Por trás de algumas das movimentações mais significativas do mercado de arte brasileiro nas últimas décadas, estão um ex-florista do recôncavo baiano e um ex-dentista carioca forjado na aeronáutica. Antônio Almeida e Carlos Dale nunca foram figurinhas fáceis nas rodinhas endinheiradas da nata da arte no país. Mas, juntos, eles não apenas construíram um dos principais grupos privados de arte do Brasil, como vêm liderando uma reconfiguração silenciosa do setor.
Carlos e Antônio vieram de universos distintos. Dale nasceu no Rio, cresceu no interior de São Paulo, é formado em odontologia com atuação na Força Aérea Brasileira e mestre pela Escola Paulista de Medicina. Ele tinha acabado de dar baixa no serviço militar, com o qual, aliás, era muito feliz, para fazer doutorado na Suécia com um especialista de sua área quando a vida mudou de rumo. Pouca gente sabe, mas o Dale, que dá nome à galeria, veio de Ana Dale, sua mãe, que já trabalhava com Antônio. O encontro com o Dale filho aconteceria poucos anos depois. Mas, antes, voltemos à outra metade do díptico.
Antônio Almeida deixou o recôncavo baiano aos 15 anos. “Vim morar com uma tia que era enfermeira. Sabia que queria algo maior na vida, mas ainda não sabia o que era.” Quando chegou, ele trabalhou como estoquista e empacotador em um mercado, montou uma floricultura e comprava e vendia carros nas feiras aos finais de semana. Um dia, a prima, que trabalhava em uma galeria chamada Portal, comentou que ele estava cansado e infeliz no trabalho e sugeriu que ele falasse com sua chefe, Malvina Gelleni, que precisava de uma pessoa que fosse de vendas, mas que fizesse de tudo. “Ela gostava da minha prima e apostou em mim. Na segunda-feira seguinte, eu já estava trabalhando para ela. Era vendedor, motorista, embalava e pendurava. Aos finais de semana, ia de kombi com as obras embaladas acompanhar os arquitetos em Alphaville”, lembra.
Antônio virou o braço direito de Malvina. Aos poucos, ajudou a reorganizar a estrutura da galeria, colocou as contas em dia e, em três anos, o espaço decolou. “Um dia chamei ela para conversar sobre possibilidades futuras e ela disse que já estava cansada, que pensava em parar. Mas eu estava querendo casar, construir coisas e então disse que ia sair antes. Ela pediu um tempo para arrumar uma pessoa.”
E foi durante um clássico chá da tarde no hotel Maksoud Plaza que Malvina e Ana Dale, que na época vendia joias, se conheceram e decidiram trabalhar juntas. Antônio não saiu; o filho dentista de Ana, que ia para a Suécia, acabou animado para encarar um novo desafio ao lado da mãe e a pedido de Antônio. Começava aí a parceria que sairia da galeria Portal e daria origem à Almeida e Dale como conhecemos hoje.

A dupla começou pequena, em uma casa focada no mercado secundário de arte, que trabalha sem artistas próprios e comercializa obras que já foram vendidas anteriormente. Em 2013, a venda de um Portinari deu o fôlego de que eles precisavam para mudar de patamar.
“Eu e o Carlos somos empreendedores, somos visionários. Nós temos uma visão de país diferente dos nossos pares. Enxergamos coisas que o mercado, durante muito tempo, talvez por algum motivo, não entendeu ou resolveu ignorar” — Antônio Almeida
Antônio, que usava a sensibilidade para fazer os arranjos na floricultura, encontrou-se na profissão. “Arte é sensibilidade e nessa profissão eu finalmente entendi como poderia usar isso com uma finalidade maior. O que me encanta no meu trabalho é a cultura. A possibilidade de desbravar esse país, de dar oportunidade para as pessoas que não têm, de descobrir um artista, como nós descobrimos vários que estavam aí esquecidos, reposicionar e mudar a vida de uma família. De colocar o artista em uma posição em que ele deveria estar e nunca esteve, assim como aconteceu comigo.”
Para Carlos, a mudança radical despertou o lado empreendedor. “Nosso mercado é frágil e pouco organizado. Me apaixonei pela possibilidade de profissionalizar esse negócio. Nos entendemos tão bem que apenas com um olhar já sei no que o Antônio está pensando. Acredito que é preciso ter um plano, e nós temos o mesmo”, diz.

Expansão com estratégia
Em fevereiro de 2025, uma notícia abalou o mercado de arte nacional. Uma das galerias mais tradicionais e importantes do país, a Millan, foi fechada e teve todo o seu corpo de artistas adquirido pela Almeida e Dale. Nomes como Tunga, Amilcar de Castro e Jaider Esbell sairiam de uma galeria com trabalho de curadoria considerado autoral para fazer parte de um grupo em expansão.
O que o mercado não sabia é que, cinco anos antes, a Almeida e Dale já atuava em sociedade sigilosa com a Millan. Passado o “período de teste”, o acordo de venda passou a ser interessante para ambas as partes, e atualmente André Millan atua como diretor artístico da galeria e Socorro de Andrade Lima, como diretora comercial. “André é um dos melhores, se não o melhor olho do mercado, e é maravilhoso poder tê-lo conosco”, diz Antônio.
A mais recente manobra de peso da dupla, anunciada no dia 23 de setembro, envolve Leonilson. A galeria passou a representar o espólio do artista, um dos maiores do século 20, em todo o mundo.
A visão da Almeida & Dale vai além do eixo Rio-São Paulo. A dupla aposta na descentralização como pilar de crescimento e democratização do acesso à arte. Hoje, o grupo é formado pela galeria Flexa, no Rio de Janeiro; a Cerrado, com unidades em Goiânia e Brasília; a Marco Zero, em Recife; a Claraboia, em São Paulo; e Almeida & Dale, em São Paulo – com previsão de abrir em Paris em 2027. Entre os planos, está ainda a vontade de já pincelar o mercado nova-iorquino em breve.

“Eu e o Carlos somos empreendedores, somos visionários. Nós temos uma visão de país diferente dos nossos pares e talvez diferente dos outros desse mercado. Nós entendemos o tamanho do Brasil, viajamos muito, fazemos muitas feiras internacionais. Enxergamos coisas que o mercado, durante muito tempo, talvez por algum motivo, não entendeu ou resolveu ignorar porque já estavam em uma situação confortável. Por muito tempo, esse mercado foi de rico para rico”, diz.
A dupla conta que a descentralização do mercado é planejada. Cidades como Cuiabá e Campo Grande estão na mira há uma década. Para eles, existem grandes artistas esquecidos fora de São Paulo. Entre os nomes que eles se orgulham em evidenciar estão Hélio Melo e Ivan Campos, do Acre. “Nessas regiões existem não apenas artistas incríveis que devem ser trabalhados, mas também público com enorme potencial. Queremos que, ao chegar em Goiânia, você tenha uma galeria conectada com São Paulo. Ao chegar em Brasília, você tenha uma galeria conectada com São Paulo. Ao chegar em Fortaleza, no Recife, na Bahia, exista uma galeria conectada com São Paulo. Porto Alegre, Curitiba, Santa Catarina, tudo conectado.”
A dupla aposta ainda na mudança geral do mercado. Segundo eles, há alguns anos, comprar arte era algo restrito, não apenas a uma elite, mas a pessoas de uma faixa etária mais elevada. “Hoje também temos clientes muito jovens. Gente que estudou fora do país, que tem acesso a diferentes culturas, que tem olhar apurado. Alguns compram obras de entrada, mais baratas e que podem valorizar, e outros já são colecionadores importantes. Queremos que essa turma também se sinta incluída nesse meio”, diz Antônio.

Para Carlos, o DNA da galeria é de ser uma facilitadora nesse mercado. O propósito é orientar as compras e deixar o cliente feliz. “Não sei nem contar quantas vezes já tirei telas da minha coleção particular porque era algo que o cliente estava buscando. A não ser que tenha sido um presente, abro mão de qualquer uma das minhas obras para deixar um cliente meu satisfeito.”
E quando, em uma sala entre dezenas de telas de Volpi, Bandeira, Di Cavalcanti, Os Gêmeos, Portinari e Adriana Varejão, eu pergunto se eles se consideram outsiders nesse mercado, a resposta é direta: “Talvez para o mercado nacional sim. Temos origem e pensamento diferentes, mas estamos totalmente alinhados com os principais mercados de arte no mundo, e queremos que o Brasil também seja um deles.”