Com lágrimas nos olhos ao relembrar como colonos israelenses batiam com varas em suas queridas oliveiras e levavam as azeitonas, o palestino Ahmed Salem disse temer ser atacado caso tentasse intervir.
Há décadas os colonos intimidam os palestinos que colhem suas azeitonas na Cisjordânia ocupada, mas, neste ano, não só a violência aumentou drasticamente como também os roubos se tornaram generalizados, segundo palestinos, grupos de direitos humanos israelenses e a ONU.
Os colonos colocaram as azeitonas de Salem em sacos e, em seguida, as levaram de carro até um posto avançado de colonos israelenses nas proximidades para serem transformadas em azeite, contou o palestino de 50 anos à Reuters sobre o incidente ocorrido há cerca de duas semanas perto de sua aldeia, Lubban al-Gharbi.
“Como você se sentiria se algo que lhe pertencesse estivesse sendo violado e você não pudesse fazer nada a respeito?”, perguntou ele.
O casal que mora no posto avançado, onde fica localizada a instalação de processamento de azeitona para produção de azeite, recusou vários pedidos de comentário da Reuters, enquanto o Conselho Yesha, que supervisiona os assentamentos israelenses na Cisjordânia, não respondeu imediatamente.
Os ataques se intensificaram às vésperas das eleições israelenses da próxima semana, nas quais as pesquisas de opinião indicam que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e sua coalizão pró-colonos podem perder para adversários que adotaram uma postura mais crítica em relação à violência dos colonos.
A colheita da azeitona começa com a chegada do tempo mais fresco, permitindo que famílias palestinas se reúnam nas plantações exuberantes que cuidam há gerações.
“Meu filho de seis anos se lembra de ir lá comigo, comer lá, preparar chá lá”, disse Salem.
Com o estabelecimento de centenas de pequenos postos avançados de colonos sob o governo de Netanyahu desde 2022, as Forças Armadas de Israel têm restringido cada vez mais o acesso dos palestinos às áreas próximas, incluindo muitos olivais.
“Isso cria uma situação em que os palestinos, em muitos casos e em muitas terras, especialmente nas proximidades de assentamentos e postos avançados, não podem entrar nas terras e colher as árvores”, disse Ziv Stahl, diretor executivo do grupo de direitos israelense Yesh Din.
“Mas os colonos podem ir e vir livremente, e é isso que eles fazem.”
Mesmo quando os palestinos conseguem acessar suas árvores, isso não ocorre sem risco. O Yesh Din relatou na quarta-feira 125 agressões físicas contra colhedores de azeitonas palestinos nos 24 dias desde o início da safra e 168 incidentes de roubo de colheitas, com a presença de forças militares israelenses em pelo menos um quarto dos casos.
Um oficial militar israelense afirmou que leva muito a sério atos de violência, atividades criminosas e tentativas de comprometer a segurança. O oficial não se referiu aos colonos nem comentou os relatos de roubo de azeitonas na presença das forças militares israelenses, que, por outro lado, arrancaram árvores com escavadeiras, alegando a necessidade de prevenir ataques palestinos.
A remoção das azeitonas dos palestinos gerou reações muito divergentes entre os rabinos israelenses.
“Eu chamo isso de roubo. Do meu ponto de vista, defino isso como roubo ou furto, e é proibido”, disse Zev Weitman, rabino do assentamento de Alon Shvut, ao sul de Belém.
O proeminente rabino ortodoxo Dov Lior afirmou que os colonos deveriam colher em toda a Cisjordânia, sustentando em uma carta aberta que os palestinos não tinham direitos de propriedade sobre a terra e que a colheita de azeitonas cumpria “o mandamento de conquistar a terra”.