Em Itapecerica da Serra, a cerca de 35km da capital paulista, fica uma reserva de árvores da Mata Atlântica que transforma a despedida de um pet em um gesto de preservação ambiental. “Temos um cliente que, a cada quinze dias, vem com um banquinho e fica aqui, conversando com a árvore dele”, conta Christine Hueck, fundadora do Ânimas Pet, em entrevista à Forbes Brasil. Ali, as cinzas dos bichinhos – sejam eles cachorros, gatos, calopsitas e até raias – são ressignificadas no ciclo da vida, nutrindo árvores raras e frutíferas em um espaço de 110 mil m².
As urnas ecológicas, feitas pelas mãos da própria Christine, são plantadas junto a mudas de juçara, cambucá, cedro-rosa, grumixameira – todas nativas do bioma. “A pessoa põe a mão na terra e planta, até as madames com unhas enormes. Esse momento é muito transformador. A maioria das pessoas não costuma ter esse contato direto com a natureza e nunca plantou uma árvore antes”. Os tutores também podem optar por levar a muda para casa e realizar o plantio como preferir.
É também neste espaço cercado por natureza viva onde se realiza a Cerimônia de Despedida do pet. São dois decks de madeira disponíveis, ambos com vista para a exuberância natural da reserva. Os corpinhos são acomodados em cestos repletos de flores para a despedida e, em seguida, encaminhados para a cremação individual, que o tutor pode optar por acompanhar ou não.
Enquanto ocorre a cremação – que pode levar de poucos minutos a algumas horas, a depender do porte do animal – os familiares são convidados a caminhar por uma trilha guiada em meio à floresta. Ali, transborda vida: nascentes de água, abelhas nativas, insetos diversos e fauna silvestre (com bichos-preguiça, tatus, quatis, saguis e até gato-do-mato). “Eles saem daqui revigorados”, conta. O Ânimas conta ainda com dois cães de apoio emocional que acompanham as famílias, Sorriso e Saci, ambos resgatados por Christine. “Eles têm um talento nato e vão diretamente ao encontro das pessoas mais enlutadas.”
A filosofia do Ânimas é fundamentada na sustentabilidade. Além das urnas hidrossolúveis, o empreendimento aposta em energia solar, sistema de reuso de água pluvial e reciclagem de 100% do lixo. Segundo Christine, foi dessa necessidade de preservação natural que nasceu a ideia. “Minha família comprou o terreno ao lado para preservar o local. Depois de adulta, senti a inquietação de continuar esse legado de proteção. Foi aí que veio a ideia de criar um crematório de animais em que se pudesse plantar uma árvore por cada bichinho”, conta a fundadora, que é médica-veterinária. Foi no período da pandemia que tudo começou a tomar forma: “Esses quatro anos de espera foram fundamentais, pois montei meu viveiro, aprendi a fazer cerâmica e as árvores cresceram. Quando obtivemos o licenciamento, já estava tudo pronto.”
Atualmente, são mais de 80 espécies de árvores no estabelecimento, muitas das quais recebem visitas semanais de tutores que desenvolveram um vínculo com elas. Para Christine, a ideia cumpre dois objetivos: dar alento às famílias enlutadas e torná-las mais conectadas com a riqueza natural que temos no Brasil. “Esse é o propósito do Ânimas: dar continuidade ao ciclo renovador da natureza”.
Um desejo por cuidado e conexão
Os funerais próprios para pets são um reflexo das mudanças nas estruturas afetivas da sociedade, que revelam um desejo humano inerente por conexão e cuidado. É uma tendência crescente no mundo todo, que já abraça as tradições de diferentes culturas.
Na China, por exemplo, é possível comprar papel-moeda para pets, uma forma de oferenda funerária cultural do país, que transmite esperança para a vida após a morte. Segundo o South China Morning Post, os pacotes elaborados de funeral para pets partem de US$ 35, e podem incluir arranjos florais, mantas de despedida e paredes memoriais decoradas.
“Esse movimento acompanha a mudança na relação com os animais, que deixaram os quintais para integrar o núcleo familiar, exigindo soluções sustentáveis e humanizadas para a destinação pós-morte”, conta Adriele Prina, veterinária e fundadora da RIP Pet, em entrevista À Forbes Brasil.
A empresa também aposta na natureza como auxílio na elaboração do luto. O crematório em São Paulo tem espaço útil de mais de 100 mil m², com um lago de carpas e uma sala de velório concebida como uma estufa biofílica de plantas suspensas. Há também uma capela dedicada a São Francisco de Assis na parte externa, envolta por um jardim de flores. “Um tutor que é devoto pode espalhar as cinzas em volta da capela. Ele vai sempre poder visitar e ter um momento de oração”, conta Adriele.

A empresa também disponibiliza opções de urnas biodegradáveis e hidrossolúveis, permitindo cerimônias em praias e rios. “É legal para um animalzinho que gostava de nadar ou de ir pra praia. A pessoa pode, de repente, ir num pier e soltar essa urna na água – na hora que ela tem um contato com água, se dissolve imediatamente, sem poluir o meio ambiente”, explica.
Com operações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a RIP Pet prioriza a conveniência e o cuidado com as famílias enlutadas. Tutores que moram longe podem acompanhar a despedida de forma on-line e receber a gravação do momento. Segundo Carlos Eduardo, cofundador, todos os processos da empresa foram estruturados com o suporte de psicólogos especializados em luto, que também atuam na capacitação dos mais de 70 colaboradores.
Os valores de cremação variam conforme a região, partindo de R$ 890 para cremação coletiva. A empresa atende a animais de até 150 kg, abrangendo desde peixes de aquário até pequenos pôneis, passando também por animais exóticos com registro legal.
Eternizando o pet em forma de lembrança
Uma das formas de homenagear aqueles que já se foram é transformá-los em lembrança física. A produção de diamantes feitos com as cinzas é uma técnica já muito utilizada para humanos – e agora estendida para pets. O trabalho inclusive está incluído na cartela de serviços oferecidos pela RIP PET: “Mandamos [as cinzas] para um laboratório fora do Brasil, eles extraem o carbono e transformam em um diamante”, explica Adriele.
A suíça Lonité, por exemplo, transforma as cinzas e pelos do pet em pedras preciosas de diferentes cores e quilates. Os valores vão de US$ 2 mil até exorbitantes US$ 32 mil.

Outros preferem transformar o amor ao pet em arte. Em julho deste ano, o The Times classificou os melhores artistas de retratos de animais de estimação. A coroada da lista foi Tanya Russel, em termos de extravagância. As encomendas em bronze fundido e bronze resina podem chegar até 25 mil libras, com uma lista de espera que se estende por mais de um ano. Já a artista londrina Alice Hawthorn eterniza os pets em diferentes superfícies, incluindo em aquarela, couro, vidro, garrafas, enfeites de natal e até bolsas.

No Ânimas Pet, Christine Hueck cria manualmente recordações personalizadas para os tutores. Além de mini esculturas dos pets falecidos, clientes podem optar por peças de cerâmica e acessórios como brincos, chaveiros e colares, adquiridos separadamente. Uma peça com a pegada do bichano já está incluída no pacote de cremação individual, a R$ 1.580.
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