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Beatriz Milhazes: “Rever uma Trajetória Artística É Como Rever uma História de Vida”

Na Pinacoteca de São Paulo, nova mostra reúne pela primeira vez um conjunto de gravuras da celebrada artista brasileira

5 min

É tentador, para mim, definir Beatriz Milhazes com superlativos: uma das mulheres mais importantes da arte contemporânea, uma das artistas brasileiras mais reconhecidas da atualidade e uma das assinaturas mais valorizadas no mercado internacional. Sua obra é vibrante e marcante; só de bater o olho, a gente desconfia da autoria dela. Ainda assim, o que mais gosto sobre Milhazes é justamente a possibilidade constante de descoberta: mesmo sendo uma artista tão conhecida, sua produção nunca se reduz ao que já sabemos sobre ela. Sempre aparece um detalhe, um gesto ou uma camada nova que desloca nosso olhar.

Foi assim também com o curador Renato Menezes. “Antes de trabalhar sobre esse conjunto de gravuras de Beatriz, eu ainda não tinha realizado o quanto o trabalho dela é, a um só tempo, muito experimental e muito seguro”, conta. As gravuras das quais ele está falando são as que integram a recém-inaugurada mostra Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo que reúne, pela primeira vez, 27 obras em médio e grande formato produzidas entre 1996 e 2019 (e doadas ao acervo da Pinacoteca de São Paulo entre 2009 e 2024, fazendo da instituição a única no mundo a possuir um conjunto de trabalhos da artista carioca como este).

Divulgação/Pinacoteca de São PauloA obra “Sugar” (2010), parta da mostra de Beatriz Milhazes em São Paulo

Até o dia 14 de março de 2027, é possível conhecer as obras no 2º andar do edifício Pina Estação, explorando a produção artística de Milhazes sob o ponto de vista de uma técnica diferente, explorada a partir do encontro entre a artista e Jean-Paul Rusell, fundador da Durham Press (estúdio de edição de gravuras, livros de artista e obras únicas fincado na Pensilvânia, Estados Unidos). “Quando Beatriz começou a desenvolver suas obras em gravuras junto a Durham Press, ela não chegava com projetos prontos para serem realizados. Ela tinha alguns estudos e algumas intuições, que ela ia desenvolvendo na medida em que criava matrizes que iam sendo recombinadas até chegar na forma final.

Nesse percurso, entre a ideia e a forma final, apareceram muitos estudos que foram descartados ou não foram impressos porque eram parte de uma experimentação livre com formas e cores. Esse processo só foi possível porque seu impressor, e entusiasta de sua obra, foi extremamente corajoso e nunca se intimidou diante do desafio de enfrentar as complexidades técnicas que esse modo de produção demanda”, explica Renato. “Quem olha para as gravuras de Beatriz não percebe, em um primeiro momento, grandes diferenças entre elas e o que ela produz em pintura – tronco central de sua obra. Isso acontece porque, apesar da diferença de métodos de trabalho, ela soube cultivar uma coerência extraordinária entre os diferentes meios artísticos em que transita”, completa o curador.

Levi Fanan/Divulgação/Pinacoteca de São Paulo)O conjunto de 27 gravuras de Beatriz Milhazes, que atravessa um período de mais de vinte anos

“O meu trajeto criativo é muito baseado em processo, mas sempre conduzido por uma lógica de racionalidade que me guia”, diz Beatriz em entrevista à coluna. “A qualidade cromática na serigrafia é adquirida através da justaposição variada de tonalidades, formas e superfícies. Este processo exige uma combinação de ‘utilização do acaso’ com precisão nas decisões. Eu adoro arte gráfica e o pensamento gráfico permeia o meu desenvolvimento de linguagem. O surgimento de formas e cores através da justaposição de outras, ou seja, duas cores e duas formas se encontram e formam uma terceira cor e forma. Na serigrafia este acontecimento é real, físico”.

O conjunto de obras que vemos hoje nessa exposição atravessa um período de mais de vinte anos. “Na verdade, trinta”, diz a artista. Será que o tempo altera o olhar da artista sobre o próprio trabalho? “Toda mostra retrospectiva inclui um desafio e risco. O artista irá rever sua trajetória através de uma certa seleção de obras, que estarão contando também seus processos, conceitos, desenvolvimentos à cada período de trabalho. No caso desta mostra, existe uma emoção que acompanha também esta seleção: o encontro com Jean-Paul Russel, que marca o meu encontro com a prática da serigrafia e todo o universo que se abre neste momento para o meu processo criativo. Carrega também o ano que realizei a minha primeira mostra individual de pintura em Nova York e o início de minha carreira internacional”, relembra. “Rever sua trajetória artística é como rever sua própria história de vida”.

Levi Fanan/Divulgação/Pinacoteca de São Paulo)A exposição fica até 14 de março de 2027 no Edifício Pina Estação

Ao revisitar essas gravuras hoje, o que a exposição revela não é apenas a coerência de uma trajetória consolidada, mas também uma deliciosa e constante abertura à experimentação. No fim, olhar para Milhazes é perceber que algumas artistas não param de surpreender, mesmo quando já se tornaram incontornáveis.

Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo
Até 14 de março de 2027
Pinacoteca de São Paulo, Edifício Pina Estação
São Paulo

Com Antonia Petta

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