A Adecoagro acrescenta um novo capítulo à sua estratégia de expansão na Argentina. Os sócios e diretores da companhia agroindustrial fecharam um acordo para a compra dos ativos rurais que o grupo Benetton mantém no país, em uma operação que envolve cerca de 900 mil hectares distribuídos entre o sul da província de Buenos Aires, Río Negro, Chubut e Santa Cruz.
A transação contempla a aquisição da Compañía Tierras del Sud e da Ganadera Cóndor, as duas empresas por meio das quais o grupo italiano desenvolvia suas atividades agropecuárias no mercado argentino. O grupo de investidores é liderado por Mariano Bosch, fundador e CEO da Adecoagro, que, com essa operação, incorpora uma das maiores extensões de terras produtivas reunidas sob uma mesma estrutura empresarial. No mercado brasileiro, a empresa atua fortemente no setor sucroenergético (produção de açúcar, etanol, bioeletricidade e biometano) e em culturas como arroz e grãos, com complexos industriais e unidades produtoras em estados como Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
A principal atividade dos estabelecimentos comprados na Patagônia é a criação de ovinos. A operação inclui um modelo de integração vertical que abrange desde a criação de mais de 250 mil ovinos até a produção de mais de 880 mil quilos de lã por ano. Trata-se do maior produtor de lã do país.
Nas propriedades localizadas na província de Buenos Aires, por sua vez, as principais atividades são a produção de batata, milho e trigo. A continuidade das operações ficará sob a responsabilidade de Agustín Dranovsky, executivo que atualmente dirige as atividades e que permanecerá à frente do negócio sob a nova gestão da Adecoagro.
Da Benetton à Adecoagro
A compra marca o encerramento de uma etapa para um dos grupos estrangeiros com maior presença territorial na Argentina. A história da Benetton no país começou em 1983, quando Carlo Benetton realizou o primeiro investimento do grupo italiano com a aquisição de um edifício de escritórios no centro financeiro de Buenos Aires.

A entrada de maior porte no setor agropecuário ocorreu em 1991. Naquele momento, a Edizione, holding de investimentos da família Benetton, adquiriu a Compañía de Tierras Sud Argentino, empresa que pertencia às famílias Paz, Menéndez e Ochoa e que controlava cerca de 360 mil hectares distribuídos em quatro estâncias: Leleque, Maitén, Pilcaniyeu e Montoso, nas províncias de Chubut e Río Negro.
A partir dessa operação, o grupo italiano ampliou sua presença na Patagônia e desenvolveu um modelo produtivo que ultrapassou a exploração tradicional da terra. Na década de 1990, também começou a plantar pinheiro-ponderosa em aproximadamente 10 mil hectares de suas propriedades em Chubut e Río Negro. Atualmente, desenvolve um projeto para construir uma serraria que permita abastecer a região com madeira.
A atividade agropecuária foi um dos negócios que o grupo manteve na Argentina enquanto diversificava seu portfólio global. Fundada em Treviso, na Itália, na década de 1960, como um empreendimento familiar de produção de tecidos e suéteres, a Benetton tornou-se uma marca internacional durante os anos 1980, impulsionada por suas campanhas publicitárias com o slogan United Colors of Benetton.
Ao longo das décadas, o grupo ampliou sua atuação muito além do setor de vestuário. Atualmente, a Edizione possui ativos superiores a 10 bilhões de euros (R$ 61,39 bilhões na cotação atual) e participa de setores como o imobiliário, rodovias, aeroportos, infraestrutura digital, alimentos e seguros, além de manter seu negócio de moda, com mais de 5 mil lojas da Benetton em todo o mundo.
Adecoagro acelera sua expansão
Para a Adecoagro, a aquisição representa um salto em sua escala produtiva e territorial. Fundada em 2002, a companhia consolidou-se como um dos principais grupos agroindustriais da América do Sul, com operações na Argentina, no Brasil e no Uruguai.
Até agora, contava com 210.400 hectares e um portfólio diversificado que inclui produção de alimentos, leite, arroz, culturas agrícolas, açúcar, etanol e geração de energia renovável. Entre suas marcas estão Las Tres Niñas, Molinos Ala, Apóstoles, 53, Monte Alegre e Angelita.
A companhia também passa por uma nova etapa em sua estrutura acionária. No ano passado, a Tether, empresa emissora da criptomoeda estável USDT, lançou uma oferta de US$ 615 milhões (R$ 3,38 bilhões na cotação atual), que lhe permitiu ampliar sua participação para mais de 70% do capital e tornar-se acionista controladora. Antes da operação, detinha pouco mais de 19%.

A expansão também se refletiu em outros investimentos recentes. No final do ano passado, a Adecoagro assumiu o controle da Profertil, única fabricante de ureia granulada da Argentina. A operação, concluída em dezembro, envolveu a compra das participações detidas pela canadense Nutrien e pela YPF. Com essa transação, a agroindustrial passou a controlar 90% da companhia, enquanto os 10% restantes ficaram nas mãos da Asociación de Cooperativas Argentinas (ACA).
Em julho deste ano, a empresa também anunciou a compra da usina Caarapó, no Brasil, que pertencia à Raízen e que lhe permite ampliar sua presença no setor açucareiro.
A incorporação dos ativos da Benetton na Argentina passa agora a integrar essa estratégia de crescimento. Paralelamente, a Adecoagro mantém interesse em duas empresas de laticínios que enfrentam processos de falência: a SanCor e a Alimentos Refrigerados S.A. (ARSA), companhia responsável pela fabricação das sobremesas, pudins e iogurtes da SanCor. Com essa nova operação, o grupo incorpora terras, capacidade produtiva e uma plataforma agropecuária de grande escala na Patagônia, em um momento em que pretende ampliar sua participação em diferentes elos da cadeia agroindustrial regional.
Publicado originalmente em Forbes Argentina
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