A busca por viver mais acompanha a humanidade há séculos. O que mudou nos últimos anos é que a longevidade passou a ocupar um espaço cada vez maior na ciência. Pesquisadores tentam compreender por que envelhecemos, quais mecanismos aceleram ou retardam esse processo e, principalmente, se é possível aumentar o número de anos vividos com saúde, autonomia e funcionalidade.
E, quanto mais se estuda o envelhecimento, mais complexo ele se revela. A ciência já descreve hoje 12 grandes mecanismos associados ao envelhecimento, os chamados hallmarks of aging. Essa complexidade esteve no centro das discussões do I Summit Brasileiro de Medicina e Ciência da Longevidade, em São Paulo. O encontro marcou também a criação da Sociedade Brasileira de Medicina e Ciência da Longevidade (SBMCL), que será presidida pela endocrinologista e nutróloga Vânia Assaly.
Há uma fronteira científica fascinante sendo explorada. Sirtuinas, AMPK e mTOR (sensores metabólicos que regulam energia, crescimento e manutenção celular) são algumas das vias celulares investigadas por seu papel no metabolismo e no envelhecimento. Substâncias como metformina, rapamicina e resveratrol despertam interesse pela possibilidade de interferir nesses mecanismos.
A rapamicina e a acarbose, por exemplo, estão entre os compostos com resultados de extensão de vida no programa de testes do National Institute on Aging dos Estados Unidos.
Mas, se por um lado a ciência busca intervenções cada vez mais sofisticadas para a longevidade, o conhecimento adquirido até aqui nos mostra que atividade física, preservação da massa muscular, alimentação adequada, controle da saúde metabólica e redução do sedentarismo continuam sendo essenciais quando falamos em envelhecimento saudável.
Esse talvez seja um dos paradoxos da longevidade. Queremos achar uma intervenção capaz de nos fazer viver mais, mas boa parte do sucesso depende daquilo que fazemos durante anos. Isso não diminui a importância das novas tecnologias ou dos medicamentos. Ao contrário. A questão é que não podemos buscar certezas imediatas em uma área científica que ainda está construindo respostas.
É ai que entra uma ideia que considero fundamental na medicina de precisão: tratar melhor não significa tratar mais. Essa lógica é importante quando falamos de longevidade. A medicina pode identificar predisposições, corrigir desequilíbrios, tratar doenças e interferir em alguns dos mecanismos biológicos do envelhecimento. Mas nenhuma dessas ferramentas atua isoladamente. Elas fazem mais sentido quando são parte de uma estratégia mais ampla de saúde.
Na dermatologia, essa visão integrada do envelhecimento faz especialmente sentido. A pele não envelhece isolada do restante do organismo. Ela é influenciada pela genética, pelas alterações metabólicas e hormonais e pelos hábitos que acumulamos ao longo da vida.
O grande desafio, portanto, não é apenas descobrir como acrescentar anos à vida. É conseguir acrescentar saúde aos anos, sem perder de vista que uma parte importante da longevidade é construída pelas escolhas que fazemos todos os dias.
*Dra. Leticia Nanci é especialista em dermatologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBO) membra efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da Academia Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCO)
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