De um lado, Francisco Brennand (1927‑2019), artista pernambucano que conviveu com barro, cerâmica e fogo. Sua obra nunca foi apenas matéria; foi invenção, mitologia pessoal, fertilidade visual. O ovo, a serpente, o pássaro mítico e o relevo cerâmico parecem sair do chão, da argila, da memória do Nordeste, e ao mesmo tempo, respirar mais longe: nos murais, painéis, esculturas que imortalizaram sua produção artística, de seu ateliê em Recife para o mundo. Do outro lado, a Sauer, marca fundada em 1941, que já construiu reputação por entender joalheria como mais do que belos adornos. Sob o comando da diretora criativa Stephanie Wenk, a marca vê pedras naturais, madeira, formas e técnicas artesanais como uma matéria viva, sujeita a tensões e transformações. Inclusive as artísticas.
Neste mês de setembro, a Sauer apresenta uma edição limitada com 12 peças exclusivas, realizadas a partir de um enlace criativo com a Oficina Francisco Brennand (e apropriadamente reveladas durante a feira de arte The Armory Show, em Nova York, e a ArtRio, aqui no Brasil).
Broches e anéis trazem o ovo como forma central, reinterpretado não só como símbolo de renascimento, mas como objeto escultórico. Colares incorporam limestone fóssil (uma pedra que contém fragmentos de vida marinha antiga), em contraste com o brilho frio de diamantes e a leveza translúcida da água‑marinha. Nesse diálogo, turmalinas verdes se mesclam à fragmentos de cerâmica Brennand, em superfícies que nem sempre são lisas: às vezes surgem mostrando belíssimas irregularidades, que revelam o valor precioso do que é feito à mão.
“Quando Marianna Brennand nos convidou a pensar nessa coleção, foi uma grande honra”, conta Stephanie, em entrevista à coluna. Ela deixa claro que não se tratou de simplesmente “pegar amuletos visuais” da obra de Brennand, mas sim criar conexões com ela. “Desde o início, sabíamos que queríamos dialogar com uma obra que carregasse simbolismos profundos e conversasse com os temas centrais do nosso trabalho: forma, memória, matéria e transformação”.
A cerâmica foi uma adição inédita ao repertório da joalheria. “Incorporar a cerâmica à Sauer foi um desafio tão instigante quanto belo. Cada material carrega suas próprias exigências técnicas e poéticas, adaptar o trabalho para uma escala muito menor do que aquela com a qual a Oficina está habituada, ajustando técnicas de escultura e queima ao universo da joalheria.” Um trabalho de paciência: cerca de um ano entre pesquisa, experimentação e acabamento final.
Para além das pedras, o valor estético da coleção está também nos contrastes. Há tensão entre o bruto e o precioso, entre o barro que resiste ao polimento e os diamantes que exigem lapidação, entre formas orgânicas e linhas geométricas. Peças dignas de colecionador: de arte ou de joias, nesse caso tanto faz.
Com Antonia Petta e Milene Chaves
Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.
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