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Unapec Nasce para Dar Voz Aos Pecuaristas nas Decisões da Cadeia da Carne

Presidida por Guilherme Bumlai, entidade reúne associações de oito estados que concentram 65% do rebanho bovino brasileiro e respondem por cerca de 83% das exportações

6 min

Quando o governo dos Estados Unidos anunciou o aumento das tarifas sobre a carne bovina brasileira, em 2025, a reação dos frigoríficos foi imediata e o preço da arroba do boi gordo caiu até R$ 30, segundo o pecuarista Guilherme Bumlai, presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul). Para ele, o episódio mostrou que embora o Brasil tenha uma cadeia produtiva que movimentou R$ 1,159 trilhão naquele ano, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), faltava uma representação nacional capaz de defender publicamente a posição dos produtores. Foi com esse argumento que Bumlai anunciou, na quarta-feira (4), em São Paulo, a presidência da União Nacional da Pecuária de Corte (Unapec), oficializada durante o Pecuária em Pauta, evento organizado pela Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), no Insper.

“No mesmo dia em que houve o tarifaço, a arroba caiu 25, 30 reais. Frigoríficos que sequer eram exportadores se aproveitaram do momento”, afirmou Bumlai. Segundo ele, enquanto a indústria ocupava espaço na imprensa para discutir os efeitos das tarifas, os produtores avaliavam que a redução dos preços não se sustentaria diante da oferta restrita de animais para abate. “A gente só viu o setor da indústria se comunicando e dizendo dos problemas de mercado.” Os produtores pouco apareceram no debate. O que ocorreu? Em menos de 30 dias, as cotações voltaram a subir, confirmando a avaliação que as entidades faziam naquele momento.

V.OndeiGuilherme Bumlai fala em São Paulo, juntamente com outros diretores da Unapec

A Unapec começa suas atividades com a participação de associações de oito estados, responsáveis por 65% do rebanho bovino nacional e cerca de 83% da carne exportada pelo Brasil. Entre as organizações estão Acrimat, Acrissul, Acripará, Apron, Acrioeste, Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), Sociedade Rural Brasileira (SRB) e Associação Grupo Pecuária Brasil (GPB). A Sociedade Rural do Paraná também está em negociação para integrar a organização.

A dimensão econômica da atividade mostra onde está base de interesse das associações em atuar conjuntamente. Em 2025, o PIB do agronegócio brasileiro alcançou R$ 3,20 trilhões, dos quais R$ 1,14 trilhão corresponderam ao setor da pecuário, equivalente a 35,6% do total, segundo o Cepea/Esalq-USP e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O indicador inclui as diferentes atividades de produção animal, seus insumos, indústrias e serviços. Já na estimativa de setembro de 2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária, a carne bovina respondeu por R$ 253,4 bilhões do Valor Bruto da Produção agropecuária, participação de 17,6%.

O rebanho brasileiro atual é de 234,25 milhões de bovinos, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal, divulgada pelo IBGE neo último setembro. No recorte específico da pecuária de corte, a Abiec estima um plantel de 195,52 milhões de animais, com produção de 12,35 milhões de toneladas de carne em equivalente carcaça. Desse volume, 7,87 milhões de toneladas, ou 63,3%, abasteceram o mercado interno, enquanto 36,7% foram destinados às exportações. O consumo brasileiro chegou a 37,04 quilos por habitante, em equivalente carcaça, segundo o Beef Report 2026.

A ideia de reunir as entidades começou a ser discutida a cerca de um ano, inicialmente entre representantes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A aproximação foi conduzida por Homero José Figliolini, coordenador de gestão agroambiental da Acrissul, e Francisco de Sales Manzi, diretor-técnico da Acrimat. “A Acrissul e a Acrimat começaram a conversar sobre a necessidade de, muitas vezes, a gente falar uma voz só. Porque os interesses dos dois estados são comuns e a pecuária de corte está sempre no nosso norte.” Das primeiras conversas saíram as discussões sobre estatuto, estrutura jurídica e participação de associações de outras regiões produtoras.

Para Bumlai, a união pretende ampliar a presença dos pecuaristas nas discussões que envolvem a indústria, o governo e os mercados compradores. “Nossa meta é realmente unir forças. Estamos conversando frequentemente sobre temas relevantes para, através dessa união de forças, ter uma voz uníssona que realmente seja a voz que represente a pecuária brasileira.” A entidade também pretende atuar nas discussões sobre barreiras comerciais relacionadas a exigências sanitárias e ambientais, por conta do peso crescente das vendas externas.

A reforma tributária aparece como uma das primeiras preocupações. Bumlai diz que o enquadramento de produtores com faturamento anual superior a R$ 3,6 milhões nas regras da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), e uma possível alíquota de 4,53%, dependerá das regras de transição e do tratamento tributário de cada operação. “Isso não foi debatido, isso não foi colocado de uma forma clara a todos os produtores”, afirma. A Unapec pretende discutir mecanismos de diferimento do imposto ao longo da cadeia, para que o recolhimento não recaia diretamente sobre a comercialização realizada pelo pecuarista.

Outra seara de trabalho da entidade é a rastreabilidade individual de bovinos, prevista no plano nacional coordenado pelo Ministério da Agricultura, com implementação gradual até 2032. A identificação dos animais deverá substituir progressivamente o acompanhamento exclusivamente por lotes, exigindo mudanças nos sistemas de controle das propriedades. “Entendemos que isso precisa ser melhor discutido. Há dúvidas se realmente vamos ter aí em 2032 essa obrigatoriedade, e é algo que vamos colocar em pauta”, diz Bumlai.

O presidente da Unapec também pretende levar às discussões setoriais a posição dos produtores sobre medidas comerciais adotadas por outros países. “O Brasil se tornou o maior exportador de carne mundial, mas isso também gera consequências. Muitas delas são através de barreiras comerciais, mas que vêm travestidas de questões sanitárias, ambientais, e precisamos estar preparados para defender esse tipo de ações de outros países.” Segundo ele, a entidade deverá reunir argumentos técnicos sobre sanidade e práticas ambientais para participar desses debates.

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