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Retrospectiva Revisita 70 anos da Produção de Yoko Ono

Em Los Angeles, exposição mostra pioneirismo da artista e a arte de imaginar um mundo diferente

4 min

Antes mesmo de cruzar as portas do The Broad, a exposição já começou. No jardim do museu, pequenas oliveiras sustentam centenas de pedacinhos de papel branco balançando ao vento. Em cada um deles, um desejo escrito por alguém que passou por ali, assim como nas entradas dos templos japoneses. A proposta é dar boas vindas – ou adeus – apenas escrever, pendurar o papel entre os galhos e seguir caminho. Quando o visitante finalmente entra no museu, percebe que participou de uma obra de Yoko Ono antes mesmo de se dar conta disso.

É esse deslocamento silencioso entre observar e participar que conduz Yoko Ono: Music of the Mind, retrospectiva que reúne mais de 200 trabalhos produzidos ao longo de quase sete décadas que fica em cartaz até dia 11 de Outubro. Instalações, performances, filmes, fotografias, músicas e suas célebres instruction pieces revelam uma artista que, desde o início dos anos 1960, questiona não apenas o que é uma obra de arte, mas quem a completa.

Durante muito tempo, Yoko Ono foi apresentada ao grande público como personagem da história dos Beatles. A exposição faz exatamente o contrário. Ela devolve protagonismo a uma artista que já integrava a vanguarda nova-iorquina antes de conhecer John Lennon e cuja influência ajudou a moldar a arte conceitual, a performance e as instalações participativas que hoje ocupam museus em todo o mundo.

DivulgaçãoMartin-Gropius-Bau

Percorrer as galerias é perceber que sua matéria-prima nunca foram apenas objetos, mas pessoas. Em uma sala, visitantes martelam pregos sobre uma tela inacabada. Em outra, capacetes militares guardam pequenos quebra-cabeças que, ao serem montados, revelam fragmentos de um céu azul, um gesto delicado que transforma um símbolo de guerra em possibilidade de esperança. Mais adiante, uma sala com um barco branco foi, desde a abertura da exposição, sendo lentamente coberto por mensagens, desenhos e palavras deixadas pelo público em canetas azuis. A obra muda todos os dias porque depende de quem passa por ela.

Essa confiança radical na participação nasceu muito antes de a palavra “interatividade” fazer parte do vocabulário da cultura contemporânea. Quando Yoko propunha que o público concluísse suas obras, ainda nos anos 1960, desafiava a ideia tradicional de autoria e antecipava uma lógica que hoje parece natural e imaginativa.

Sua relação com a imaginação tem raízes profundas. Nascida em Tóquio, em 1933, Ono viveu a infância sob os bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Anos depois, contou que, durante os períodos de fome, ela e o irmão inventavam mentalmente refeições completas para suportar a escassez. Imaginar tornou-se uma forma de sobrevivência e resistência, e esse princípio atravessa praticamente toda a sua produção artística.

Por isso, temas como guerra, paz, memória, migração e liberdade aparecem ao longo da exposição sem nunca se transformar em discursos fechados. Obras como Cut Piece, uma de suas performances mais emblemáticas, originalmente apresentada em Tóquio em 1964 e depois em 1965 no Carnegie Recital Hall em NY, integrantes do público são convidados a cortar pedaços da roupa da artista. Vista hoje, a performance continua provocando reflexões sobre vulnerabilidade, consentimento e relações de poder. Não porque ofereçam respostas, mas porque permanecem abertas a novas leituras conforme o mundo muda.

DivulgaçãoEm Cut Piece , membros da plateia foram convidados a se aproximar e cortar pedaços das roupas de Ono enquanto ela permanecia ajoelhada em silêncio no palco

Talvez seja justamente essa a maior qualidade de Music of the Mind. Em vez de celebrar Yoko Ono como um nome histórico, a retrospectiva demonstra que sua obra continua viva porque continua em permanente transformação. Cada visitante acrescenta um gesto, uma interpretação ou um desejo. Cada nova interação altera, ainda que discretamente, o trabalho que veio antes.

Ao deixar o museu, fica a sensação de que Yoko Ono jamais quis produzir objetos para serem admirados à distância. Seu verdadeiro material sempre foram as pessoas, e a capacidade humana de imaginar que o mundo pode ser diferente antes mesmo que ele mude.

Quando:
Até 11 de outubro

Onde:
The Broad
221 S. Grand Avenue
Los Angeles, CA 90012

(Com colaboração de Luiza Florence)

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