O barco ideal para o brasileiro costuma ter três itens obrigatórios: muita área aberta, um bom “beach club” na popa e, de preferência, uma churrasqueira generosa para receber amigos. É justamente nesse tipo de embarcação, feita para socializar, mas com padrão de iate de luxo, que a Azimut Yachts Brasil especializou sua operação em Itajaí, em Santa Catarina.
Agora, essa mesma planta entra em uma nova fase: sob comando do italiano Carlo Alberto Sisto, a subsidiária vai ancorar um plano global de cinco anos que prevê mais produção, mais exportação e uma fatia relevante de um pacote de investimentos global de 180 milhões de euros do grupo Azimut Benetti.
Sisto assumiu o cargo de CEO da Azimut Yachts Brasil em outubro com um mandato direto da cúpula do grupo. “Falei com o CEO Marco Valle e a dona da Azimut, a Giovanna Vitelli, que me convidaram para esse desafio, um objetivo bastante claro: crescimento da marca, crescimento do estaleiro, investimento na produção e nas pessoas, que é o que eu gosto de fazer”, diz ele à Forbes Brasil em primeira entrevista no cargo.
Com mais de 25 anos de experiência na CNH Industrial, ele construiu carreira em cargos de liderança na América do Norte, Europa, América Latina e Ásia-Pacífico, sempre com foco em gestão financeira, operacional e estratégica. O Brasil, porém, não é território novo. “Já trabalhei no Brasil duas vezes, é minha terceira vez. Tenho uma paixão especial por esse país e por esse povo”, diz.
Brasil deixa de ser só cliente e vira estratégico
A Azimut está presente no Brasil há 15 anos. A fábrica catarinense emprega cerca de 600 pessoas, produz embarcações de 51 a 100 pés e gerou um valor de produção em torno de R$ 600 milhões na última temporada. Mais do que abastecer o mercado interno, a unidade passou a ter peso estratégico dentro do grupo.
“Fiquei até surpreso da importância que o Brasil tem. A nível de percentual dos revenues globais, o peso fica entre 10% e 15%. Mas a Azimut do Brasil não é uma filial. É um centro de produção da marca”, explica Sisto.
A visão de longo prazo passa por consolidar essa posição. A expectativa é de ampliar em 20% o quadro de funcionários nos próximos três anos, reforçando o papel do país em um setor que representa R$ 12,6 bilhões do PIB brasileiro.
Plano de cinco anos
O novo CEO trabalha agora na definição do plano estratégico de cinco anos da operação brasileira, que será apresentado à matriz na Itália. Parte do investimento global de 180 milhões de euros anunciado pelo grupo será destinada ao Brasil — o montante exato ainda será definido.
“É um investimento muito importante. Cheguei há dois meses e tive que fazer uma avaliação rápida do que temos. Sei quais barcos e quais modelos queremos trazer e, principalmente, desenvolver em conjunto com a Itália”, afirma Sisto.
O foco está em embarcações maiores, acima de 25 metros. A fábrica de Santa Catarina já produz o Azimut Grande 25 Metri, lançado neste ano, primeiro modelo da marca totalmente projetado e construído no Brasil para atender mercados nacional e internacional, com preço de R$ 45 milhões. “Estamos desenvolvendo barcos maiores. A ideia é crescer como tamanho dos barcos”, diz.
Mais espaço, mais gente, mais tecnologia
Para dar conta da demanda crescente e reduzir filas de espera, Sisto aponta três eixos prioritários: ampliação física da planta, contratação e treinamento de mão de obra e investimento em tecnologia.
“No automotivo, você acelera a linha de montagem. No barco, não. A embarcação fica meses praticamente no mesmo lugar. Precisamos de espaço e de gente”, explica. Hoje, a empresa tem cerca de 60 vagas abertas. “É um luxo para mim. Gosto dessa fase de contratação. Não precisa ser engenheiro. Precisamos de pessoas que queiram trabalhar no setor náutico, em time, e se profissionalizar.”
Para isso, a Azimut inaugurou um centro de treinamento dentro da própria fábrica, com instrutores e material audiovisual. A ideia é formar profissionais em diferentes áreas — de eletricistas e marceneiros a especialistas em acabamento. “O iate da Azimut é uma casa flutuante. Tudo que tem em uma casa, tem no barco: cozinha, sala, quartos, ar-condicionado, satélite, wi-fi. É importante que a mão de obra seja 100% preparada”, afirma.
Exportação ganha força na rota da América Latina
Se o Brasil é pilar produtivo, a região também aparece no radar comercial. Hoje, cerca de 15% da produção da Azimut no país é exportada, e a meta é crescer essa participação.
“Estamos apontando muito para mercados como Uruguai, Argentina, Chile e Colômbia. Ontem saiu um barco para a Argentina, daqui a pouco vai sair um 62 para o Uruguai”, conta Sisto. A América Central também entra no mapa, mas com distribuição articulada a partir do Brasil.
O desafio, ele admite, é equilibrar a alta demanda interna com os planos de internacionalização. “A demanda no Brasil é alta. Temos limitações de produção, por isso precisamos de investimento importante no estaleiro, para produzir o mesmo barco em menos tempo e, ao mesmo tempo, fazer mais barcos.”
O “jeito brasileiro” de usar o iate
Um dos pontos em que a operação brasileira influencia diretamente o produto é no layout das embarcações. Segundo Sisto, cerca de 95% do projeto é idêntico ao dos barcos italianos, mas o restante é adaptado ao estilo de vida local.
“O brasileiro gosta mais de área aberta, de churrasqueira e de um ‘beach’ mais amplo para receber convidados. Muitos dos nossos clientes têm o barco não só para navegar, mas para fazer evento social. Como o barco não tem salão de festas, o evento é a bordo”, resume.
Esse uso social inspirou soluções de design que já viraram assinatura da marca. “Temos muito orgulho de ter trazido as pessoas para perto da água. No passado, o conceito era ficar longe do mar. A Azimut foi uma das primeiras a descer para o ‘beach’, com portas que abrem, asas laterais que criam terraços sobre a água, espaços gourmet. É literalmente viver o mar a partir do barco”, afirma.
Em um mercado em que o “barco ideal” do brasileiro precisa ser ao mesmo tempo sala de estar, varanda gourmet e mirante para o mar, a missão do novo CEO é clara: transformar a única fábrica da Azimut fora da Itália em um motor ainda mais forte para o grupo — em produção, exportação e inovação — sem perder de vista o jeito brasileiro de viver a bordo.