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Arte Afrobrasileira em Nova York na Exposição “Carnaval, Lutas e Outras Histórias Brasileiras”

Em Nova York, exposição com obras de Alberto Pitta e Elian Almeida exalta o legado afrobrasileiro em diálogo cromático vibrante

6 min

Entitulada em inglês, “Carnival, Struggle and Other Brazilian Stories” (Carnaval, Lutas e Outras Histórias Brasileiras), a exposição em nossa galeria novaiorquina reúne obras de Alberto Pitta e Elian Almeida para celebrar o legado cultural afro-brasileiro.  Além de serem de gerações diferentes – Pitta, nascido em Salvador, tem 64 anos, Elian, carioca, tem 32 -,  e ter técnicas e olhares bem distintos, os dois nutrem-se na raiz da memória, da ancestralidade e do ativismo para a preservação da identidade afrobrasileira.

“Um personagem quase folclórico do Pelourinho”, é como o amigo Vik Muniz descreve Pitta, há quase quatro décadas um dos mentores da rica visualidade do carnaval de Salvador. Pitta ficou conhecido por produzir as serigrafias que ostentam símbolos Iorubás nas estampas dos tecidos desfilados nos abadás e nas vestes de blocos afro e de índios do carnaval soteropolitano. Sua pintura em tela surgiu de outro modo, veio impulsionada por sua vontade de criar e vencer desafios durante o isolamento forçado que todos enfrentamos na pandemia. Nelas, em geral, utiliza como base a serigrafia, que domina como poucos, sobre a qual pinta a mão livre com tinta acrílica. Sua técnica mista resulta em telas de dois universos cromáticos: as coloridas e as monocromáticas em branco sobre branco. As brancas são uma releitura criativa desenvolvida por ele, inspirada na técnica de bordado Richelieu, ofício que aprendeu de menino da mãe, a falecida Ialorixá Mãe Santinha, que sustentou dez filhos bordando as roupas brancas das baianas. Coloridas ou monocromáticas, as telas de Pitta festejam o carnaval negro baiano, celebram os orixás através de seus símbolos, e os rituais do Candomblé e da cultura Iorubá.

Elian Almeida, por outro lado, impõe um olhar contemporâneo sobre a história afrobrasileira baseado em sua investigação da pintura figurativa colonial brasileira, retratando baianas em seus afazeres nas tradicionais roupas brancas. Nelas o artista imprime uma linguagem autoral em telas de técnica mista com tintas acrílica e a óleo, às vezes combinadas a folhas de ouro. Em geral, ele parte de apropriações de cenas de fotografias vintage ou de registros dos artistas viajantes do século 19, como Debret e Frans Post, que cruzaram os mares para documentar a paisagem cultural e natural do Novo Mundo. Mas Elian não para nisso. O artista carioca subverte as cenas e figuras tradicionais com sua pincelada característica inserindo elementos que simbolizam resistência e ativismo político que expressam a contemporaneidade de sua pintura.

Em se tratando de direitos humanos, a verdade é que nossos tempos ainda são míopes, mas, felizmente, bem menos obtusos do que aqueles enfrentados por pioneiros como Heitor dos Prazeres, Rubem Valentim, Mestre Didi, Abdias do Nascimento, Emanoel Araújo e outros grandes nomes afrodescendentes da nossa arte já falecidos.

Cortesia Galeria Nara Roesler NYElian Almeida, Um sonho chamado república (The New York Times), 2025, tinta acrílica sobre tela, 133x158cm

Recentemente, li um episódio significativo pouco conhecido da nossa história. Dez anos antes da abolição da escravatura, Estevão Silva, filho de africanos escravizados e primeiro afrobrasileiro a se destacar na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio, antiga capital, teve uma reacão sem precedentes durante a solenidade de premiação na academia dada pelas mãos do próprio Pedro II. Ao ouvir do imperador que cabia à sua pintura o segundo prêmio e não o primeiro, bradou inconsolado: “Injustiça!”  Estevão Silva (1845-1891) ganhou fama de rebelde mas tornou-se o artista de origem negra a fazer o primeiro ato público de resistência na história das nossas artes visuais.

Alberto Pitta: O carnavalesco X O artista

“Existe a crença que carnavalesco não é artista plástico. Não sei de onde surgiu isso. Sempre criei estampas e carros alegóricos instalativos para o Carnaval Negro de Salvador. Obviamente, quando você vislumbra o mercado de arte, o conceito muda porque a plataforma não é a mesma. Na minha arte, tomo emprestado a simbologia dos orixás, os signos milenares de África, suas histórias, seus ensaios e busco decodificar o que é possível e trago à luz o que entendo e aquilo que os olhos podem ver. Minha missão é expandir o conhecimento da história dos negros no Brasil e firmar a importância desse legado que me foi passado pelos meus antepassados e garantir que nossos esforços serão preservados e passados à diante.  Sou filho de Ogum, orixá que domina o conhecimento sobre a tecnologia do ferro, a metalurgia e a sabedoria através da arte da guerra, da construção. Sou filho desse orixá que vence demandas e abre os caminhos”.

Cortesia Galeria Nara Roesler NYNa Galeria Nara Roesler no Chelsea, em Nova York, vista parcial da exposição de Alberto Pitta e Elian Almeida

Elian Almeida: O simbólico X O político

“Meu trabalho também é uma forma de arqueologia da memória histórica. Penso na pintura como uma possibilidade de revisitar histórias e recriar imaginários sobre essas histórias, que são verdade, mas também carregam disputas simbólicas, que são espaços de disputa política. O ponto central da minha pesquisa é o lugar do apagamento histórico das pessoas afrobrasileiras, sobretudo, o direito à memória e ao registro. O tempo também é uma dimensão importante no meu trabalho, o tempo histórico, o tempo poético. Me pergunto por que que demorei tanto para descobrir nossos heróis, como a Tia Ciata? Por que no Brasil, para nós, pretos, é tão difícil montar uma árvore genealógica da própria família? Como será o nosso futuro se não tivermos o passado como referência? Minha pintura é a ferramenta com a qual luto por esses direitos”.

Cortesia Galeria Nara Roesler NYVista parcial da exposição de Alberto Pitta e Elian Almeida em Nova York

“Alberto Pitta and Elian Almeida: Carnival, Struggle and Other Brazilian Stories” (Carnaval, Lutas e Outras Histórias Brasileiras)

Até 6 de janeiro de 2026

Curadoria de Luis Pérez-Oramas

Galeria Nara Roesler, Nova York

Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]

Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.

[email protected]
Instagram: @galerianararoesler
http://www.nararoesler.com.br/

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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