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Você Pode Confiar no Que Há nos Seus Alimentos? Saiba o Que É Preciso Conhecer

Nos Estados Unidos, cresce o movimento para entender como a desinformação gerada por inteligência artificial e as alegações sobre novas tecnologias alimentares levam incertezas ao consumidor

11 min

Parece que se chegou a um ponto em que é necessário se tornar especialista amador em praticamente tudo. Da saúde e das finanças aos seguros e à tecnologia, espera-se cada vez mais que as informações recebidas sejam pesquisadas, investigadas e verificadas de maneira independente. Entre trabalho, família e as inúmeras responsabilidades do dia a dia, é muita coisa para administrar.

Até mesmo algo tão fundamental quanto a alimentação se tornou confuso. Entre recolhimentos legítimos de alimentos, preocupações com ingredientes geneticamente modificados, tecnologias alimentares emergentes e a influência crescente de conteúdos gerados por inteligência artificial e informações contraditórias que circulam nas redes sociais, pode ser difícil distinguir fatos de informações falsas. Algumas preocupações têm fundamento. Outras são exageradas, enganosas ou inteiramente inventadas.

Por isso, surgem muitas das perguntas que outros consumidores provavelmente também fazem. Onde encontrar informações confiáveis? Quem é responsável por garantir que os alimentos adquiridos sejam seguros? Existem órgãos reguladores, cientistas, fabricantes e instituições de saúde pública dedicados justamente a essas questões. Ainda assim, a responsabilidade de interpretar um cenário informativo cada vez mais complicado frequentemente parece recair sobre os próprios consumidores.

Por que a alimentação se tornou tão complicada?

GettyimagesAgroindústria nem sempre informa claramente seus processos

O percurso dos alimentos antes de chegar à mesa é consideravelmente mais complicado do que a maioria das pessoas imagina. O que pode parecer um processo relativamente simples envolve uma extensa rede de produtores rurais, processadores, fabricantes, distribuidores e varejistas, que frequentemente operam em diversos estados ou países.

Dados da Statista mostram que os recolhimentos de produtos pela Food and Drug Administration (FDA) e pelo United States Department of Agriculture (USDA) aumentaram nos últimos anos. Surtos de doenças transmitidas por alimentos, alérgenos não declarados e contaminação por materiais estranhos estão entre os motivos que levam ao recolhimento de produtos. A quantidade de pessoas e processos envolvidos no trajeto dos alimentos, desde a propriedade rural até a mesa, cria inúmeras oportunidades de contaminação e pode tornar particularmente difícil identificar sua origem.

A FDA reconheceu as dificuldades de rastrear alimentos em cadeias de abastecimento cada vez mais complexas. Por isso, melhorar a rastreabilidade passou a ser uma parte importante de suas iniciativas de segurança dos alimentos. Quando ocorre uma contaminação, determinar onde ela começou, quais produtos foram afetados e para onde esses produtos foram distribuídos pode exigir uma investigação extensa.

Mas a complexidade não termina na maneira como os alimentos são produzidos e distribuídos. Há também as informações que precisam ser interpretadas. Rótulos de ingredientes, alegações nutricionais, recolhimentos de alimentos, tecnologias alimentares emergentes e orientações aparentemente intermináveis sobre o que se deve ou não comer passaram a fazer parte da experiência cotidiana dos consumidores. Acrescente a isso opiniões divergentes de cientistas, profissionais de saúde, fabricantes e personalidades das redes sociais, e até decisões aparentemente simples podem se tornar desnecessariamente complicadas.

O problema não é necessariamente a falta de informação. Em muitos casos, é determinar quais informações são confiáveis, relevantes e fundamentadas em comprovações.

Como as redes sociais e a inteligência artificial estão complicando aquilo em que se acredita sobre os alimentos

GettyimagesTecnologias alimentares emergentes estão aumentando a confusão do consumidor sobre o que é real

Para quem se preocupa com a saúde, chama a atenção a quantidade de conteúdos relacionados à alimentação que aparece nos feeds das redes sociais, principalmente quando os algoritmos foram configurados, em grande parte, para assuntos consideravelmente mais leves, como animais, viagens e natureza. Ainda assim, é comum encontrar publicações sobre ovos geneticamente modificados, carne impressa em 3D, alimentos cultivados em laboratório e alegações sobre o que supostamente está acontecendo com o abastecimento alimentar. Algumas dessas tecnologias são reais, enquanto outras alegações são enganosas, exageradas ou inteiramente inventadas. E nem sempre é simples distinguir umas das outras.

Recentemente, um vídeo de Jessica Knurick, PhD, nutricionista registrada, chamou a atenção por apresentar sua reação a uma alegação viral de que ovos cultivados em laboratório estavam sendo vendidos no Walmart e na Target. Ela questionou a credibilidade da alegação e manifestou incredulidade diante da facilidade com que as pessoas a aceitavam e compartilhavam. Sua reação ilustra a rapidez com que alegações alarmantes podem circular na internet, mesmo quando as informações que lhes dão origem não foram verificadas. Além disso, como a inteligência artificial generativa torna cada vez mais possível criar imagens e vídeos realistas, porém falsificados, determinar o que é autêntico acrescenta outra camada de complexidade.

Mesmo com anos de experiência na mídia, às vezes é necessário examinar um conteúdo duas vezes para determinar se é uma publicidade, uma reportagem produzida de maneira independente ou algo completamente diferente. As redes sociais podem ser extremamente úteis para compartilhar informações, inclusive recolhimentos legítimos de alimentos e alertas de saúde pública. Mas essas mesmas plataformas também podem disseminar alegações questionáveis, muitas vezes sem o contexto de que os consumidores precisam para avaliá-las.

A questão mais ampla não é se toda tecnologia alimentar emergente é boa ou ruim, nem se toda alegação nas redes sociais é verdadeira ou falsa. O problema é que compreender algo tão básico quanto aquilo que se está comendo exige cada vez mais a capacidade de lidar com um ambiente informativo no qual nem sempre é fácil distinguir a precisão das informações, os interesses comerciais e a credibilidade.

Quem é realmente responsável por proteger os consumidores?

GettyimagesSupervisão da segurança alimentar envolve múltiplos órgãos federais, além de inspeções e procedimentos de controle de qualidade

Com tantos órgãos governamentais envolvidos na regulamentação do abastecimento alimentar, seria razoável esperar um sistema de fiscalização relativamente simples. No entanto, até mesmo compreender qual órgão é responsável por cada atividade pode ser surpreendentemente complicado.

A FDA supervisiona a maior parte do abastecimento alimentar dos Estados Unidos, incluindo produtos hortifrutícolas, frutos do mar, laticínios e ovos com casca. O USDA regulamenta carnes, aves e determinados produtos processados à base de ovos, por meio de seu Serviço de Inspeção e Segurança dos Alimentos. Enquanto isso, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) estabelece limites para resíduos de pesticidas nos alimentos, ao passo que a FDA e o USDA monitoram e fiscalizam o cumprimento dessas normas em suas respectivas áreas de competência.

Os alimentos importados acrescentam outra camada de responsabilidade. A FDA supervisiona a segurança da maioria dos alimentos importados sob sua jurisdição, enquanto a Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) trabalha em conjunto com órgãos federais para garantir o cumprimento das exigências de importação.

Mas a segurança dos alimentos é apenas uma parte da questão. A Comissão Federal de Comércio (FTC) é responsável por combater a publicidade enganosa e as alegações comerciais que induzem os consumidores ao erro, incluindo determinadas promoções realizadas por influenciadores digitais e anúncios publicados nas redes sociais. Sua autoridade, porém, não abrange todas as declarações incorretas ou vídeos enganosos que circulam na internet.

As plataformas de redes sociais também estabelecem suas próprias políticas para publicidade, desinformação e conteúdos gerados por inteligência artificial. Mas essas políticas são independentes da fiscalização governamental da segurança dos alimentos, e sua aplicação pode variar. Consequentemente, conteúdos que levantam questões legítimas sobre a segurança dos alimentos podem aparecer ao lado de alegações enganosas ou sem comprovação, deixando aos consumidores a tarefa de distinguir uns dos outros.

Essas responsabilidades sobrepostas ajudam a explicar por que é tão difícil lidar com informações relacionadas à alimentação. Os órgãos governamentais regulamentam diferentes aspectos do abastecimento alimentar e do mercado comercial, enquanto as plataformas digitais exercem um papel cada vez mais influente na maneira como as informações chegam aos consumidores. Compreender onde essas responsabilidades começam e terminam é importante, mas o peso de analisar alegações contraditórias não deveria recair inteiramente sobre o público.

Como distinguir recolhimentos reais de alimentos de alegações enganosas

GettyimagesVerificar rótulos de produtos, números de lote e comunicados oficiais de recall pode ajudar os consumidores a distinguir alertas legítimos

Com tantas informações contraditórias circulando na internet, saber onde verificar um alerta relacionado a alimentos é cada vez mais importante. Felizmente, os consumidores não precisam depender exclusivamente de publicações nas redes sociais ou manchetes de notícias para determinar se um produto foi recolhido.

A FDA mantém um banco de dados pesquisável de recolhimentos, retiradas de produtos do mercado e alertas de segurança, enquanto o Serviço de Inspeção e Segurança dos Alimentos do USDA publica informações sobre recolhimentos de carnes, aves e determinados produtos à base de ovos. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) também fornecem informações sobre surtos de doenças transmitidas por alimentos e investigações em andamento.

Os comunicados oficiais de recolhimento geralmente incluem informações de identificação, como nomes dos produtos, marcas, números dos lotes, códigos universais de produtos (UPCs), datas de validade e locais de distribuição. Esses detalhes podem ajudar os consumidores a determinar se um produto que compraram foi afetado. Também é importante compreender que uma investigação em andamento sobre um surto não significa necessariamente que um produto específico tenha sido recolhido, e nem todo recolhimento legítimo recebe um anúncio amplamente divulgado.

Essa distinção se torna particularmente importante quando alegações alarmantes circulam na internet. Um vídeo sugerindo que determinado alimento não é seguro, foi produzido artificialmente ou está sendo introduzido secretamente nos supermercados não constitui necessariamente uma prova de que qualquer uma dessas alegações seja verdadeira. Verificar a fonte original, consultar informações oficiais e distinguir fatos comprovados de especulações pode ajudar os consumidores a evitar confusões desnecessárias.

Saber o que há nos alimentos não deveria ser tão difícil

GettyimagesAcesso a informações claras e confiáveis ​​sobre segurança e produção de alimentos deve estar disponível para todos

Em uma infância cercada por propriedades rurais, o leite fresco era entregue à porta de casa, com nata e tudo, e havia propriedades próximas onde era possível comprar ovos, queijo e produtos agrícolas da estação. Hoje, a vida em Miami pode representar um distanciamento maior da origem dos alimentos do que nunca, mesmo com propriedades rurais a menos de uma hora de carro. Nem todos têm acesso a feiras de produtores rurais, produtos cultivados localmente ou a possibilidade de produzir os próprios alimentos.

A alimentação é uma das necessidades mais básicas, ao lado da água potável e do ar limpo. Não deveria ser necessário ter diplomas em agronomia, microbiologia ou biotecnologia, nem passar horas mergulhado em pesquisas intermináveis, para compreender o que se está comprando e consumindo. As pessoas têm necessidades alimentares, preferências e convicções diferentes e deveriam ter autonomia para tomar decisões fundamentadas sobre o que funciona melhor para cada uma.

Isso exige mais do que acesso à informação. Exige informações precisas, transparentes, fáceis de encontrar e livres de alegações enganosas e interesses comerciais não declarados. Deveria ser possível confiar nas instituições responsáveis por proteger o abastecimento alimentar, incluindo os órgãos governamentais, para fornecer orientações claras, fundamentadas em comprovações. Saber o que há nos alimentos, de onde eles vêm e se são seguros não deveria ser tão difícil.

Publicado originalmente em Forbes EUA

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