O criador de Star Wars, George Lucas, passou mais de 50 anos colecionando arte, começando com quadrinhos de 30 dólares em leilões underground e evoluindo até obras-primas de Frida Kahlo, Chuck Close e Banksy, à medida que seu nome se consolidava no topo do cinema. Há duas décadas, o diretor começou a sonhar em dar à sua coleção um lar permanente e mais acessível ao público.
“Eu não sou o típico colecionador de arte refinada que compra e, cinco anos depois, alguém pergunta: ‘O que aconteceu com aquele quadro que você comprou? Era tão bonito'”, explicou Lucas durante um painel na San Diego Comic-Con em 2025. “‘Ah, vendi por US$ 10 milhões e ganhei uma grana preta.’ Eu nunca conseguiria fazer isso. Não é o que considero arte.”
Corta para a Los Angeles dos dias atuais, onde, após quatro locais propostos, atrasos nas obras por conta da pandemia e uma conta de construção de US$ 1 bilhão, o Lucas Museum of Narrative Art está finalmente pronto para a sua estreia.
Com inauguração marcada para 22 de setembro no Exposition Park, o museu fica ao lado do Museu de História Natural e em frente à Universidade do Sul da Califórnia (USC), onde Lucas estudou. Apoiado por um conselho que inclui Steven Spielberg e Guillermo del Toro, o local defende o que Lucas chama de “arte do povo”, abrangendo desde pinturas rupestres antigas e ilustrações de livros infantis até filmes, animes, fotografias e murais gigantescos.

“As imagens são ilustrações de crenças com as quais convivemos todos os dias”, disse Mellody Hobson, cofundadora do museu e esposa de Lucas. “Por essa razão, essa arte pertence a todos. Nossa esperança é que, à medida que as pessoas percorram as galerias, elas vejam a si mesmas e a sua humanidade refletidas.”
Com um acervo inicial de mais de 40 mil obras, trata-se do “primeiro museu dedicado inteiramente ao poder da narrativa visual”, segundo a CEO do museu, Tracey Bates.
“George e Mellody sempre acreditaram que a arte narrativa pode nos ajudar a entender melhor a nós mesmos e aos outros, porque as imagens são uma linguagem universal”, disse Bates ao Forbes Travel Guide. “Eles queriam compartilhar a coleção porque as histórias que as imagens contam – seja sobre imaginação, justiça, identidade ou a vida cotidiana – podem abrir novas maneiras de enxergar o mundo. Para eles, tornar o acervo público significava criar um lugar onde as pessoas pudessem se deparar com essas histórias juntas e se sentir convidadas para uma conversa mais ampla sobre criatividade e possibilidades. O entendimento compartilhado é o que constrói a comunidade.”
As Exposições
O museu é composto por mais de 30 galerias – essas áreas recebem nomes e são organizadas em torno de temas atemporais como “amor”, “infância” e “aventura” para refletir a experiência humana -, cobrindo mais de 9 mil metros quadrados. O espaço inclui dois cinemas com tecnologia de ponta, uma biblioteca de pesquisa, um parque, um jardim de esculturas, um restaurante, um café e uma loja.

Embora a maioria das obras pertença aos fundadores, “também há empréstimos selecionados, incluindo peças que ajudam a completar a história que estamos contando na exposição inaugural”, disse o curador sênior Ryan Linkof. “A coleção em si é muito ampla, e evoluir ao longo do tempo sempre fez parte da visão, [mas] há muito para os visitantes descobrirem logo no dia da abertura.”
Cerca de 1.200 objetos serão exibidos para dar o mesmo valor a todas as mídias e deixar de lado as hierarquias tradicionais das belas-artes, atendendo aos desejos de Lucas. A galeria Frank Frazetta é um exemplo dessa missão. “Frazetta moldou a linguagem visual de todo o gênero de fantasia e ilustração pulp, mas raramente recebeu um espaço de destaque dentro de um museu de arte”, disse Linkof. “É exatamente para isso que este museu foi construído: dar palco a artistas cujos trabalhos moldaram a imaginação de gerações, mas que frequentemente foram ignorados pelas instituições tradicionais.”
E mesmo que este não seja um museu focado exclusivamente em Lucas, isso não significa que a Força não esteja presente com tudo nessa nova atração. Há vários motivos para os fãs do cineasta, especialmente aqueles fissurados em Star Wars, garantirem seu lugar na fila.
A exposição “Star Wars In Motion” inclui designs de veículos, adereços de cena, figurinos e ilustrações dos seis primeiros filmes, o que, segundo Bates, oferece “um olhar atento sobre a imaginação visual e o trabalho artesanal por trás da galáxia criada por George”. A programação inaugural de cinema inclui os primeiros filmes de estudante de Lucas, além de Star Wars Detours, uma série animada que ele criou com Seth Green e Matt Senreich e que nunca foi exibida publicamente.

“Achamos que essas exibições darão aos fãs uma oportunidade rara de ver um lado diferente do trabalho criativo de Lucas e como ele se conecta ao foco mais amplo do museu na narrativa”, disse Linkof. “‘Star Wars In Motion’ apresentará alguns dos objetos mais espetaculares dos arquivos de Lucas no museu.”
Linkof está especialmente orgulhoso da programação de cinema do Robert Flaherty Theater e do Slavko Vorkapich Theater: “A experiência foi projetada para parecer flexível, semelhante à visitação de uma galeria. Os visitantes podem dar uma passada, ficar para um curta ou para uma exibição mais longa, e ir e vir como quiserem.” Os filmes variam de apenas alguns minutos a cerca de uma hora e meia.
A Arquitetura
O prédio foi projetado por Ma Yansong, do escritório MAD Architects, de Pequim, com a Stantec como arquiteta executiva. Conta com cinco andares e cerca de 28 mil m², além de um teto verde e um óculo elíptico centralizado sobre uma praça. Um conjunto de elementos sustentáveis inclui sistema geotérmico, captação de água da chuva e um topo coberto por painéis fotovoltaicos (dispositivos que convertem a luz solar em energia elétrica).
O prédio fica dentro de um campus de 4,5 hectares, que abriga um jardim suspenso, um anfiteatro e um gramado criados pela paisagista Mia Lehrer. Originalmente previsto para inaugurar em 2021, o museu levou anos para ser concluído, e os moradores de Los Angeles viram a gigantesca estrutura futurista ganhar formas sinuosas achando que ela deveria parecer uma nave espacial, dada a conexão com Lucas.

Essa nunca foi a intenção do projeto, disse Bates, mas ela entende o motivo de as pessoas fazerem essa associação. “Adoramos o fato de a forma estar aberta a interpretações”, disse. “Nossos fundadores foram atraídos por Yansong por causa de sua capacidade de criar uma arquitetura que parece imaginativa, orgânica e profundamente conectada ao seu entorno.”
Bates continuou: “O design dele dá ao museu uma sensação de movimento e curiosidade, sem deixar de estar fincado no Exposition Park. Tão importantes quanto isso são os espaços ao ar livre. Queremos que o museu pareça aberto à comunidade, com lugares para se reunir, refletir e passar o tempo, mesmo além das galerias.”
O Restaurante
Se um dia no museu der aquela fome, o Skywalker Grill serve almoço, jantar e brunch nos fins de semana no topo da estrutura. Projetado pelo Rockwell Group e operado pela Rhubarb Events & Hospitality Collection, o restaurante transmite a lendária hospitalidade do Skywalker Ranch (o refúgio cinematográfico de Lucas) por meio de um menu americano sofisticado, com corn dogs de lagosta, frango à milanesa e hambúrgueres de wagyu.
Planeje sua visita
O museu abrirá todos os dias, exceto às terças-feiras, com horário noturno estendido às sextas e sábados. Os jardins abrem às 8h e fecham ao pôr do sol.
Os ingressos podem ser adquiridos online. A entrada é gratuita para crianças e jovens de até 17 anos, visitantes com o cartão social EBT da Califórnia, militares da ativa e moradores do mesmo código postal do museu, já que Lucas está comprometido em tornar a arte acessível à comunidade de baixa renda do entorno. Os jardins e o restaurante não exigem ingresso.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com