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Até Onde os Tutores Vão Quando o Assunto É Mimar Seus Pets

Enquanto marcas como Louis Vuitton e Gucci apostam em alta-costura pet, hoteis de luxo oferecem experiências premium com spa, cardápio dedicado e até terapias

8 min

O quanto você está disposto a investir no seu pet? Para alguns tutores, muito não é suficiente. Um tutor, que preferiu não se identificar, encomendou com a empresa de suíça Mayadoro uma coleira feita em couro italiano, ouro maciço de 14 quilates e impressionantes 170 pedras preciosas cravejadas à mão, incluindo diamantes, esmeraldas, safiras, rubis e topázios azuis suíços.

O caso pode parecer extremo, mas é reflexo de uma mudança maior na relação entre tutores e animais: a disposição crescente em gastar mais e oferecer o melhor possível. No Brasil, que é considerado o terceiro país do mundo em número de pets, o segmento faturou quase R$ 78 bilhões em 2025, segundo divulgado pela Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet).

Entre os fatores que movimentam esse mercado estão visitas ao veterinário, higiene, alimentação e estilo de vida. Mas algumas famílias não medem esforços para oferecer a melhor vida possível para os seus pets. Produtos de luxo para animais de estimação deixaram de ser uma novidade e se tornaram uma categoria própria.

MayadoroEncomenda privada feita pela Mayadoro

“O pet por si só é uma categoria híbrida; talvez, entre todos os animais, seja aquele que mais se encontra no meio da separação clássica entre natureza e cultura. Ao mesmo tempo em que é um bicho, é também o animal mais humanizado que temos”, conta Michel Alcoforado, doutor em antropologia social.

A humanização é tamanha que tutores passam a buscar para os pets tratamentos similares aos que buscam para si mesmos. Um dos setores que mais têm sido transformados por essa relação é a hotelaria, que subiu um degrau: do pet-friendly ao pet-centric, com experiências pensadas especialmente para os animais.

Mais do que uma mudança de consumo, o fenômeno reflete o novo papel dos animais na vida afetiva de seus tutores. À medida que famílias têm menos filhos e os modelos tradicionais de relacionamento e formação familiar mudam, cães e gatos assumem um papel cada vez mais relevante como companheiros e, às vezes, até como membros centrais da família.

Para Alcoforado, uma lógica cada vez mais individualista na constituição dos afetos também impulsiona esse fenômeno. “O vínculo de filiação humana é um risco gigantesco em termos de retorno afetivo. É uma relação que jamais será correspondida em termos do investimento que os pais fazem. Com os pets não; o animal está sempre ali, disponível para atender seus desejos e necessidades”, explica.

Dignos de tratamento de luxo

Entre 2020 e 2025, os gastos com produtos para animais de estimação nos EUA aumentaram de US$ 96 bilhões para os US$ 165 bilhões previstos para 2026 pela American Pet Products Association.

Marcas tradicionais como Gucci, Louis Vuitton e Hermès estendem seu trabalho artesanal e acessórios para itens de moda como roupinhas e coleiras, além de passeios e bolsas de transporte que podem chegar a até R$ 25 mil. A Dolce & Gabbana, por exemplo, lançou em 2024 o Fefé, seu primeiro perfume para cães inspirado no poodle de Domenico Dolce.

Imagem editada com IAFefé, da Dolce & Gabanna

Para o antropólogo, as elites se valem do uso dos pets para poder marcar mais uma diferença, mais um território de distinção na população. Os cuidados com a imagem do animal são quase uma reprodução do próprio autocuidado.

A socialite Paris Hilton, por exemplo, tem uma luxuosa mansão de quase R$ 2 milhões para seus cachorros. Com dois andares, ar-condicionado e uma pequena varanda, a construção de aproximadamente 28 m² foi construída em estilo colonial espanhol, pintada de rosa.

Abaixo, ForbesLife reúne alguns dos principais serviços que dão aos pets uma vida de luxo.

Hospitalidade

Viajantes de alto padrão veem seus animais como membros da família, criando uma demanda por hospitalidade que atenda igualmente a humanos e pets.

Palácio Tangará

No Palácio Tangará, em São Paulo, os pets têm direito a uma estadia completa. O hotel oferece enxoval com caminha, lençois bordados e cardápio especial. A reserva inclui a taxa pet no valor de R$ 450, dos quais R$ 200 são destinados à ONG Lista de São Francisco. Mesmo quem não for hóspede pode levar seu animalzinho para comer: um menu pet, a R$ 63, traz carne ou frango acompanhado por duas opções de vegetais, como abobrinha ou brócolis

Alguns lugares dobram a aposta, oferecendo até transfers de helicóptero para pets. No Malabo Pet Resort, por exemplo, os animais dispõem do serviço, fruto de uma parceria com a Flapper. Única acomodação cinco estrelas para cachorros da América Latina, o hotel oferece um pacote de três diárias com ida e volta de transfer por valores a partir de R$ 11 mil.

Terapias relaxantes e spa

Em toda a Europa, spas para pets estão surgindo em massa, oferecendo desde massagens e terapias até aulas de ginástica e acupuntura. É o caso do The Peninsula London, que inaugurou um salão de tosa temporário entre fevereiro e maio com serviços de limpeza dentária ultrassônica e faciais de mirtilo para filhotes.

The Peninsula London

No Brasil, a Pousada Ayê, no interior de São Paulo, oferece massoterapia canina para alívio de estresse e dores e área zen equipada com chaise longues e balanços em bangalôs relaxantes.

Ganham força também terapias como reiki, cromoterapia, cristais e leitura de aura, que avaliam o nível energético dos chakras caninos, buscando uma comunicação mais profunda entre tutor e animal. O mapa astral, por sua vez, revela traços de comportamento e personalidade do animal, ditados pelos astros.

Gastronomia

Para quem faz questão de ter seus amigos por perto até na hora da refeição, restaurantes em diferentes cidades brasileiras oferecem espaços e menus especiais para os pets, permitindo que eles acompanhem seus donos à mesa e também tenham sua própria experiência gastronômica.

Em São Paulo, o Zena Cucina, comandado pelo chef Carlos Bertolazzi, tem um espaço coberto dedicado aos pets. O local oferece um menu completo preparado com ingredientes naturais e integrais. As opções vão de torradinhas (80 g por R$ 12) a massas, com duas opções de gnocchi feitos com cenoura, salsão e caldo de carne.

Zena Cucina

Já o Fillmore, com unidades na Mooca e no Ipiranga, disponibiliza seis opções de pratos para os pets. São três pratos principais (R$ 12,90 cada), incluindo risoto de carne, galinhada e cozido de lombo, além de três petiscos (R$ 8,90).

No Jardim Churrascada, no Parque Ibirapuera, o conceito vai além do pet-friendly: aos fins de semana, um serviço de dog walker passeia com o pet pelo parque enquanto seus tutores almoçam.

Alta-Costura

O mercado de vestuário para animais de estimação vem registrando crescimento expressivo, impulsionado pela expansão da oferta. Não se trata mais de gravatinhas e roupinhas simples; marcas passaram a criar suéteres, jaquetas, vestidos e até fantasias para pets, além de acessórios como sapatos e chapéus.

Grandes grifes como Louis Vuitton, sob direção de Pharrell Williams, lançaram coleções de acessórios com coleiras, guias e até uma casinha revestida com o icônico monograma – esta última, custando US$ 60 mil.

Quem segue a tradição de couro também é a Hermès, por meio de coleiras, guias e brinquedos que podem chegar a R$ 16 mil. A proposta é de luxo discreto e durabilidade.

Gucci Pet Collection

A Gucci Pet Collection, por sua vez, tem coleiras, guias, roupinhas, bandanas, tigelas, bolsas de transporte e caminhas de nylon GG que imitam minisofás. Os produtos podem ser encontrados entre US$ 180 e US$ 2.300.

Como já ilustrado pelo caso da suíça Mayadoro, joias para pets também são uma realidade. A The Diamond New York tem quatro coleções de luxo de acessórios para pets, indo desde pingentes simples que começam na casa dos US$ 1.500 até peças verdadeiramente luxuosas. A coleção de diamantes, por exemplo, tem modelos que podem chegar a quase US$ 80 mil.

Entre o cuidado e o excesso, a fronteira parece cada vez mais tênue: afinal, quando quase tudo pode ser comprado para um pet, a pergunta talvez não seja o que ele precisa, mas até onde os humanos estão dispostos a transformar afeto em luxo.

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