Em junho de 2026, o Insurtech Brasil reuniu 1,5 mil participantes para debater o futuro do setor. O consenso tácito era o mesmo que guia investimentos no mercado de seguros há uma década: a tecnologia vai reduzir a dependência do corretor, baratear o produto e ampliar o acesso. É uma lógica sedutora. Parte dela está errada.
O mercado de vida no Brasil opera com penetração abaixo de 20% da população. O ROE das grandes seguradoras brasileiras fica próximo de 29%, bem acima do que se vê nos Estados Unidos ou no México. Esses dois números não descrevem um mercado maduro com margem alta.
Descrevem um mercado pouco competitivo, com barreiras que protegem quem já está dentro. O problema que o setor precisava resolver nunca foi o corretor. Era a subscrição que levava dias, o exame médico, a papelada que cansava antes de assinar.
O diagnóstico que o setor ignorou
Rafael Cló fundou a Azos com essa leitura. O que ele enxergou não era uma lacuna no canal de distribuição: era uma infraestrutura construída para funcionar à margem de quem vende. “O corretor nunca foi o atrito desse mercado.
O atrito sempre foi o que há por trás dele. A aposta certa é dar tecnologia para o corretor e tirar de cima dele o peso da seguradora legada”, diz Cló. A Azos opera como uma insurtech focada em vida e coberturas complementares: doenças graves, invalidez e perda de renda. Soma mais de R$ 350 milhões captados, R$ 150 bilhões em capital segurado e 120 mil clientes, crescendo 90% ao ano.
Quando a IA resolve o problema certo
A inteligência artificial na Azos não foi implementada para substituir o corretor. Foi para absorver o que impedia o corretor de chegar ao cliente. A subscrição, que nas seguradoras tradicionais pode levar dias, passou a ser processada em segundos. O tempo de análise de sinistros caiu 90%. “A IA roda dentro de cada processo. O ganho mais relevante não é interno: é o que ela tira da frente do corretor parceiro”, diz Cló. Quando um dos maiores produtores de seguro de vida do país concentrou sua produção na Azos, nos primeiros meses, o sinal era claro: o problema nunca tinha sido falta de demanda. Era falta de uma empresa de seguros que fizesse o produto funcionar para quem vende.
O produto que o Brasil ainda não sabe comprar
Além da burocracia, o mercado de vida no Brasil carrega um problema que a tecnologia sozinha não resolve. Falar sobre morte aqui ainda carrega peso de superstição. Em mercados maduros, seguro de vida é parte do planejamento financeiro básico.
No Brasil, o produto precisa ser vendido por alguém em quem o cliente confie o suficiente para ter essa conversa. O corretor que atende à mesma família há anos é, para muita gente, essa pessoa. Tecnologia que reforça essa relação amplia o mercado. Tecnologia que tenta substituí-la apenas muda quem captura a margem.
A rede que valida o vácuo
A Azos foi selecionada para o ecossistema Endeavor Brasil. O processo reúne empreendedores e líderes para avaliar potencial de impacto e escalabilidade. Para a rede Endeavor, o empreendedorismo de alto impacto passa por founders que identificam vácuos antes de o mercado saber nomeá-los.
O Efeito Multiplicador que sustenta a tese da Endeavor tem, no caso da Azos, uma dimensão concreta: mudar a infraestrutura do mercado de seguros não muda só a vida de quem se torna cliente. Muda como os cerca de 200 mil corretores ativos no Brasil operam.
Se a tese se confirmar, o que muda no Brasil vai além da taxa de penetração. “Vai ter valido a pena se, em dez anos, tivermos fechado boa parte do gap de proteção. Mas quero ir além do seguro de vida puro: o seguro pessoal pode se posicionar como alternativa real para endereçar o problema de saúde do Brasil”, diz Cló.
O mercado que ele descreve tem precedente no que o Nubank fez com crédito e pagamentos. A diferença é que os seguros têm uma camada cultural que torna a jornada mais longa e exige, ao contrário do que o setor acreditou por anos, o corretor no centro.
A Endeavor é uma rede global presente em mais de 40 países e formada pelos empreendedores e empreendedoras que mais crescem no mundo. No Brasil desde 2000, acelera negócios com potencial escalável por meio do programa Scale-Up e promove conexões entre os maiores líderes do país e empreendedores em início de jornada. Também investe em startups em fases Seed e Series A, com o fundo Scale-Up Ventures.
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