Rafael Segrera, da Schneider Electric, sobre o papel da sustentabilidade na reinvenção das empresas pós-Covid-19: “Agora é a hora de agir”

Divulgação/Schneider Electric_
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A exaustão dos recursos naturais pode causar impactos ainda mais graves do que a pandemia

Tal qual um orçamento anual que se esgota quatro meses antes do previsto, a partir deste mês já teremos consumido todos os recursos que o planeta Terra demora um ano inteiro para repor e até dezembro de 2020, teremos consumido 1.6 planeta.

O dia 22 de agosto, conhecido como Earth Overshoot Day, marca a data em que este esgotamento ocorre e passamos consumir estoques de recursos naturais locais, além de acumular dióxido de carbono na atmosfera. A última vez em que o consumo de recursos naturais da Terra foi equilibrado com sua capacidade de regeneração anual foi na década de 70.

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Esta sobrecarga tem graves consequências, tanto para o meio ambiente quanto para a economia. Emissões de gases de efeito estufa podem provocar um aquecimento global da ordem de 2°C até 2050 se medidas de descarbonização não forem tomadas. Isso pode levar a uma queda no produto interno bruto (PIB) global entre 2,5% a 7,5% nos próximos 30 anos, segundo estatísticas da Universidade de Oxford. No longo prazo, se o aumento de temperaturas chegar a 4°C, uma redução no PIB de até 30% é possível.

No atual contexto global de instabilidade socioeconômica, a descarbonização se tornará um tema cada vez mais freqüente em agendas de executivos no mundo: segundo um recente relatório de mega-tendências da consultoria EY, o fracasso em avançar na descarbonização resultará em grandes problemas sociais e econômicos.

O relatório alerta que, no mundo pós-pandemia, não bastará ser neutro: empresas devem fazer contribuições positivas, adotando, por exemplo, energia renovável, operações de transporte elétrico e soluções de remoção de carbono para reverter suas emissões.

A crise também apresenta uma oportunidade para reverter um cenário em que políticas de sustentabilidade não surtiram o efeito necessário. Segundo Rafael Segrera, presidente para a América Latina da empresa de transformação digital em gerenciamento de energia e automação Schneider Electric, a pandemia pode ser considerada um ”freio de arrumação”: “[A Covid-19] moveu artificialmente a data de sobrecarga da Terra em três semanas, com um enorme custo sócio-econômico. Portanto, este é o momento de agir”, aponta.

Para ilustrar seu argumento, Segrera cita a oportunidade de negócios associada ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, de US$ 12 trilhões, bem como a capacidade de geração de 380 milhões de empregos até 2050, segundo estimativas da Business & Sustainable Development Commission. Segundo o executivo, tudo isso se pauta em negócios reinventados para conciliar o equilíbrio ecológico e o bem estar das pessoas.

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Uma enorme transformação está em curso no que diz respeito à agendas de sustentabilidade, segundo Segrera, que observa mudanças significativas em relação a expectativas da sociedade e investidores em relação às empresas, com uma cobrança pela incorporação de melhores práticas ambientais, sociais e de governança.

“Isso reforça o uso racional do capital natural, o respeito aos direitos humanos e trabalhistas e a geração de valor compartilhado para sociedade. Tudo combinado com uma gestão ética e totalmente avessa à corrupção, garantindo solidez e resiliência aos negócios”, ressalta.

Segundo Segrera, a situação atual deve servir como linha de base para que gestores entendam que não há mais tempo e espaço para procrastinação: “os efeitos das mudanças climáticas e exaustão dos recursos de nosso planeta podem gerar, em um futuro próximo, crises ou eventos muito mais graves, complexos e duradouros que a atual pandemia.”

A seguir, veja destaques da conversa que Segrera teve com a Forbes sobre a descarbonização e por que tomadores de decisão devem se importar com o tema:

FORBES: Quais são os desafios que organizações costumam enfrentar quando decidem focar na descarbonização e as razões pelas quais é tão difícil fazer com que esse assunto seja tratado como prioridade?

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Rafael Segrera: O maior desafio é conciliar o planejamento de longo prazo com as necessidades de retorno no curto e médio prazos. A descarbonização envolve planejamento de 20 a 30 anos, com o estabelecimento de metas ambiciosas atreladas a compromissos públicos. Isso requer uma profunda transformação na compra e uso da energia, substituição de ativos e processos industriais, indução e engajamento da cadeia de fornecimento e avaliação do ciclo de vida dos produtos. No que tange aos aspectos econômicos, é fundamental adotar uma precificação de carbono, mesmo que interna, na ausência de mecanismos locais de mercado ou taxação, para a correta avaliação do retorno dos investimentos necessários.

Este assunto não é tratado com a devida prioridade por certo desconhecimento de como mensurar os riscos que as mudanças climáticas podem trazer para o “core business” da organização. Entre os desafios estão a incapacidade de alinhar estas ações de longo prazo aos ciclos mais curtos de planejamento de negócios, a ausência de governança climática para impor metas aos distintos segmentos econômicos e, por fim, uma maior pressão por parte das grandes empresas sobre suas cadeias de fornecimento para a descarbonização.

É importante mencionar o papel da tecnologia e da digitalização para apoiar as organizações a superar os desafios da descarbonização, principalmente, na melhora da capacidade de monitoramento e a geração de indicadores de sustentabilidade em toda a cadeia de valor. Dispositivos conectados à Internet da Coisas e softwares de monitoramento permitem rastrear recursos e o desempenho de equipamentos de forma precisa, facilitando o gerenciamento e otimização das iniciativas de sustentabilidade.

Nós divulgamos no último ano, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, um estudo que demonstrava que 79% dos profissionais que atuam nas áreas de energia e sustentabilidade já buscavam coletar estes dados e, por meio de relatos sobre projetos realizados em nossos clientes, comprovamos que a aplicação de nossas tecnologias de automação e gerenciamento de energia permitiram que estas empresas conseguissem reduzir em até 50% sua pegada de carbono, embora em média, as reduções estejam em volta de 20%.

F: Considerando o foco em transformação digital em organizações ocasionado pela pandemia, de que formas seria possível avançar na descarbonização (e talvez até reverter emissões) com uso de ferramentas digitais?

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RS: Existem múltiplas possibilidades, começando pelo trabalho remoto e as ferramentas de interação digital, que permitiram reduzir consideravelmente as emissões em cidades que têm uma dependência elevada do transporte individual, ou mesmo viagens áreas que costumavam ser realizadas para a prospecção de clientes e fechamento de projetos.

Quando falamos da transformação digital das indústrias, infraestrutura, edifícios, data centers e residências, temos amplas possibilidades de digitalizar os processos de concepção, construção, operação e manutenção dos projetos. Isso permite às organizações terem mais informações relevantes, em tempo real, permitindo uso mais racional dos recursos naturais, melhoria da performance energética e redução significativa das emissões associadas.

F: A descarbonização parece ser um tema predominante entre grandes empresas que possuem mais recursos. De que formas startups podem avançar nessa agenda?

RS: A descarbonização deve ser um tema central para todas as organizações. Ou seja, não é porque possuem mais recursos, mas sim porque querem aplicar melhor seus recursos, serem produtivas, competitivas, rentáveis e primordialmente sustentáveis, independentemente do seu porte.

Um estudo publicado recentemente pela WRI Brasil and The New Climate Economy Project demonstrou que uma recuperação baseada em uma economia resiliente de baixo carbono tem o potencial de gerar 2 milhões de empregos e um incremento de US$ 535 bilhões no PIB do Brasil até o ano de 2030.

Porém, isso depende do engajamento não somente dos grandes players, mas também das pequenas e médias empresas, que respondem por cerca de 30% da atividade econômica no Brasil, bem como de um esforço governamental para prover o arcabouço regulatório necessário para a construção dessa nova economia.

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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