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Programa do Airbnb.org Oferece Hospedagem Gratuita para Tratamentos Médicos

Airbnb.org começa a operar no Brasil com R$ 155 mil e três organizações responsáveis por selecionar as famílias e reservar os imóveis

9 min

A 20 minutos de chegar à casa onde ficaria em São Bernardo do Campo (SP), Letícia Martins recebeu uma mensagem que mudou os planos da família. A companheira de seu tio estava com herpes-zóster e a orientação médica foi não entrar no imóvel. Sua filha Catarina, então com nove meses, estava com a imunidade baixa durante o tratamento contra um retinoblastoma, câncer que atinge os olhos.

Letícia havia saído de Niterói, no Rio de Janeiro, para a terceira viagem a São Paulo desde que a doença foi diagnosticada, no fim de maio. Catarina faz o tratamento no GRAACC. Sem ter para onde ir, ela estacionou o carro e ficou na rua com a bebê, a irmã e a afilhada.

“Eu estava literalmente parada na rua, pensando no que a gente ia fazer. Já era fim da tarde e mês de férias”, conta.

A médica que acompanha Catarina ligou para Simone Mozzilli, fundadora e presidente do Instituto Beabá. A organização havia acabado de começar a operar o Estadias Médicas, programa do Airbnb.org que oferece acomodações gratuitas a pessoas que precisam viajar para fazer tratamentos, exames ou consultas.

“Em 15 minutos, a família já tinha um lugar para ficar”, diz Simone. O apartamento ficava próximo ao hospital e permitia que Catarina tivesse contato apenas com as três acompanhantes que haviam tomado as vacinas recomendadas por sua pediatra.

Para Letícia, o benefício foi além da economia em uma viagem que representa 900 quilômetros entre ida e volta. Cozinha, lavanderia e um ambiente reservado ajudaram a reduzir a exposição da bebê a infecções que poderiam interferir no tratamento.

“Ter uma acomodação que dê o mínimo de conforto faz muita diferença. Não é só o que você economiza. É uma questão muito mais complexa para quem está vivendo isso”, afirma.

Como funciona o Estadias Médicas

Lançado formalmente no Brasil em julho, o Estadias Médicas começa a operar no país com US$ 30 mil, o equivalente a R$ 155 mil, para financiar as acomodações.

O programa é conduzido pelo Airbnb.org, organização sem fins lucrativos fundada pelo Airbnb. As primeiras parceiras no país são o Instituto Beabá, o ChildFund Brasil e o INCAvoluntário, por meio da Fundação do Câncer.

As famílias não fazem a reserva diretamente na plataforma. As organizações recebem os pedidos, verificam a necessidade do paciente e procuram uma acomodação próxima ao local de tratamento.

“O Airbnb.org custeia integralmente as estadias: as famílias não pagam nada pela acomodação e os anfitriões são remunerados normalmente”, afirma Christoph Gorder, diretor executivo do Airbnb.org.

O Airbnb cobre os custos operacionais e isenta as taxas da plataforma. Dessa forma, o valor integral das doações recebidas pela organização é destinado ao pagamento de hospedagens médicas e de emergência.

A iniciativa não exige que o paciente seja atendido pelo SUS. No Instituto Beabá, a seleção também pode incluir pessoas com plano de saúde, desde que a organização identifique a necessidade do apoio. A ONG pede documentos e confirma as informações sobre o tratamento antes de fazer a reserva.

“Às vezes, a pessoa tem plano de saúde porque trabalha em uma empresa, mas não tem condições de pagar uma hospedagem. Os medicamentos também podem ser muito caros”, diz Simone.

O benefício não precisa estar vinculado a uma internação ou sessão de quimioterapia. Segundo a presidente do Beabá, a acomodação também pode ser reservada para consultas, exames de acompanhamento e situações de cuidados paliativos. Em alguns casos, permite que familiares acompanhem ou se despeçam de um paciente.

Expansão depende de novos parceiros

O Airbnb.org não estabeleceu uma meta pública de famílias ou diárias para o primeiro ano no Brasil. Nesta fase, a prioridade é estruturar a operação com as três instituições selecionadas.

“Uma parte central desse plano é a adição de novas organizações parceiras ao programa. Quanto mais parceiros, mais famílias o Airbnb.org pode ajudar a apoiar no país”, afirma Gorder.

A expansão deverá seguir o modelo adotado no México, mas o executivo pondera que as necessidades não são iguais em todos os mercados. “Cada país tem o seu próprio contexto, e a implementação no Brasil parte da realidade local.”

O Estadias Médicas foi lançado globalmente em outubro de 2025 e já possui parceiros em dez países, entre eles México, Espanha e Tailândia. Em 2026, aproximadamente 3 mil diárias médicas foram oferecidas no mundo.

A principal referência para a operação brasileira é o México, onde aproximadamente 40% do atendimento médico especializado está concentrado na Cidade do México. Desde o lançamento, mais de 300 noites gratuitas foram oferecidas a famílias mexicanas.

O Airbnb.org também assumiu o compromisso de destinar US$ 1,1 milhão (R$ 5,69 milhões) para financiar aproximadamente 12 mil diárias no país nos próximos anos. A operação mexicana reúne sete organizações, entre elas a Fundación Vuela, que apoia famílias de crianças com câncer, e a Fundación Lilo, dedicada ao atendimento de crianças com cardiopatias congênitas.

As estadias médicas ainda representam uma parcela pequena da atuação do Airbnb.org. Desde 2020, a organização ofereceu 1,6 milhão de noites de acomodação temporária gratuita em quase 140 países, principalmente para vítimas de desastres, refugiados e equipes de emergência.

No Brasil, o Airbnb.org atuou durante as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, e em Minas Gerais, em 2026. As duas operações somaram 2 mil noites de acomodação.

A aposta nas doações

O orçamento inicial será usado para financiar as reservas enquanto o Airbnb.org amplia a operação e busca doadores. Qualquer pessoa pode fazer contribuições únicas ou mensais para a organização.

“O que move o Airbnb.org é aproximar quem quer ajudar de quem precisa de ajuda”, afirma Gorder. “Muitas pessoas gostariam de contribuir, mas nem sempre sabem como.”

A organização ainda não divulgou projeções de arrecadação nem estimativas sobre a adesão dos brasileiros às doações recorrentes.

“A proposta é oferecer uma forma simples e concreta de ajudar e trabalhar para que cada vez mais pessoas possam doar e apoiar famílias que precisam de uma acomodação confortável enquanto buscam tratamento”, diz o executivo.

Christoph Gorder, diretor executivo do Airbnb.org, afirma que a expansão do programa no Brasil dependerá da entrada de novas organizações parceiras. (Crédito Divulgação)

A ponte entre os pacientes e os apartamentos

A chegada do programa ampliou a atuação do Instituto Beabá, criado em 2013 para explicar o câncer e outras doenças de maneira clara a crianças, adolescentes e suas famílias.

Simone era publicitária e mantinha uma produtora que atendia empresas de tecnologia e entretenimento. Paralelamente, fazia trabalho voluntário com crianças em tratamento contra o câncer.

Foi uma dessas crianças que a incentivou a retirar um suposto cisto no ovário. Durante a cirurgia, os médicos descobriram que Simone tinha câncer com metástases.

A experiência como paciente mostrou a ela como o medo da doença levava adultos e profissionais a evitar conversas francas sobre diagnóstico, dor e tratamento. Simone fechou a produtora e transformou o trabalho voluntário em uma organização.

O principal projeto da entidade é o Beabá do Câncer, um guia construído com a participação dos pacientes e que reúne quase 200 termos. Segundo o instituto, 32 mil pessoas já foram beneficiadas por suas iniciativas.

A nova frente, porém, trouxe uma demanda maior do que a equipe esperava. O Beabá possui entre sete e oito integrantes, dos quais quatro trabalham em período integral. Simone diz que a primeira reserva foi feita ainda em maio, antes do lançamento oficial do programa. No fim de julho, havia três acomodações simultaneamente em uso.

“Estamos ‘enlouquecidos’ com os pedidos de hospedagem”, disse. A pressão levou o instituto a indicar hospitais e outras organizações para as próximas etapas da expansão.

O que já existe para quem precisa se tratar longe de casa

O Estadias Médicas chega a um país no qual a distância até os centros especializados já mobiliza programas públicos e organizações filantrópicas.

Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, a parcela de pacientes internados fora de sua região de saúde passou de 11,5% em 2010 para 15,3% em 2023. O avanço foi de 3,8 pontos percentuais e está relacionado principalmente à concentração dos procedimentos de alta complexidade.

“É justamente essa barreira que o programa busca ajudar a remover no país”, afirma Gorder.

No SUS, o Tratamento Fora do Domicílio pode financiar transporte e diárias para alimentação e pernoite do paciente e de um acompanhante. O benefício depende de indicação médica, autorização e disponibilidade orçamentária do município ou do estado responsável.

Outra frente são as casas de apoio mantidas por organizações sociais. O programa Casa Ronald McDonald oferece hospedagem, alimentação e transporte gratuitos a crianças e adolescentes em tratamento contra o câncer e seus familiares.

Em São Paulo, a Casa Ronald McDonald de Itaquera, criada em parceria com a TUCCA, possui 23 suítes e recebe pacientes atendidos pelo Hospital Santa Marcelina.

No Rio Grande do Norte, a Casa Durval Paiva acolhe há 31 anos crianças e adolescentes com câncer e doenças hematológicas. A instituição afirma já ter assistido mais de 2 mil pacientes.

A diferença do Airbnb.org está no uso de uma rede de imóveis distribuídos por diferentes cidades. Isso permite procurar uma acomodação próxima ao hospital e adequada às necessidades de cada família, sem depender exclusivamente do número de vagas em uma casa de apoio.

Quem precisa de hospedagem deve procurar uma das organizações parceiras, que avalia o caso e realiza a reserva.

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