Olhar para a história, renovar uma identidade, reafirmar sua vocação multidisciplinar e ampliar o diálogo artístico. Pode-se dizer que foi isso que Maria Grazia Chiuri fez na direção criativa das linhas femininas da Dior, em uma jornada que teve início em 2016 e chegou ao fim nesta quinta-feira (29). Mas a frase também se aplica à sua nova empreitada como proprietária do recém-restaurado Teatro Della Cometa, em Roma, que comprou em 2020 e cuja faixa de reabertura ela corta agora, após um período de cinco anos com as portas fechadas.
Se a tradicional casa de espetáculos romana será o único foco profissional da estilista italiana daqui em diante, ainda não se sabe. Mas, para seu último ato na grife, Chiuri optou por entrelaçar seu projeto pessoal com o cargo que ocupou nos últimos 9 anos dentro da maison francesa: o teatro foi fundado em 1958 por Mimì Pecci-Blunt, mecenas das artes do início do século 20 que também serviu de inspiração para a apresentação desta quarta (27), realizada na Villa Albani Torlonia.
Mimì era conhecida por oferecer grandes bailes temáticos, desses com dress code e tudo, o que orientou o pedido da grife para que todas as convidadas do desfile vestissem branco (incluindo nomes célebres como Natalie Portman, Marisa Schiaparelli Berenson e Rosamund Pike) e os convidados vestissem preto.
Nesse Bal de l’Imagination, a recepção contou com performers que coreografaram o despertar de estátuas adormecidas pelos jardins, liderados pelo duo holandês Irme e Marne Van Opstal. Na cenografia, a obra do artista Pietro Ruffo pontuava a decoração original. Na trilha sonora, a música da orquestra Sinfonietta era conduzida pelo britânico Oliver Coates.

Parece muita coisa? E é, mesmo. Uma “bella confusione” (ou: bela confusão) como diziam as notas entregues aos convidados, em referência à frase que Ennio Flaiano sugeriu originalmente como título para o filme “8½” de Fellini. Aqui, seleciono 3 ideias sobre o que realmente marcou o Cruise 2026 da Dior.
Borrando as linhas
Borrar a linha entre a realidade e a ficção foi o tema central do desfile, que olhou para figurinos emblemáticos de filmes italianos realizados pela sartoria Tirelli (entre eles, “O Leopardo”, de Luchino Visconti, e “Medea”, de Pier Paolo Pasolini). O styling do desfile, que contou com vendas rendadas sobre os olhos das modelos, sugeria um disfarce, como uma permissão para flertar com algo para além da roupa, cruzando a linha entre o real e o figurativo e, em alguns looks, entre a cliente da grife e uma personagem. Eram da ordem dos sonhos também os vestidos rebordados com efeito trompe l’oeil – hits da coleção, que certamente vão brilhar em algum red carpet muito em breve, pode apostar. Outra fronteira interessante também foi cruzada: enquadrado dentro do segmento de ready-to-wear, o Cruise desta vez contou com nada menos que 31 looks de alta-costura.

Atmosfera cinematográfica
Cidade natal de Maria Grazia, Roma pode ser conhecida como a “cidade eterna”, mas é também celebrada por seu histórico como pano de fundo para a era de ouro do movimento audiovisual italiano. Na ocasião do desfile, foi perceptível a força-tarefa da grife para que esse aspecto cinematográfico estivesse presente, desde o local escolhido (os jardins da Villa Albani Torlonia seguem guardados até mesmo dos moradores da cidade) até a atmosfera (com uma leve bruma cenográfica no ar, rimando com o belíssimo curta-metragem dirigido por Matteo Garrone para a maison). Mas nem mesmo os esforços e recursos investidos pelo grupo LVMH na grandiosidade do show poderiam antecipar o que aconteceu: segundos antes da primeira modelo caminhar sob os holofotes, uma leve chuva começou a cair, parando a tempo do grand finale – como se estivesse ali só para adicionar mais drama à cena. Parece que funcionou!
A Dior dela
Em 1989, Gianfranco Ferré foi o primeiro estilista italiano a comandar uma maison francesa: a Dior. Em 2016, Maria Grazia Chiuri se tornou a primeira mulher na direção criativa da grife. De certa forma, fez a Dior dela: no recém-lançado documentário “Her Dior”, a estilista conta que, quando foi contratada, disse aos executivos da Dior que o “New Look” (a silhueta mais característica da marca) não era para ela. Ao olhar para suas coleções, dá para ver como Chiuri soube manter os códigos de feminilidade e elegância da tradição de Monsieur Dior, sem sucumbir ao arquivo de maneira literal. Vale a pena dizer: não havia uma única Bar Jacket ou sequer um salto alto em todo o desfile. Mesmo assim, foi aplaudido de pé. Grazie, Chiuri!
Com Antonia Petta e Milene Chaves
Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.