Era outubro de 1926 quando a revista americana Vogue publicou a ilustração de um vestido de silhueta reta, sem adornos, em preto absoluto, batizada no texto de “o Ford da Gabrielle Chanel”. A referência vem de Henry Ford e seu Ford Model T, o primeiro produto de massa da história industrial moderna. Antes item dos super-ricos, com o Ford T os automóveis se tornaram mais acessíveis. A escolha da cor buscava produtividade e redução de custos: a tinta preta secava mais rápido e, assim, acelerava a linha de montagem.
Chanel, com seu pretinho, foi a Ford da moda e levou a elegância para todas. Funcional e (supostamente) simples, o vestido que foi do luto ao luxo virou símbolo da revolução que liberou e empoderou as mulheres. Chanel, criada em um orfanato por freiras que lhe ensinaram a costurar, era próxima do preto. Ela enxergava na cor não ausência, mas possibilidade. Uma tela em branco onde quem brilha é a mulher. Ele é discreto, mas chama a atenção. Seu modelo original em crepe de seda chegou sem o excesso decorativo que dominava a alta-costura da época. A cor e a ausência de detalhes permitem à peça ser usada em várias ocasiões. E isso não era pouco: uma roupa ser, ao mesmo tempo, funcional e elegante nos anos 1920 era quase contraditório.

A história do estrelato do vestido preto começa antes de Chanel. Em 1884, o americano John Singer Sargent expôs em Paris o retrato que causou um dos maiores escândalos da arte: Madame X. A modelo Virginie Amélie Avegno Gautreau, socialite, nascida em Nova Orleans, era, na época, a beleza mais celebrada de Paris. Sargent a pintou em tamanho real, com quase dois metros, com vestido preto justo, decote profundo em forma de coração e alça de diamantes escorregando do ombro direito. A plateia reagiu com indignação, os críticos chamaram o retrato de vulgar e imoral.
Ao vender o quadro ao Metropolitan Museum of Art de Nova York, em 1916, Sargent escreveu que aquela era “a melhor coisa que já fiz”. Ano passado, o quadro foi a estrela e capa do catálogo da exposição Sargent and Paris, montada pelo MET e transferida para o Musée d’Orsay, em Paris.

Desde a tela de Sargent, o pretinho básico acumula momentos que definem épocas. Um dos mais reproduzidos da história da moda é o de 1961, quando Audrey Hepburn surgiu como Holly Golightly no filme Bonequinha de Luxo, usando um longo preto de Hubert de Givenchy, luvas acima do cotovelo, colar de pérolas e um cigarro na piteira dourada.
A imagem virou pôster, cartão-postal, referência de Halloween e ideal de elegância eterna. Mas o vestido não é sempre fofo e sóbrio. Ele também entrega provocação. Em 1994, Elizabeth Hurley, em um Versace preso por alfinetes de segurança dourados ao lado de Hugh Grant, redefiniu o que significava fazer uma entrada.
Peça mais versátil da história do vestuário feminino, o pretinho básico pertence a todas e a ninguém. Na vida real, nunca deixou de ser “uma mão na roda”. Mas, alguns anos atrás, ficou tão presente que passou a ser visto como roupa sem graça de quem não pode errar ou não quer arriscar.

O algoritmo das redes sociais também não ajuda. Ele favorece cor, contraste, detalhe, novidade, excesso: exatamente tudo o que o pretinho básico recusa. Ele não tem o apelo do print floral, a surpresa do color blocking, o drama do cut-out. No entanto, prospera na vida.
Ele é o amigo fiel que está sempre pronto e não pede explicação. É o primeiro que a gente convida para viajar. Em versão leve ou transparente, vai da praia a Paris na mala de mão. Atravessa o jantar de negócios, o velório, o aniversário surpresa e a viagem de mochila. Ele é real, sempre surpreende para melhor, passa confiança. Adora dividir espaço com acessórios e outras peças. Tem personalidade neutra, mas ativa. Às vezes bem ativa.

Um momento marcante do little black dress aconteceu em 1994, quando a princesa Diana chegou na Serpentine Gallery, em Londres, com um modelo colado, decote ombro a ombro, da estilista grega Christina Stambolian. A aparição ocorreu na noite em que o rei Charles 3º, então príncipe, confirmava publicamente sua infidelidade. A imagem de Diana, segura e luminosa, levantou o moral das mulheres e resgatou o espírito feminista do vestido, que ficou conhecido para sempre como “revenge dress”. Simples, porém inesquecível.
*Reportagem publicada na edição 10 da ForbesLife Fashion, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.