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Catarinense Master Mira R$ 2,5 Bilhões até 2029 Com Carne Suína Para O Japão

Manollo Faccin, segunda geração da família fundadora da companhia, conta os próximos passos após conquistar a 1ª certificação ouro de bem-estar único

8 min

De alguns anos para cá, as viagens de executivos da Master Agroindustrial, em Videira (SC), ao Japão tinham uma pauta bastante objetiva: apresentar cortes, discutir especificações, negociar volumes e mostrar que uma empresa catarinense era capaz de entregar o padrão exigido por um dos mercados mais rigorosos do mundo. Entre esses executivos sempre está o engenheiro civil Manollo Faccin, 44 anos, diretor de operações e integrante da segunda geração da família fundadora da companhia.

“Além da rentabilidade, o mercado japonês permite estabelecer parcerias de longo prazo. Essa estabilidade traz previsibilidade operacional para sabermos exatamente o resultado dos três meses seguintes”, diz Manollo.

Agora, a carne que chega às negociações leva uma informação a mais. A companhia passou a estampar nas embalagens destinadas ao exterior o selo Ouro da certificação Missão de Cuidar – Bem-Estar Único, da MSD Saúde Animal. Lançada em 2022, a certificação avalia a cadeia produtiva de ponta a ponta através de cerca de 150 critérios rigorosos. Neste ano, 100 empresas devem ser certificadas pela MSD, nas área de produção de aves, suínos e bovinos. Deste grupo, especificamente na produção de suínos, a Master foi a única a gabaritar 100% dos critérios.

A Master já envia cerca de 36 mil toneladas de carne suína por ano ao Japão, responde por 15% a 20% das exportações brasileiras do produto para aquele mercado e pretende mais que dobrar o faturamento, de R$ 1,2 bilhão para até R$ 2,5 bilhões entre 2028 e 2029.

Produzir carne suína é um negócio bem competitivo. Segundo o relatório Livestock and Poultry: World Markets and Trade, de abril de 2026, a produção mundial de carne suína está projetada em 120,18 milhões de toneladas em 2026. No topo, está a China, com 59,5 milhões de toneladas (49,5%), seguido pela União Europeia, com 21,69 milhões de toneladas (18%), Estados Unidos, com 12,7 milhões de toneladas (10,6%) e o Brasil, com 4,9 milhões de toneladas.

“Hoje, o Brasil é o quarto maior produtor de suínos no mundo, o terceiro maior exportador, além de ser o maior em carne de frango e bovina. Sabemos que, na nossa cadeia, é preciso ser muito competitivo para prosperar”, diz Manollo.

O selo chega depois de sete anos de trabalho, e não foi ele que abriu as portas do Japão. A Master começou a vender ao país no fim de 2022, depois de cumprir requisitos sanitários e industriais específicos. O trabalho de bem-estar animal, no entanto, havia começado antes, em 2019. “O bem-estar animal nunca foi uma exigência imposta pelo mercado, mas uma busca contínua da Master para se adiantar e gerar eficiência de produtividade”, afirma Manollo.

A certificação passou a dar uma dimensão comercial a esse trabalho. Segundo a MSD, o protocolo é auditado por uma empresa independente. Para Filipe Antônio Dalla Costa, coordenador técnico de Bem-Estar Único da MSD, o que está acontecendo agora é a transformação de uma prática operacional em um atributo de mercado. “O bem-estar animal deixou de ser visto como um modismo para ser uma ciência e uma estratégia de acesso ao mercado”, afirma.

Carne suína bem ao gosto oriental

Divulgação/MasterEmbalagem de carne suína da Master com selo de bem-estar único

A conquista do mercado japonês ajuda a entender por que a certificação ganhou espaço dentro da estratégia da empresa. Para vender ao país, não basta atender às regras gerais de exportação. Os compradores especificam genética, peso, gordura, pH (que mede o grau de acidez ou alcalinidade da carne), coloração, marmoreio e características dos cortes. O manejo também interfere diretamente no resultado final. “O menor estresse gera menor incidência de carnes pálidas e moles, além de garantir o pH correto, a maciez e outros aspectos físico-químicos do produto”, diz Manollo.

Esse cuidado tem impacto econômico. O Japão paga a mais, dependendo do corte. No ano passado, por exemplo, enquanto a média do quilo de carne suína ficou em US$ 2,43 (R$ 12,10, na cotação atual), a média dos embarques para o Japão foi de US$ 3,41 (R$ 16,98), 40,3% a mais, segundo dados de exportação na plataforma Agrostat, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Este mercado, porém, exige um processo industrial mais refinado, com menor rendimento e maior necessidade de mão de obra.

Para atender às especificações, a Master mantém uma linha dedicada à padronização das peças em diferentes faixas de peso. Este relacionamento com o Japão não envolve apenas visitas por lá, mas também por aqui no Brasil. A empresa recebe clientes japoneses praticamente todas as semanas. Entre as visitas recentes estiveram representantes da Itochu e da Nippon Ham, uma das maiores processadoras de alimentos do Japão. Segundo Faccin, as visitas, que antes costumavam gerar listas de melhorias, passaram a trazer feedbacks positivos sobre a operação e a marca Sulita.

Projeção de crescimento e internacionalização

Diretores da Master da família Faccin, com o fundador Mário Faccin (no centro), é os filhos Mário Júnior (à esq,) e Manollo
Divulgação/MasterDiretores da Master da família Faccin, com o fundador Mário Faccin (no centro), e os filhos Mário Júnior (à esq,) e Manollo

A estrutura por trás da carne exportada é verticalizada, envolve toda uma cadeia de produtores integrados e internacionalização que permitiu à empresa alcançar mercados como o Japão. Uma operação que começou pequena, mas que hoje mantém uma operação de campo, de genética e nascimento de bezerros próprios, uma unidade de abate, e uma rede de cerca de 300 produtores integrados para a engorda de suínos.

“Hoje, nosso plantel possui 45 mil matrizes produtivas, que geram entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de animais por ano, e estamos em processo de expansão”, diz Manollo. A estratégia para os próximos anos combina essa diferenciação com aumento de escala. A Master pretende passar de 45 mil para 60 mil matrizes, chegar a aproximadamente 2 milhões de suínos produzidos por ano e ampliar a capacidade de abate para 6 mil animais por dia. O plano de investimentos supera R$ 600 milhões. Valor que engloba os aportes diretos da Master em capital de giro e infraestrutura.

A empresa nasceu em 1994 como uma produtora de carne suína. “Isso, para a época, já era uma quebra de conceito, pois existiam muitos produtores, mas meu pai, Mário Faccin, e o sócio dele, o Carlos Gradin, que viram da antiga Perdigão (hoje MBRF), trouxeram o conceito de aplicar a gestão na produção primária. Eles entendiam que, ao profissionalizar a produção, seria possível obter diferenciais competitivos, sobretudo em eficiência.”

Também compõe o time de diretores, o irmão mais velho de Manollo, Mário Júnior que é médico veterinário, está na empresa há 23 anos e hoje responde pelo mercado interno, logística e marketing da empresa.

Vista aérea da unidade frigorífica da Master, em Videira (SC)
Divulgação/MasterTrabalhador dentro das granjas de reprodução de suínos da Master

Em 2022, veio o grande salto da companhia com a entrada do grupo espanhol Vall Companys, um conglomerado agroalimentar espanhol fundado em 1956, e um dos líderes na produção integrada de carne de porco, aves e bovinos na Europa, e que faturou € 4,2 bilhões (R$ 25,96 bilhões) em 2025.

A presença do grupo ajudou a acelerar a estratégia da internacionalização da companhia. O grupo trouxe experiência internacional, principalmente no Japão, onde atua há mais de duas décadas. Segundo Faccin, foi esse conhecimento que permitiu à Master chegar rapidamente ao atual volume exportado ao país asiático.

“Trouxemos as melhores tecnologias das plantas da Espanha: robôs para abertura de carcaça, robôs de usinagem, o sistema de insensibilização por CO2 e automação completa da linha do corte até o carregamento dos caminhões. Cerca de 80% do volume da fábrica operará de forma 100% automatizada”, diz Faccin.

Para o executivo, o ambiente está propício para a produção de carne suína. Ele vê a produção europeia caindo nos últimos anos por problemas sanitários e ambientais em países como Alemanha, Itália e Dinamarca. “A China e os Estados Unidos também enfrentam margens pressionadas. O Brasil é a bola da vez para abastecer a demanda global de proteínas.”

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