Há uma primeira vez para tudo. Nunca se tinha ouvido uma montadora — ainda mais a maior do mundo, a Toyota — dar tanta ênfase a críticas que costumam ser vistas de forma negativa.
No complexo futurista Woven City, próximo ao Monte Fuji, no Japão, o diretor-chefe de branding da Toyota, Simon Humphries, subiu ao palco para apresentar as estreias mundiais de três novos carros esportivos: o conceito Lexus LFA e os modelos GR GT e GR GT3 de competição, da Toyota Gazoo Racing.
Os veículos chamaram atenção, especialmente o LFA. Os dois modelos da Gazoo Racing entraram lentamente no palco sob sua própria potência, com acelerações que evidenciaram o som de seus motores V8. O LFA Concept, que já estava posicionado no palco, é totalmente elétrico e, por isso, não foi acelerado. Segundo rumores, a Lexus deve incluir um som sintético quando o modelo for lançado.
A crítica como ponto de virada
Durante a apresentação, Humphries falou sobre o impacto de ouvir que “os seus designs são entediantes” e sobre a humilhação causada por isso. Ele explicou que, há 14 anos, em Pebble Beach, nos Estados Unidos, Akio Toyoda ouviu durante uma visita que a Lexus era entediante. Segundo Humphries, essa sensação de humilhação foi um ponto de virada e se transformou em fonte de determinação. Foi nesse momento que Toyoda afirmou que não haveria mais carros sem apelo.
Essa filosofia pode ser observada em modelos recentes, como o Prius e o Crown, que adotaram novas propostas de carroceria, além do conceito do novo Corolla apresentado no Japan Mobility Show em outubro passado, com uma proposta de estilo distinta.
No entanto, um episódio ocorrido há cerca de 20 anos no circuito de Nürburgring, na Alemanha, pode ter sido o início da transformação no design e na concepção dos veículos da empresa. Segundo Toyoda, o fator decisivo não foi apenas ver o antigo Supra ser ultrapassado diversas vezes por carros esportivos europeus, nem os comentários críticos de pilotos de teste europeus sobre a capacidade da Toyota de desenvolver um esportivo adequado para aquele circuito.

Com o LFA original, a empresa reconheceu seu marco
Quando Toyoda, Hiromu Naruse — piloto de testes e mentor — e a equipe de pesquisa e desenvolvimento da Lexus finalizaram o LFA original e o levaram para a pista, Naruse teria dito, sorrindo, que era a primeira vez que conseguia pilotar em Nürburgring olhando apenas para frente. Em 2010, a Lexus passou a contar com um superesportivo competitivo em corridas. O modelo teve produção limitada a 500 unidades.
A humilhação percebida por Toyoda também vinha de outra fonte. Outros fabricantes priorizavam as competições, usando esse ambiente para desenvolver tecnologia, produtos e equipes. Esse contraste serviu como motivação para uma reavaliação completa da marca, de seu design e de seus sistemas de propulsão.

Os resultados foram apresentados no palco da Woven City. O conceito LFA deve receber um conjunto de propulsão totalmente elétrico, enquanto os outros dois modelos utilizam motores V8. Segundo Humphries, o GR GT e o GR GT3, juntamente com o novo Lexus LFA Concept, formarão o topo da linha de esportivos da Lexus e da Gazoo Racing.
A Toyota não divulgou muitos detalhes técnicos. Humphries informou apenas que o GR GT3 de competição contará com um motor V8 biturbo de 4 litros, montado em uma estrutura de alumínio, enquanto o GR GT utilizará o mesmo motor com assistência híbrida.

Embora os três carros apresentados tenham proporções típicas de superesportivos e presença visual marcante, e devam atender aos padrões da indústria em termos de confiabilidade, observadores europeus e jornalistas japoneses concordaram com a avaliação de que, apesar do impacto visual e técnico, esses modelos não apresentam o mesmo apelo associado a marcas como Aston Martin ou Ferrari. Toyoda e sua equipe vêm ampliando os limites do design, mas há a percepção de que esse avanço poderia ir além.