1. Início
  2. /
  3. Forbes ESG
  4. /
  5. Os Boomers Confiaram no Governo, Mas a Geração Z Desconfia até dos Bilionários da Tecnologia Quando o Assunto É Clima
Forbes ESG

Os Boomers Confiaram no Governo, Mas a Geração Z Desconfia até dos Bilionários da Tecnologia Quando o Assunto É Clima

À medida que o poder econômico e político muda de mãos, cresce entre os mais jovens a cobrança por ações concretas, menos promessas e uma nova visão para enfrentar a crise climática

6 min

O senso comum sustenta que, quanto mais jovem você é, mais confia na tecnologia para nos salvar das mudanças climáticas. A ideia é que os nativos digitais vão programar, desenvolver e inovar até encontrar uma saída. Na realidade, o contrário pode ser verdadeiro. A confiança em uma solução tecnológica para o clima parece diminuir a cada geração mais jovem, e essa mudança importa para qualquer pessoa que esteja desenvolvendo, financiando ou regulamentando soluções climáticas.

Coloque um boomer, uma pessoa da geração X, um millennial e uma pessoa da geração Z na mesma conversa sobre clima, e duas coisas ficam claras. O jogo de culpar gerações não vai nos levar muito longe, e aquilo em que cada geração acredita a respeito das soluções remonta ao que ela viu funcionar, ou fracassar, enquanto crescia.

Acreditamos nas soluções que vimos funcionar

Os boomers chegaram à idade adulta quando os problemas ambientais eram visíveis, locais e solucionáveis. Os rios cheiravam a produtos químicos, e a fuligem do carvão cobria os carros nos campi universitários. Então, um movimento liderado por jovens deu origem ao Dia da Terra, à Agência de Proteção Ambiental, à Lei do Ar Limpo e à Lei da Água Limpa, e a qualidade do ar e da água melhorou de forma mensurável.

Esse sucesso criou uma convicção duradoura: identifique o problema, aprove uma lei, desenvolva uma solução. Dan Delurey, um boomer que apresenta o podcast Four Generations Talk Climate, ou Quatro Gerações Falam sobre Clima, e que tem experiência em política energética e no setor de serviços de energia, argumenta que essa crença pode ter produzido o efeito contrário. “Muitos boomers, de certa forma, confiavam ou talvez esperassem que o governo fizesse alguma coisa a respeito disso”, disse ele. “E talvez isso tenha feito com que não fôssemos tão ativos quanto poderíamos ter sido.”

A geração X herdou a experiência oposta. Seus integrantes se lembram de ar e água limpos como condição normal e, depois, viram os indicadores climáticos piorarem durante toda a vida adulta, enquanto as indústrias extrativistas moldavam a agenda política a partir da década de 1980. Os millennials cresceram entre essas duas histórias, e a geração Z nasceu em meio a uma crise que já havia sido declarada urgente.

A solução tecnológica está perdendo seu brilho

Os millennials entraram no movimento climático em uma época de otimismo tecnológico. Parecia óbvio que a tecnologia limpa era o futuro. O Acordo de Paris captou esse sentimento: poderíamos ter ar limpo, bons empregos e crescimento constante ao mesmo tempo, desde que implantássemos a tecnologia certa com rapidez suficiente.

Essa proposta parece menos sólida hoje. O mundo está ultrapassando as metas de Paris, e a expansão da inteligência artificial está acrescentando uma enorme nova demanda por eletricidade justamente no momento em que as emissões precisam cair com maior rapidez. A menos que algo como uma fusão nuclear barata chegue quase da noite para o dia, mais tecnologia, por si só, não fará a trajetória mudar a tempo.

A geração Z, a geração mais imersa no mundo digital, é a mais abertamente cética. Hannah Testa, ativista climática desde os dez anos de idade e atualmente estudante de pós graduação na Yale School of the Environment, rejeita a ideia de que líderes da tecnologia, como Sam Altman, da OpenAI, apresentarão uma solução por meio da inteligência artificial. “Não precisamos esperar que essas novas invenções apareçam para nos salvar em relação ao clima”, disse ela. Sua geração direciona cada vez mais sua frustração não aos boomers de maneira ampla, mas a um grupo restrito de bilionários, tecnocratas e lobistas dos combustíveis fósseis que lucram com a manutenção da situação atual.

Testa, que cresceu na Geórgia, defende a inclusão das pessoas em vez de criticá-las publicamente. Muitas pessoas presumem que os ambientalistas querem tirar delas seus carros, seus voos e suas visitas à família. Um movimento que começa pela vergonha não conquistará a maioria de que precisa, especialmente em lugares onde os vizinhos ainda duvidam que as mudanças climáticas sejam reais.

Promova a abundância, não o sacrifício

Heather White, advogada ambientalista da geração X e autora que atualmente trabalha com ansiedade ecológica por meio de sua organização sem fins lucrativos One Green Thing, argumenta que a solução passa por uma visão diferente do futuro. “Como ambientalistas, só falamos de escassez e precisamos começar a falar de abundância”, disse ela. Isso significa ar limpo e águas próprias para banho para todos, transporte público gratuito e telhados verdes, um mundo pelo qual as gerações futuras nos agradeceriam.

White também aponta indícios de que uma mudança coletiva é possível. Nas primeiras semanas da COVID 19, as pessoas deixaram de viajar de avião, mudaram suas rotinas diárias e as emissões caíram acentuadamente. Aquilo não foi uma estratégia climática, mas mostrou o que acontece quando vontade política e propósito compartilhado se alinham.

Quem controla as alavancas

As gerações menos convencidas pelas soluções tecnológicas também são aquelas que têm menos poder. Os boomers ainda predominam no Congresso, nos conselhos de administração das empresas e, de forma crucial, na riqueza disponível para investimento. A geração X continua com pouca representação na liderança nacional, e os millennials só agora estão chegando a cargos de vice presidência e funções executivas.

Isso cria uma divisão de trabalho. As gerações mais velhas controlam a poupança para aposentadoria e o capital institucional. As gerações mais jovens fornecem a energia para a mobilização, desde campanhas nos campi pela retirada de investimentos direcionadas aos fundos patrimoniais das universidades até a pressão sobre empregadores. Esse equilíbrio não vai durar. As gerações menos convencidas de que a tecnologia vai nos salvar estão prestes a assumir as salas de conselho, as carteiras de investimento e as urnas. Elas ficarão menos impressionadas com promessas sobre a próxima grande inovação e mais interessadas em saber quem está disposto a mudar hoje a maneira como os negócios são conduzidos.

Publicada originalmente em Forbes EUA

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.