Se Diane Lima tivesse que escolher uma única palavra para definir o que conecta os 33 artistas reunidos no 39º Panorama da Arte Brasileira, a resposta já estaria pronta: liberação. “Eu acho que o que une todas as artistas nessa exposição é um persistente e constante exercício de liberação”, disse a curadora durante a abertura da mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Parque Ibirapuera.
A palavra ajuda a abrir caminho para uma exposição que se recusa a entregar respostas imediatas. Esculturas, instalações, abstrações e figurações convivem sem obedecer a uma narrativa única. Diane diz ter pensado a exposição quase como uma composição, em que luz, sombra, som, cor e volumetria entram na equação. “Eu tratei o espaço como uma tela em branco.”
O resultado é uma mostra que pede tempo e atenção. “Se você olhar direitinho, se aprofundar nos catálogos, ler as legendas, ler os títulos, conversar com os artistas ou se expor à experiência delas em si, eu acho que há algo ali que atravessa uma camada após a outra”, explicou. “As coisas não são exatamente o que elas parecem ser.”
Em cartaz até 24 de janeiro de 2027, o Panorama reúne nomes como Jota Mombaça, Rose Afefé, Lita Cerqueira, Rafael Chavez, Caroline Ricca Lee, Thaís Muniz, Ygor Landarin, Lia D’Castro e Ana Claudia Almeida, em um conjunto de 33 artistas de 13 estados e de todas as regiões brasileiras.
A abrangência geográfica não é detalhe. Baiana, Diane conta que deslocar o olhar para além do eixo Rio–São Paulo sempre esteve incorporado à sua prática. Durante a pesquisa, percorreu diferentes territórios do país e encontrou trabalhos profundamente relacionados à terra e às particularidades de suas paisagens. Não para construir uma imagem nacionalista ou estereotipada do país, ressalta, mas para se aproximar “do que há de mais elementar sobre o Brasil”.
É também aí que Depois que tudo foi dito, título desta edição, ganha sentido. A expressão nasce do pensamento da filósofa, escritora e artista Denise Ferreira da Silva, referência central na trajetória intelectual de Diane. A curadora conta que buscava uma frase capaz de condensar o momento da arte brasileira que pretendia investigar. Revirou textos e anotações guardados ao longo dos anos, mas nada parecia dar conta da ideia. Voltou então ao trabalho de Denise.

“Eu falei: ‘Nossa, vou ter que falar logo com a Denise, porque eu não posso mais me mover sem ela’.” A escolha tornou-se também uma homenagem. “Não havia melhor oportunidade de fazer isso do que no Panorama da Arte Brasileira.”
A pergunta que veio em seguida orientou a exposição: “Onde estamos, onde chegamos e para onde queremos ir depois que tudo foi dito?”
Para respondê-la, Diane olha para as transformações ocorridas no Brasil sobretudo a partir dos anos 2000, quando discussões sobre representação, apagamento, invisibilidade e sub-representação ganharam espaço nas universidades, nas instituições culturais e no próprio sistema da arte. Agora, porém, interessa a ela ir além. A maior visibilidade de artistas negros, indígenas e dissidentes também criou expectativas sobre aquilo que deveriam produzir e sobre como suas obras deveriam expressar suas identidades. O movimento proposto pelo Panorama é justamente escapar dessas novas amarras.
Um bom exemplo está nas duas pequenas telas de Lia D’Castro. À primeira vista, são pinturas de aparência quase inacabada, com figuras de militares que pouco revelam sobre o que realmente está em jogo. É preciso ir além da imagem, e até do curioso título da obra, para que outras camadas comecem a aparecer. A história por trás do trabalho muda a maneira de enxergá-lo e faz dele uma espécie de pequeno enigma dentro da exposição.

Não vamos estragar a descoberta por aqui. A recomendação é outra: diante da obra, aponte o celular para o QR code da sinalização e escute a história até o fim. Depois, olhe novamente para as duas telas. Elas provavelmente já não serão as mesmas. E nem você.
Talvez seja essa também uma boa chave para percorrer todo o Panorama: desconfiar do que parece imediatamente reconhecível e permitir que a experiência venha antes da explicação. Apesar da densidade teórica que sustenta o projeto, Diane prefere definir de maneira muito mais física aquilo que espera provocar no visitante.
“Como boa baiana, eu vou dizer que quero que todo mundo se arrepie”, disse. “Eu queria que as pessoas sentissem a exposição antes de qualquer relação mais objetiva, racional com ela.”