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Por Que o Homem-Aranha É o Super-Herói Mais Lucrativo de Hollywood

Entenda como o Amigo da Vizinhança superou a própria Marvel, quebrou recordes de bilheteria e se consagrou como a franquia mais rentável do cinema

8 min

O renascimento do verão de Hollywood continua a todo vapor e em grande estilo com Homem-Aranha: Um Novo Dia, que conquistou a maior bilheteria de estreia americana da história do cinema. Em seu primeiro final de semana, o filme arrecadou US$ 360,1 milhões na América do Norte e cerca de US$ 932 milhões mundialmente, mesmo sem contar com as salas IMAX por conta de A Odisseia, de Christopher Nolan.

Enquanto Um Novo Dia se tornou um estouro de bilheteria, o Homem-Aranha provou ser maior do que a própria Marvel. E diversos fatores colaboraram para essa estreia extraordinária.

Boas avaliações do público e o famoso “boca a boca” transformaram as pré-estreias de quinta-feira em uma das maiores da história. Tom Holland, Zendaya e Jon Bernthal chegaram ao lançamento com o passe altíssimo após protagonizarem o mais recente sucesso de bilheteria de Christopher Nolan. Na prática, essa coincidência acabou transformando A Odisseia, um dos maiores filmes do verão americano, em um marketing involuntário para o longa do herói.

A Marvel ampliou o apelo do filme trazendo rostos conhecidos do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) para a história do herói. O longa também dá um passo importante no plano de longo prazo do Marvel Studios para integrar os X-Men ao MCU. Já a Sony posicionou a produção como o último grande evento do verão nos cinemas, aproveitando a reta final antes do retorno das famílias à rotina escolar e de trabalho.

Homem-Aranha: Um Novo Dia passou aquela sensação única de grande evento de cinema, capaz de criar um frisson contagiante nas salas lotadas – exatamente o tipo de propriedade intelectual que Hollywood passa décadas tentando construir para resistir a trocas de elenco, mudanças no gosto do público e evoluções tecnológicas.

A maioria acaba perdendo o fôlego com o tempo. O Homem-Aranha fez o caminho inverso. 23 anos após o primeiro grande sucesso em live-action, a franquia ganha ainda mais força à medida que se reinventa. Os números mostram que o público compra o ingresso primeiro pelo Homem-Aranha e, só depois, pela marca Marvel.

A reinvenção é o segredo do sucesso

Franquias de cinema costumam depender da continuidade, mas o Homem-Aranha se deu bem justamente ao se reinventar. A trilogia de Tobey Maguire apresentou o personagem a milhões de espectadores e consolidou o herói na elite dos blockbusters de Hollywood.

Quando a Sony fez o reboot da franquia com Andrew Garfield apenas cinco anos após Homem-Aranha 3, muitos analistas duvidaram que o público abraçaria outra história de origem tão cedo. Mas abraçou. Embora os dois filmes de Garfield tenham arrecadado menos do que os de Maguire e Tom Holland – e recebido críticas mais mornas -, ambos ultrapassaram a marca de US$ 700 milhões no mundo todo. Para a maioria dos estúdios, números assim seriam sinônimo de sucesso estrondoso, e não de decepção.

Getty ImagesA versão de 2002 do Homem-Aranha, estrelada por Tobey Maguire no papel principal.

A Sony reformulou o Homem-Aranha mais uma vez em 2017, dessa vez integrando Tom Holland ao MCU. Em vez de cansar o público, a nova versão atraiu ainda mais gente. Homem-Aranha: Longe de Casa tornou-se o primeiro filme do herói a ultrapassar US$ 1 bilhão globalmente. Já Homem-Aranha: Sem Volta para Casa quase dobrou esse valor, alcançando cerca de US$ 1,9 bilhão.

Essa capacidade de se reinventar foi além do live-action. Homem-Aranha: No Aranhaverso apresentou Miles Morales para uma nova geração sem aposentar Peter Parker, fazendo os dois coexistirem.

A Sony provou que o público aceita perfeitamente ter várias versões do Homem-Aranha ao mesmo tempo. Cada reformulação atraiu novos fãs sem abandonar quem já acompanhava o herói.

Um herói que conquista gerações

Dados de público divulgados pelo Deadline indicam que Um Novo Dia atraiu muito mais do que apenas os leitores assíduos de quadrinhos. O público se dividiu bem entre diferentes faixas etárias e contou com uma presença expressiva tanto de homens quanto de mulheres. Esse alcance demográfico demonstra a força de uma franquia que chega ao seu nono filme em live-action.

Parte disso se explica pelo fato de que gerações diferentes cresceram com versões diferentes do herói. Os Millennials mais velhos têm Tobey Maguire como o “seu” Homem-Aranha. Já os espectadores mais jovens conheceram o personagem com Tom Holland ou Miles Morales. A popularidade de Andrew Garfield também deu um salto após Sem Volta para Casa reunir os três atores em tela. O crossover fez o público reavaliar a atuação de Garfield e transformou as três sagas em capítulos complementares de uma história maior, em vez de franquias concorrentes.

IMDbO Espetacular Homem-Aranha (2012), de Andrew Garfield

James Bond demonstrou essa mesma capacidade de se manter no topo ao longo de décadas mudando de protagonista. Na TV, o exemplo clássico é Doctor Who, no qual gerações de fãs aceitam diferentes atores no papel do Doutor sem esquecer os anteriores.

O Homem-Aranha atingiu um patamar semelhante. O personagem se tornou maior do que qualquer ator individualmente, mantendo cada intérprete com sua própria base de fãs fiéis.

Por que o Homem-Aranha resiste ao tempo

Nem todo super-herói se mostrou tão adaptável. O Superman já foi vivido por vários atores, mas cada reboot praticamente exige que o público comece do zero. Com o Homem-Aranha é diferente: o personagem continua reconhecível, mesmo quando cada geração lhe dá uma nova cara.

Como dizia Stan Lee, criador do herói, o Homem-Aranha era sua criação favorita porque “é quem mais se parece comigo”. Peter Parker se preocupa em pagar as contas, ir bem nos estudos, manter relacionamentos e equilibrar suas obrigações pessoais com responsabilidades maiores.

Getty ImagesO criador do Homem-Aranha, Stan Lee, apresentou o super-herói pela primeira vez em uma história em quadrinhos de 1962

Diferente de muitos super-heróis, seus maiores desafios com frequência não têm nada a ver com derrotar vilões, mas sim com os perrengues do dia a dia.

O Homem-Aranha também é absurdamente versátil como personagem narrativo. Ele funciona bem em histórias sobre amadurecimento, romances, comédias, animações ou épicos de multiverso sem perder sua essência. Além disso, o apelo do teioso nunca dependeu puramente de seus poderes, mas sim do conceito moral mais simples e direto da ficção de super-heróis: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.”

Cada geração interpreta essa lição à sua maneira, permitindo que o personagem evolua sem abrir mão dos valores que o consagraram.

Um Novo Dia vai ficar ainda maior

O sucesso de Um Novo Dia chega em um momento no qual filmes de super-heróis já não são garantia de bilheteria astronômica. Lançamentos recentes da Marvel arrecadaram bem menos no mundo todo do que os títulos anteriores do MCU. A DC enfrentou oscilação parecida, com Supergirl amargando um fracasso nas bilheterias.

O público parece disposto a ignorar fórmulas batidas, mas continua prestigiando personagens que considera ícones culturais duradouros. E o Homem-Aranha ocupa um lugar privilegiado nesse cenário.

Divulgação/Sony PicturesZendaya e Tom Holland se conheceram nas gravações de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, em 2017

O herói já fazia sucesso antes de o MCU existir e virou uma das maiores atrações do universo compartilhado após sua entrada. Ele lidera uma franquia animada vencedora do Oscar e continua sendo um dos jogos exclusivos mais bem-sucedidos do PlayStation. A Sony detém os direitos de exibição no cinema, enquanto o Marvel Studios contribui na parte criativa dos filmes atuais — uma parceria que fortaleceu ambas as empresas.

E Um Novo Dia pode ir ainda mais longe neste verão. Os grandes lançamentos de verão costumam sofrer quedas expressivas de bilheteria no segundo fim de semana, especialmente após estreias recordistas. Mas esta temporada não tem seguido a receita tradicional.

A Odisseia continua atraindo um público surpreendentemente grande mesmo após semanas em cartaz, enquanto Toy Story 5 ultrapassou recentemente a marca de US$ 1 bilhão no mundo todo, mostrando fôlego de sobra.

O Homem-Aranha também está prestes a ganhar uma vantagem que não teve na estreia: o filme vai ocupar as salas IMAX assim que terminar o período de exibição exclusiva do filme de Nolan. Os formatos premium se tornaram peça-chave para o sucesso de bilheteria, já que o público aceita pagar mais por uma experiência de cinema superior.

Mesmo sem o IMAX, os formatos premium de grande porte responderam por quase 25% da receita de estreia de Um Novo Dia, enquanto o Dolby Cinema bateu recordes próprios no mesmo período.

O Homem-Aranha está prestes a ficar ainda maior. Literalmente.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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