil frutado diferente daquele que encontramos aqui no Equador”, explica Páez.
Do total adquirido pela empresa, 20% correspondem ao leite, proveniente integralmente da região serrana equatoriana. Outros 20% são de açúcar, também 100% local, produzido em Imbabura. O 1% restante corresponde a ingredientes utilizados em menores quantidades, como o milho orgânico de produção local direta.
Toda a transformação ocorre em território equatoriano, na fábrica localizada no sul de Quito, com o objetivo explícito de manter o valor agregado no país. O cacau é recebido em Baba, fermentado e processado localmente no centro de recebimento de Vinces e, depois, transportado para Quito, onde passa pelo processamento final. A empresa também mantém um segundo centro de recebimento em Los Sachas, na Amazônia.
Para garantir o acesso aos mercados internacionais mais exigentes, a empresa possui as certificações FSSC 22000 v6.0, BPM (vigente desde 2017), Halal, Kosher, BASC e Child Labour Free, que atesta a ausência de trabalho infantil. Além disso, já trabalha para cumprir o Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR), que entrará em vigor em 2027 e exigirá rastreabilidade completa de todos os exportadores para a União Europeia.
Como parte dessa preparação, em 2025, a empresa distribuiu mais de 7 mil mudas enxertadas de cacau fino de aroma a produtores parceiros, para apoiar a renovação de suas propriedades. “Há avanços na tecnificação e na produtividade. Também estamos nos adaptando às novas exigências da Europa, onde se exige maior rastreabilidade e ausência de desmatamento”, acrescenta a executiva.
A República del Cacao possui a certificação Empresa B, destinada a organizações comprometidas com a geração de impacto econômico, social e ambiental, desde 2020, tendo sido recertificada em 2023. As mulheres representam 46% de seus mais de 140 funcionários e ocupam mais de 60% dos cargos gerenciais. Elas também representam três dos sete integrantes do comitê diretivo.
A empresa estrutura seu modelo de sustentabilidade em quatro pilares, também estabelecidos em seu Estatuto: abastecimento responsável, gastronomia consciente, compromisso ambiental e comunidade com propósito.
No eixo comunitário, mantém desde 2023 uma parceria formal com o Programa Mundial de Alimentos (PMA), voltada ao combate à desnutrição crônica infantil. No início de 2026, lançou o livro Identidades, com 20 receitas elaboradas por 10 chefs parceiros, utilizando produtos próprios da região, como banana e cacau.
A novidade de 2027
A República del Cacao apresentará um novo produto em janeiro de 2027, durante a Sirha, em Lyon, uma das convenções internacionais mais importantes do setor, já que o evento recebe a final da Copa do Mundo de Confeitaria. Mas essa não será a única surpresa. A intenção da empresa é dar continuidade à tradição de inovações baseadas em ingredientes equatorianos. O chocolate branco com milho torrado, um de seus produtos emblemáticos atuais, oferece pistas sobre o tipo de inovação pretendida.
“Estamos na origem e é isso que queremos valorizar. Sabores que só podem vir daqui. Queremos utilizar os ingredientes locais o máximo possível. É algo profundamente ligado à nossa marca”, afirma Páez.
Publicada originalmente em Forbes Equador
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