As cores vibrantes e as formas inconfundíveis de Tarsila do Amaral ganham vida em uma nova escala. Para celebrar os 140 anos da grande pintora do modernismo brasileiro, a exposição “O Brasil de Tarsila” abre as portas no dia 15 de agosto, inaugurando o Nubank Art Lab no Conjunto Nacional, em São Paulo.
Muito além de uma retrospectiva tradicional, a mostra propõe uma nova maneira de entrar no universo da artista. Para isso, aposta em tecnologia, cenografia e interatividade para democratizar o acesso à obra da artista e atrair a atenção de novas gerações.
Ao todo, são 70 obras, desenhos, fotografias e documentos. Mas há uma informação importante antes de atravessar suas salas: nenhuma das obras é original. São reproduções de alta qualidade, impressas em tecidos, incorporadas à cenografia ou transformadas em projeções e experiências interativas.
A escolha é deliberada. Para Paola Montenegro, uma das curadoras da exposição e responsável desde 2023 pela liderança da TALE (Tarsila do Amaral Licenciamento e Empreendimentos S.A.), empresa que administra o legado da artista, o formato permite alcançar públicos e lugares que dificilmente receberiam uma exposição tradicional.
“Uma das nossas grandes missões é conseguir, de fato, levar a Tarsila para o Brasil todo. E a gente sabe que exposições tradicionais são muito caras de serem feitas. A apólice de só uma obra dela ronda meio milhão de reais”, afirma à Forbes.
O projeto está há dois anos em desenvolvimento e envolveu mais de 100 profissionais, entre pesquisadores, cenógrafos, artistas digitais, equipes de montagem, criação de vídeos e conteúdo. A proposta também nasce de uma tentativa de aproximar Tarsila de uma geração mais jovem, usando justamente ferramentas com as quais esse público já está familiarizado.
“A ideia com essa exposição é fazer com que as pessoas, de fato, entrem nas obras dela e entendam um pouco do que passava na cabeça da Tarsila quando ela as fez”, explica Paola. “Não existe modo melhor de apresentar alguma coisa de Tarsila do que um jeito que as pessoas possam interagir e guardar isso para o resto da vida.”

Uma Tarsila do Amaral além do óbvio
Distribuída em 14 ambientes, a mostra traça paralelos entre a arte, os relacionamentos, as perdas e até a relação de Tarsila com a fé.
Logo no início, os visitantes encontram obras em relicários e uma sala de espelhos que aborda a religiosidade da artista, incluindo sua proximidade pouco conhecida com o médium Chico Xavier. O espaço também abriga uma reprodução de Altar (Reza), obra que foi vista pela última vez em um catálogo de 2008. “A exposição imersiva tem esse outro papel democratizador de poder apresentar uma obra que nunca foi vista”, ressalta a curadora.
Não existe modo melhor de apresentar Tarsila do que um jeito que as pessoas possam interagir e guardar esse momento para o resto da vida.
A tecnologia não se restringe às clássicas projeções em paredes. A cenografia convida à interação tátil e olfativa. A Floresta Tarsiliana reproduz um ambiente que remete à infância da pintora, com direito a sons, aromas e diferentes texturas, enquanto a sala Roteiro de Viagem simula os vagões de um trem. Cada uma das seis cabines é dedicada a uma viagem importante feita por Tarsila. Nas janelas, animações reproduzem desenhos relacionados aos destinos; nas mesas, fotografias e documentos ajudam a contar essas histórias.

Em Operários, foco na interatividade: para enxergar os famosos rostos representados na tela, o visitante precisará “bater o ponto” e girar uma manivela. “A gente quis passar a ideia de que, para você ver os operários, você precisa trabalhar”, diz Paola.
A sala Travessia é dedicada a Figura Só, obra de 1930 que Paola considera especialmente importante para compreender um momento de ruptura na vida de Tarsila. Pintada pouco depois da separação da artista de Oswald de Andrade, a tela azul com uma única figura de cabelos alaranjados ganha uma instalação própria. O ambiente cenográfico cria um corredor onde o espectador precisa caminhar contra a força de um ventilador para alcançar o final do trajeto, metaforizando a resistência da artista naquele período.

Mergulho antropofágico e um Abaporu gigante
Os pesos pesados da carreira de Tarsila também ganham espaços de destaque. Um gigantesco Abaporu foi construído para que o público possa interagir, compreender o Manifesto Antropófago e, claro, tirar fotos.
O grande desfecho (e apoteose visual, nas palavras da curadora) é reservado à sala dedicada à obra Antropofagia. Artistas criaram um vídeo de oito minutos que amplifica e modula 25 obras de Tarsila, criando novas paisagens inspiradas no imaginário da modernista. Em determinado momento, por exemplo, a visão se amplia sobre Carnaval em Madureira ou Morro da Favela, revelando uma favela construída na estética da artista.
O trabalho foi feito manualmente por 32 artistas para criar uma espécie de mundo Tarsila, que vai se expandindo diante do visitante. A ideia é que o público possa acompanhar a transformação das pinturas até chegar ao que a equipe chama de nascimento do “Brasil de Tarsila”.
Para a curadora, a grandiosidade cenográfica não pretende substituir a experiência de observar um quadro original, mas sim instigar o público. “Sabemos que a pessoa ver ali um Abaporu gigante não é a mesma coisa que olhar o Abaporu no Malba [Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires]. Mas para quem não tem condições de ir para a Argentina, a pessoa vai poder sentar no pé dele com a gente”, reflete Paola, que espera despertar o desejo do público de buscar os quadros reais no futuro.
Estamos tentando aproximar a Tarsila de um público mais novo.
Além das clássicas Abaporu, Operários, Antropofagia, outras duas obras que Paola destaca no percurso são Sol Poente (que não é vista há mais de dez anos) e Terra, de 1943, pertencente a uma fase menos conhecida da artista, quando sua pintura começou a assumir uma estética bastante diferente daquela que se tornou mais reconhecível. Ela foi recriada de forma tátil e monumental, em uma sala que terá aromas áridos que convidam à imersão sensorial.

A exposição no Nubank Art Lab integra a agenda dos 140 anos de Tarsila do Amaral. Ao longo de 2026, a artista também foi homenageada com uma mostra no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União, em Brasília, e com a turnê do espetáculo teatral estrelado por Claudia Raia. Para setembro, a curadora adianta o lançamento de um filme inédito sobre a pintora e, para o fim do ano, está prevista ainda uma exposição com obras originais em São Paulo, em local que ainda será confirmado.
Enquanto isso, O Brasil de Tarsila segue com a ambição de sair da capital paulista e levar, em um novo formato, o universo da modernista para outras partes do país.