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Hotel Toriba Resgata Afrescos de Pennacchi e Amplia Seu Acervo de Arte

Sobreviventes de demolições em São Paulo, os afrescos de Fulvio Pennacchi foram buscar refúgio na Serra da Mantiqueira - perto de seus parentes, feitos há mais de 80 anos nas paredes do hotel

7 min

Ninguém diria que os 60 metros lineares de paredes espetacularmente pintados por Fulvio Pennacchi (1905-1992) em 1943 em áreas comuns do Hotel Toriba, em Campos do Jordão (SP), precisassem de algum complemento. Mas os afrescos do artista toscano nunca são demais. E, assim, um dos mais tradicionais hotéis do Brasil acaba de ganhar novas paredes.

Em uma operação cara e delicada, os pedaços de muro foram retirados da casa em demolição do artista na Rua Espanha, 312, no Jardim Europa, em São Paulo, e da casa da família Filizola. E viajaram cerca de 200 quilômetros para ganhar vida nova a quase 2 mil metros de altura, no topo de uma montanha da Serra da Mantiqueira, cercado por 250 hectares de florestas.

São três novas obras. A maior delas, de 1952, é uma parede de 2,40 metros por 2,10 que mostra a colheita da uva – ela foi colocada em frente à vinoteca do hotel, onde acontecem as degustações para os hóspedes; a segunda, de 3,50 metros por 1,15, batizada de Afresco Profissões, mostra quatro cenas e foi posicionada no bufê do café da manhã; a terceira retrata uma família italiana – estava na sala de visitas dos Pennacchi e agora adorna a entrada do hotel.

DivulgaçãoAfresco Quatro Ofícios, de Fulvio Pennacchi, recentemente instalado no bufê do café da manhã do Toriba

As duas primeiras foram compradas por valor não divulgado; a terceira, doada. Elas se somam aos afrescos já existentes no bar (cena de uma vindima); no restaurante (festa rural focada no churrasco gaúcho) e na sala de chá (com o tema Entradas e Bandeiras).

“O cerne da coleção do Toriba é o conjunto de afrescos de Fulvio Pennacchi”, diz Aref Farkouh, arquiteto e sócio majoritário do Toriba desde 2014. “Trata-se de um conjunto único no Brasil, tanto pelo porte quanto pela qualidade, pelo estado de conservação e pela temática. São obras encomendadas especialmente para o hotel e executadas durante sua construção.”

Reboco Molhado

“A pintura de afresco não é uma pintura normal sobre uma parede – o afresco tem esse nome porque o reboco é pintado ainda molhado”, explica Ana Pecoraro, conservadora e restauradora de obras de arte, com uma trajetória internacional dedicada à preservação do patrimônio artístico. “O pigmento se funde através de uma reação química com a cal para fazer as cores do mural.” Havia um risco no plano de levar um bom naco de parede da capital até a Mantiqueira. “No caso do painel da colheita de uva, nós preferimos remover a parede toda, já que a casa seria demolida. Se retirássemos só a camada do reboco, ficaria muito fina, mais suscetível a sofrer danos no transporte.”

DivulgaçãoAfresco que estava na casa do artista, no Jardim Europa, e agora está na entrada do hotel

O trabalho de restauro durou meses. “Uma vez instalada a parede no hotel, removemos todos os repintes antigos; limpamos o mural todo, o que nos permitiu ver as rachaduras.” O resultado agradou à especialista pós-graduada em Conservação e Restauro pelo Institute of Fine Arts da New York University, com participação em projetos de conservação e restauro de inúmeras obras de arte, incluindo trabalhos de Pablo Picasso, Henri Matisse, Mondrian e Van Gogh.

“Foi um trabalho completo e muito bem-sucedido: devolvemos ao mural suas cores e ao todo o seu glamour, graças à limpeza”, diz Ana. “Quanto aos retoques, a maioria deles foi na parte inferior. E eles foram feitos de maneira ligeira, cobrindo as rachaduras com pequenas linhas. Tudo foi realizado de um modo que seja reversível – isso é muito importante. Significa que, no futuro, em um novo retoque, os meus poderão ser retirados sem danificar o original. Isso é uma questão ética do restauro.”

Lucas Pennacchi, de 66 anos, único filho artista entre os oito de Fulvio, diz que é uma “sensação maravilhosa” ver dezenas de metros pintados por seu pai conservados no Toriba. “Tentamos por anos manter a casa como um museu ou um instituto cultural, mas os compradores decidiram pela demolição. A família resolveu, então, doar afrescos ao proprietário do Toriba pelo interesse que ele tem em Pennacchi.”

DivulgaçãoO hotel de 83 anos, cercado por 250 hectares de florestas na Serra da Mantiqueira, em Campos do Jordão

Este inverno também é histórico para o Toriba por ser o primeiro dos Ninhos Quatro Estações. Cada um com um mural (7,0 metros por 1,60) da artista Fátima Moraes. “Foram três semanas de trabalho por mural pelo grau de detalhamento”, diz. “No Inverno, acho há uma abertura maior para que o espectador contemple este convite ao imaginário subjetivo.”

“Eu amo aquele hotel”

Arte e música funcionam como pilares do Toriba. O acervo da propriedade preserva mais de 300 itens, entre esculturas, fotografias e pinturas. Obras também pontuam as trilhas para caminhadas nos parques Bambuí e Siriúba, ambos do hotel. Outro destaque é o Toriba Musical: uma série contínua de recitais e concertos todas as semanas, criada em 2014, com a direção artística do pianista Antonio Luiz Barker. Desde 2019, o Toriba Musical compõe a programação oficial do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Por trás dessa efervescência, está Aref Farkouh.

DivulgaçãoAref Farkouh, diretor e sócio majoritário do Toriba desde 2014.

Forbes Brasil: Quando começou seu interesse por arte?

Aref Farkouh: Muito cedo. Meu pai contribuiu para isso. Ele gostava de comprar livros de arte. Eu adorava folheá-los e me encantava com aquelas obras. Depois, durante minhas viagens, procurava essas mesmas obras nos museus ao redor do mundo. Foi esse interesse que me levou a me formar arquiteto.

FB: Qual a emoção de conseguir novos afrescos de uma casa em demolição?

AF: Quando soube da existência de um grande afresco com a família Filizola, me apressei em ir até lá antes da demolição e acabei adquirindo a obra de um dos herdeiros. A remoção foi bastante trabalhosa e realizada por Ana Pecoraro, uma das restauradoras mais prestigiadas do mundo. É uma operação realmente cara. O custo de uma remoção como essa equivale ao valor de um carro de luxo. Mas valeu a pena.

FB: Como vocês mantêm o charme do Toriba após mais de 80 anos de funcionamento?

AF: O Toriba é desejado e procurado justamente por ter mais de 80 anos. Foi o tempo necessário para que ele amadurecesse. Os jardins evoluíram, as árvores cresceram. Temos espécies do mundo todo, dezenas de araucárias centenárias e uma riqueza paisagística que apenas o tempo é capaz de construir. O acervo artístico seguiu o mesmo caminho, sendo formado obra por obra. O que torna o hotel tão querido é o fato de que nós o amamos. Eu amo aquele hotel. Os colaboradores admiram o lugar onde trabalham. Ele é feito com o coração.

DivulgaçãoAo lado, o Vindima Bar, com um dos afrescos de Fulvio Pennacchi encomendados especialmente para o Toriba

*Reportagem publicada na edição 143 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.

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