Poucas estreias foram tão aguardadas quanto a de Jonathan Anderson à frente da coleção feminina da Dior. Depois da coleção masculina, em fevereiro, e de alguns spoilers no Festival de Veneza (não perca a minha coluna na edição impressa da Forbes de outubro!), em que a marca vestiu atrizes com looks já assinados por J.Anderson, a estreia oficial aconteceu nesta terça-feira (01/10) na Semana de Moda de Paris.
O novo diretor criativo entende o peso da responsabilidade que recai sobre si. Antes dele, Maria Grazia Chiuri, John Galliano, Gianfranco Ferré e Yves Saint Laurent foram alguns dos nomes que ocuparam sua cadeira. No início do desfile, um vídeo assinado pelo documentarista britânico Adam Curtis reuniu uma edição de momentos históricos da marca, incluindo esses criadores, ora intercalados por cenas de filme de terror – assumir essas rédeas pode ser um pouco assustador, não é mesmo? A tela era uma pirâmide invertida que quase tocava uma caixa colocada no chão: a caixa que contém a história da marca, e que agora conterá seu futuro. Em tempo: A Caixa de Pandora é também o nome de uma série assinada pelo documentarista nos anos 1990.
História recontada, é hora de começar uma nova fase. Assim, as luzes acenderam e uma série de looks entraram na passarela. Entre revisitar o arquivo e propor o novo, o estilista ficou com os dois: shapes, cores, adornos e vontades conversam com os novos tempos fazendo referência aos clássicos da maison. “A história da Dior é ao mesmo tempo familiar e surpreendente” é uma das frases escritas pela marca para explicar a coleção. Listei seis pontos de atenção que devem marcar a era Jonathan Anderson na maison francesa fundada em 1946.
A construção
O novo diretor criativo trabalha a construção das peças com dobraduras e volumes que podem ser fluidos como na seda ou encorpados como no Tailleur Bar míni, releitura do new look criado por Dior no pós-Guerra. Neste último caso, as peças guardam um aspecto escultural. Com esse recurso, ele recria clássicos, como as pétalas do famoso vestido Junon, que viram fitas na barra do vestido, ou camadas de tecido como babados embutidos, outra referência histórica.
O shape
De grandes proporções, afastadas do corpo, as peças têm movimento e volume. Ele adequa a modelagem ampla à feminilidade, que é requisito básico na maison francesa, lançando mão de tecidos fluidos, bordados, plissados, renda e balanço.
O hi&lo
Peças bem trabalhadas, com direito a adornos como botões dourados, e efeitos como recortes que revelam a pele, por vezes vão acompanhadas de peças simples como uma minissaia jeans. As capas vão com jeans retos. O diretor criativo fala sobre tensão: por um lado, a estrutura; por outro, a falta dela.
O laço
É a temporada dos laços, símbolo de feminilidade eleito por Christian Dior ao lado das rosas e da cor rosa claro. J. Anderson usa o recurso para enfeitar tanto camisas de seda quanto vestidos delicados, ou mesmo o paletó finalizado com laço e com recortes na barra, uma versão romântica e decorativa.
O volume
O efeito balloon aparece como recurso estético que ajuda a criar shapes afastados do corpo. Ele está no vestido míni, nas saias longas e também em blusas plissadas, criado com tecidos fluidos que balançam ao caminhar.
O sapato
Os pés oscilam entre o chique e o fun. Já dá para apostar que as sandálias tipo slingback, de cetim e com laço no cabedal, vão se tornar item do tipo “quero-já”. Além do salto mais alto desse clássico da marca, o detalhe está no bico assimétrico em formato D – quadrado na parte de dentro e arredondado na parte de fora. A linha de sapatos é assinada por Nina Christen, que agora acompanha a era J. Anderson na Dior. Duas estreias e tanto!
Com Antonia Petta e Milene Chaves
Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.
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