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Como Belo Horizonte Se Tornou a Capital de Inovação Etílica (e em Lata) no Brasil

Como herança das destilarias e cervejarias artesanais, a cidade virou laboratório para o que tem de mais interessante no setor de Ready to Drink, com marcas como Xeque Mate e Lambe Lambe faturando milhões

10 min

Se existe um lugar onde a inovação e a criatividade etílicas rolam solta no Brasil, ele se chama Belo Horizonte. A afirmação é especialmente verdadeira quando falamos de latinhas de bebidas prontas. A capital mineira não apenas aderiu com veemência à tendência global dos Ready to Drink (RTD) – categoria que mais cresce no setor alcoólico mundial, com projeção de alta de 15,4% ao ano até 2030, segundo a Grand View Research –, mas tomou as rédeas do que há de mais novo, legal e autoral no segmento nacional.

O protagonismo belorizontino não é por acaso. Um caldeirão de fatores ajudou a transformar a capital dos bares também em capital do drink pronto em lata. A expertise e infraestrutura herdadas das cervejarias artesanais e destilarias deram o suporte necessário na hora de fabricar. Um consumidor exigente, mas aberto a explorar novidades, e bairrista o suficiente para abraçar o que vem de casa, foi primordial no apoio de marcas independentes. E um Carnaval de rua cada vez mais consolidado foi a vitrine massiva das criações.

“Quando a tendência do RTD chegou, as cidades mineiras já estavam preparadas”, pontua Hélio Josengler, criador da sidra premium Manza. Sthella Gomes Lima, fundadora da Xá de Cana, a primeira caipirinha de caldo de cana em lata do mundo, nota que a mudança de uma década para cá foi extrema, com um mercado “limitado e dominado por poucas empresas”. “O consumidor saiu da hegemonia da cerveja, passou pela curiosidade pelos destilados e, hoje, busca a praticidade dos drinks prontos que mantêm o frescor”, explica a empreendedora.

Quem acompanhou a transformação de perto foi a biotecnóloga Mariana Castro. Estudiosa de cachaças e intoxicação por álcool pela USP, a profissional há anos tem uma consultoria responsável por desenvolver receitas e processos industriais para diversas marcas locais de RTD. “Igual a cerveja artesanal e o gin nacional antes, o movimento agora é das bebidas mistas prontas e carbonatadas”, analisa.

DivulgaçãoXá de Cana, primeira caipirinha de caldo de cana em lata do mundo, nasceu em Belo Horizonte

A demanda por sua expertise explodiu recentemente: só em janeiro, ela entregou uma média de 15 orçamentos de novas bebidas no mês, um volume de trabalho que antes levava um trimestre inteiro. Um projeto, diz, sai por uma média de R$ 10 mil e pode levar até oito meses, da concepção ao estalar da latinha finalizada. 90% dos seus clientes são mineiros.

O movimento se mostra tão promissor que até um campeonato para rankear as melhores latinhas pelo Brasil surgiu: a Brasil RTD Cup. Descrita como uma “vitrine para novos talentos e marcas do mercado de drinks prontos”, a última edição, em janeiro, viu crescer em mais de 50% o número de marcas participantes.

O rei do tabuleiro

Nenhum case ilustra melhor a maturidade deste mercado do que a Xeque Mate. A mistura de mate, rum, guaraná e limão, que surgiu pelas mãos de dois amigos em festas universitárias e vendas na rua, deixou de ser uma curiosidade regional para virar uma potência com números de big player nos últimos anos.

“Temos orgulho de ter sido o precursor desse movimento. Antigamente não tinha, no Brasil, nenhum drink elaborado na lata. A gente nem sabia que existia essa categoria”, conta Alex Freire, cofundador e CEO da marca, à Forbes. “A gente começou meio sem saber o que estava fazendo”.

Este “sem saber o que estava fazendo” hoje se transformou em referência para os novos empreendedores, que almejam ser “o próximo Xeque Mate”. Só em janeiro de 2026, a marca faturou R$ 35 milhões, o equivalente a tudo o que vendeu ao longo do ano de 2023 inteiro. A produção de 9 milhões de litros em 2025, diz Alex, está prevista para alcançar 15 milhões este ano – vendidas entre seus três bares próprios em BH, 34 mil pontos de venda pelo Brasil e cerca de 30 mil ambulantes.

DivulgaçãoGabriel Rochael e Alex Freire, os fundadores do Xeque Mate, começaram a vender a bebida em bares de eventos universitários, em 2014

Em plena expansão, o CEO refuta qualquer ideia de venda da marca, apesar das várias propostas que já recebeu, e afirma seguir 100% independente. Para 2026, a estratégia não parou no mate: o grupo acaba de lançar a Mascate Drinks, uma nova família de prontos para beber, em um movimento de diversificação de portfólio.

Com dois sabores à base de rum pensados na tropicalidade brasileira – melancia com framboesa, hibisco e limão siciliano, e maracujá com caju e água de coco – , a novidade levou sete anos para ser desenvolvida. Alex é otimista com o potencial da nova marca: “A Mascate não canibalizou a venda da Xeque Mate; pelo contrário, as duas crescem em paralelo”.

A expectativa é que a novidade chegue a representar cerca de 30% do faturamento total do grupo em breve.

O Carnaval como vitrine dos drinks prontos

Impossível falar da ascensão do RTD sem falar do Carnaval de rua de Belo Horizonte. Em plena consolidação na última década, a folia virou vitrine, teste de fogo e o principal momento de faturamento para muitas marcas. Não à toa, pelo menos 14 novas latinhas locais chegam às ruas e prateleiras neste período, segundo o jornal mineiro O Tempo.

Gilberto Castro, ex-presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), acompanhou a evolução da festa nos últimos anos. “O Carnaval belorizontino é uma grande plataforma de lançamento. Começamos importando foliões e agora exportamos bebidas”, define. “Sempre que uma bebida estourava em BH, ela explodia em outras praças de grandes Carnavais. Isso, claro, aumenta muito o consumo e o volume da produção”. Agora, ele mesmo virou sócio da recém-lançada Mexerico, um drink em lata que mistura cachaça, mexerica, limão capeta e hortelã – fórmula desenvolvida pela consultoria de Mariana.

A estratégia de usar o Carnaval para lançar latas também foi adotada pela Manza. Focada em garrafas de 355 ml para a sua sidra, a marca criou a versão latinha exclusivamente para a folia, visando resolver a logística de consumo na rua. “Projetamos um crescimento de 300% para este ano”, conta Josengler à Forbes.

DivulgaçãoA Manza quer ser a principal marca de sidra premium do Brasil

Para a Xá de Cana, a aposta na folia foi literal: Sthella vendeu o próprio apartamento para financiar a produção em escala para o Carnaval de 2025. O “tudo ou nada” se pagou com um crescimento de 36 vezes no faturamento em um ano – de R$ 50 mil em 2024 para R$ 1,8 milhão feitos no ano passado –, além do destaque de ser selecionada para a feira C-PLPEX, em Macau, que promove o comércio e a cooperação entre a China e os países de língua portuguesa.

Alquimia na latinha

No status de Belo Horizonte de espécie de “Vale do Silício” etílica, a capacidade de experimentar e ousar nos sabores é destaque frente à gigantes do setor. Enquanto as multinacionais como Ambev e Grupo Heineken ajudam a “educar” o mercado de massa e abrir a categoria de RTD, a resposta de BH para concorrer tem sido a autenticidade e a agilidade.

As marcas locais souberam bem atender às vontades de um consumidor cada vez mais exigente com qualidade e ávido por novidades. “É a era das bases alcoólicas autênticas, uma busca por ingredientes naturais, sem conservantes e com mais a cara do Brasil”, observa Mariana.

Exemplo de misturas de sucesso é a Lambe Lambe. Fundada em 2019, a marca de RTD transformou suas lojas próprias em laboratórios de sabores. Ao todo, já foram mais de 70 criações diferentonas e gastronômicas, como pitaya, maracujá e alecrim; missô, limão e mel; e cajá, caju, mel e jambu. As de maior sucesso viram latinha, como a de tangerina, limão e sal – a maior responsável pelos 400 mil litros de bebida produzidos. Para 2026, duas novas apostas no formato de alumínio: manga com maracujá, e uma versão “Zen” zero-álcool, que leva frutas, especiarias, flores e ingredientes fermentados (entre eles, framboesa, gengibre, ginseng, hibisco, pimenta-rosa, cravo, canela e missô).

DivulgaçãoA Lambe Lambe dobrou em 2026 sua linha de drinks prontos em lata: manga com maracujá e versão zero-álcool se juntam aos veteranos tangerina com sal e limonada rosa

Na aposta de brasilidade, o grupo Equilibrista lançou o “Chablauzin“, drink que resgata o chapéu-de-couro, planta típica nacional, em uma mistura com guaraná, limão siciliano e vodka. Já a destilaria Lamas, conhecida por seus uísques mineiros premiados, acaba de colocar no mercado a Sky Kush Ice, bebida que utiliza terpenos (compostos aromáticos) para replicar o perfil olfativo da cannabis, focando na experiência sensorial sem os componentes psicoativos. Sua estreia acontece com um lote de 20 mil latinhas no Carnaval de BH.

DivulgaçãoCannabis no copo: novo drink em lata da Lamas Destilaria leva uísque, limão e terpenos canábicos

De Belo Horizonte para o mundo

Apesar da lealdade do público mineiro e a categoria em plane ascensão, “furar a bolha” Brasil afora continua sendo um dos maiores desafios de qualquer marca independente de RTD.

Junto às três lojas próprias em BH, a Lambe Lambe acaba de inaugurar sua primeira unidade no Rio de Janeiro, na Lapa. “Queremos ser a primeira marca de RTD global do Brasil”, sonha a sócia Kalinka Campos, que já conversa com órgãos reguladores sobre exportação.

A expansão é agressiva: a Xeque Mate abriu loja proprietária em Caraíva (BA) e mira sua internacionalização em um futuro próximo, com o CEO Alex Freire de olho em grandes metrópoles, como Nova York. Já a Xá de Cana prepara sua entrada em Manaus e São Paulo (através da rede OXXO), após validar o produto na Ásia.

Tivemos excelente aceitação na China. O próximo passo é levar essa ‘brasilidade em lata’ para o mundo, tornando a Xá de Cana uma referência global de drink pronto”, aposta Sthella, que fez um novo aporte de R$ 1 milhão, de olho em dobrar sua receita em 2026.

E se a ressaca costumava ser o preço a pagar pela inovação etílica, uma startup mineira decidiu intervir na causa, e não apenas no efeito. A nova Bae Up aposta na categoria de funcionalidade: uma bebida 100% natural que deve ser consumida antes da diversão, de olho em minimizar os efeitos da ressaca. A iniciativa, com um investimento inicial de R$ 500 mil, é dos irmãos Otávio, Ícaro e Jouber Corlaiti.

DivulgaçãoBae Up é um pré-drink pensada para minimizar os efeitos da ressaca

Inspirados em um hábito popular na Coreia do Sul e Austrália, o trio criou uma bebida que funciona como um pré-drink inteligente – basta tomar antes de sair de casa ou junto com a primeira bebida. “A lógica é substituir o consumo de medicamentos pós-ressaca por um hábito preventivo e inteligente”, explica Otávio.

A fórmula, produzida na Ásia e adaptada ao paladar brasileiro, tem como base a pera nashi (pera asiática), fruta com propriedades naturais capazes de acelerar o metabolismo do álcool e auxiliar o fígado na eliminação de toxinas. 200 mil unidades já chegaram ao mercado, não só em BH, mas pontos de venda em São Paulo e na Paraíba.

É a prova de que o ecossistema mineiro construiu um modelo de negócios completo: vai do brinde à cura, com criatividade, autenticidade e muito exemplo de empreendedorismo.

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