Incontáveis Aperol spritz, Negronis e Espressos Martinis serão servidos neste mês em Milão, onde cerca de 100 mil torcedores das Olimpíadas viajaram para a cidade do norte da Itália para os Jogos de Inverno de 2026. E a família por trás do Fernet-Branca, o digestivo criado há 180 anos, tem aproveitado ao máximo o “fator casa”.
“Um grande espetáculo para o mundo todo”, afirma Niccolò Branca, presidente e CEO da Fratelli Branca desde 1999. “É uma grande oportunidade.”
Nas últimas três décadas, sob o comando da quinta geração, as vendas do destilado símbolo da família — o Fernet-Branca, um amaro (amargo, em italiano) feito com 27 ervas e especiarias — cresceram de forma constante, consolidando presença em bares e restaurantes ao redor do mundo. Hoje, a Fratelli Branca registra receita anual de US$ 500 milhões (R$ 2,61 bilhões na cotação atual), sendo a maior parte proveniente das vendas do Fernet-Branca.
O portfólio da família inclui ainda o destilado de café Caffè Borghetti, queridinho dos bartenders para Espresso Martinis, além de dois vermutes sob a marca Carpano, uma grappa, um rosso amaro, um conhaque, uma sambuca, uma vodka e alguns vinhos.
O lema da família, segundo Branca, é: “Não para mim, mas para a próxima geração.” Esse é um dos motivos pelos quais, afirma, a empresa jamais será vendida. “Não é fácil manter geração após geração”, diz Branca, de 69 anos. “Temos muita clareza e isso é muito mais importante do que nós. Nossa visão é de longo prazo.”
A Forbes estima que o negócio valha cerca de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,27 bilhões), o equivalente a 2,5 vezes sua receita — múltiplo semelhante ao da Campari Group, fabricante de Campari, Aperol e Grand Marnier, que registra vendas anuais de US$ 3 bilhões (R$ 15,68 bilhões).
Atualmente, oito membros da família Branca detêm 100% da empresa, sendo que Niccolò possui a maior participação. Segundo o Italian Business Register, a holding familiar reportou lucro líquido de 13% em 2024 (contra margem líquida de 6% da Campari), dívida de apenas US$ 1,8 milhão (cerca de R$ 9,4 milhões) e ativos totais avaliados em cerca de US$ 800 milhões (R$ 4,18 bilhões). Branca atribui a forte lucratividade à “renovada relevância cultural” e à “forte identidade histórica” da marca, que, segundo ele, tendem a demonstrar maior resiliência de margem do que produtos mais comoditizados, especialmente em períodos de consumo enfraquecido.

Cerca de 90% da receita total vem de fora da Itália, tornando a Branca uma das empresas italianas com maior geração de receita no exterior. Para ele, isso é “evidência de competitividade construída pacientemente ao longo do tempo, por meio de investimento direto e presença internacional sustentada”.
Por outro lado, isso também torna o negócio vulnerável a tarifas dos Estados Unidos, que, segundo Branca, são sentidas “em múltiplas dimensões — não apenas pelo aumento direto de custos, mas também pela maior complexidade operacional, pressão sobre margens e aumento da incerteza no planejamento industrial e comercial”.
O setor de amaro nos EUA movimenta US$ 2,8 bilhões por ano (R$ 14,6 bilhões), segundo o Distilled Spirits Council of the United States. As vendas de fernet dentro desse segmento vêm crescendo de forma constante. De acordo com a consultoria IWSR, a taxa composta anual de crescimento do Fernet nos últimos cinco anos foi de 4%, mesmo com a indústria global de destilados enfrentando retração em meio à queda do consumo de álcool no mundo.
Segundo Humphrey Serjeantson, diretor de pesquisa da IWSR para a Europa Ocidental, aperitivos e amari estão entre as três categorias de destilados que vêm registrando “crescimento consistente” nos últimos cinco anos, em parte porque a cultura dos coquetéis ampliou o interesse pelos amargos muito além do tradicional consumo após o jantar.
“O aperitivo se tornou a ocasião”, afirma Serjeantson. “E, quando há desaceleração econômica, as pessoas tendem a ser mais cautelosas e permanecer fiéis às marcas que já conhecem.”
Branca descreve essas tendências pró-amaro como “um poderoso motor de valor”. Ainda assim, o momento é turbulento para o setor. Sua estratégia para navegar esse cenário, segundo ele, resume-se a “manter a mente aberta” e reconhecer que, como nas Olimpíadas, “onde há perigo, nasce a oportunidade”.
Quando assumiu o comando do pai, Pierluigi Branca, em 1999, Niccolò já trabalhava na empresa da família há décadas, fundada em Milão em 1845 por seu trisavô, Bernardino Branca. Até então, a companhia pouco havia avançado além do fernet clássico, originalmente utilizado como auxiliar medicinal para digestão.
Na década de 1960, a empresa lançou a versão com menta, Brancamenta. Nos anos 1980, adquiriu a grappa Candolini.
Niccolò concentrou-se imediatamente na expansão das exportações. Embora o Fernet-Branca já fosse vendido em 162 países, a distribuição ainda era limitada. Ele ampliou significativamente essa presença, especialmente no mercado americano. A receita anual logo ultrapassou US$ 100 milhões.
Em 2001, a Branca adquiriu as marcas Carpano (produtora dos vermutes Punt e Mes e Antica Formula) e Caffè Borghetti, licor de café baseado em receita de 1860. Posteriormente, expandiu o portfólio com Candolini Grappa Riserva e Sambuca Borghetti.

Agora, a sexta geração está pronta para assumir. O filho de Niccolò, Edoardo, de 43 anos, começou como gerente de exportação em 2009, mudou-se para Nova York em 2019 como vice-presidente da expansão nos EUA e, há três anos, tornou-se diretor-geral da recém-criada divisão de distribuição Branca USA.
Mesmo com o crescimento das vendas nos EUA nos últimos cinco anos, a nova geração resgatou anúncios clássicos do Fernet-Branca das décadas de 1950 e 1960. “Uma das belezas de trabalhar em uma empresa de seis gerações é que às vezes você não precisa reinventar a roda. Há coisas belas que podemos utilizar. Esse é um dos nossos pontos fortes.”
A produção de versões sem álcool ou com baixo teor alcoólico (baixo ABV) pode estar nos planos. A família também avalia expandir a produção com uma nova planta na Europa ou possivelmente na Ásia. Atualmente, a marca fabrica seus destilados fora de Milão e também na Argentina, onde a combinação de Fernet com Coca-Cola se tornou tão popular que o país é o segundo maior mercado internacional de digestivos do mundo, segundo a IWSR.
Foi por isso que a Branca recebeu membros da delegação olímpica argentina em sua histórica sede em Milão e no Museu Branca antes do início dos Jogos de 2026.
Enquanto isso, a família já prepara a sétima geração para o futuro. Branca afirma esperar que a empresa permaneça independente por pelo menos mais duas gerações.
“Às vezes há ego. Às vezes há discussões. Mas o importante é que sempre é possível encontrar uma solução”, afirma. “É difícil manter a harmonia. O essencial é preservar a direção do fundador.”
Matéria originalmente publicada em Forbes.com