Quem atravessa as grossas e imponentes paredes de pedra da Torre de Londres, com seus 955 anos de história, normalmente tem um objetivo em mente: ver as maiores relíquias da monarquia britânica. Ali, repousam as Joias da Coroa, um conjunto de mais de 23 mil pedras preciosas que inclui os diamantes mais famosos do mundo, como o Cullinan e o Koh-i-Noor. Hoje, a poucos passos de onde essas joias permaneceram guardadas por mais de sete séculos, outro tipo de tesouro ocupa discretamente uma das torres do complexo medieval: uma coleção dos uísques mais raros do portfólio da Royal Salute.
Única marca do mundo a ocupar a fortaleza icônica de Londres, parceria que já está renovada para os próximos três anos, a Royal Salute Chamber é um espaço dedicado à degustação de rótulos exclusivos e edições limitadas. Ali, hoje repousam 62 edições de uísque lançadas nos últimos 70 anos – suas “joias líquidas”, como define Nathan Wood, embaixador global da label escocesa. A Forbes Brasil foi o primeiro veículo da América Latina a conhecer a câmara.
A escolha do local, claro, tem tudo a ver com a origem da marca, criada em 1953 pela Chivas Brothers para celebrar a coroação de Elizabeth II. Desde então, ela mantém uma relação simbólica com rituais da monarquia britânica – especialmente o tradicional disparo de canhões usado para marcar ocasiões de Estado. Dessa herança nasceu uma filosofia de produção rigorosa e singular na indústria: “Sempre envelhecemos nossos uísques por um mínimo de 21 anos”, conta Wood, nosso guia durante a experiência. “Enquanto o mercado costuma celebrar essa idade como o ápice de envelhecimento de um uísque, começamos onde os outros terminam.”

Uma noite na torre
Uma vez por mês, convidados especiais da marca têm a chance de visitar a câmara da Royal Salute no after hours, quando a horda de turistas já foi embora. A experiência começa com um tour exclusivo pelo local, recebidos por um dos seus Beefeaters, como são chamados os guardas cerimoniais do complexo – no nosso caso, Chris, também mestre dos corvos e residente da torre há 21 anos.
Por pelo menos duas horas, a fortaleza medieval e suas (muitas) histórias são só nossas. Erguida a partir de 1066 por Guilherme, o Conquistador, a Torre de Londres é um repositório inesgotável de acontecimentos. Ao longo de quase um milênio, já foi de tudo um pouco: de palácio real a prisão política, Casa da Moeda, observatório astronômico e até zoológico real. Animais exóticos já desfilaram pelos corredores, como leões, tigres, macacos e até um elefante africano – que, sem tratamento adequado no século 12, bebia litros e litros de vinho por dia até morrer “bêbado e feliz”. Os corredores também guardam execuções célebres, como a de Ana Bolena, e a lenda de um urso-polar fantasma que, dizem, amaldiçoa quem cruzar o seu caminho.
Mas é na Martin Tower que a narrativa da noite ganha um novo capítulo. Antes de se tornar a casa da Royal Salute Chamber, a torre foi o primeiro cofre das Joias da Coroa. Durante séculos, foi ali que coroas, cetros e diamantes permaneceram guardados sob vigilância constante. Alguns dos armários originais ainda estão preservados, exatamente onde hoje repousam as garrafas da biblioteca da marca. “Esta câmara sempre foi dedicada a proteger coisas preciosas”, diz Wood.

Na prática, o espaço funciona hoje como um arquivo líquido, acessível apenas a convidados e membros do Le Cercle, o clube privado da Pernod Ricard dedicado a clientes de alto patrimônio. Entre vitrines discretamente iluminadas, a chamada Whisky Library reúne praticamente todas as edições especiais já lançadas pela Royal Salute desde 1953 – colaborações com estilistas, séries inspiradas no polo e raridades produzidas em quantidades mínimas, como o uísque da coroação do rei Charles III, com apenas 500 garrafas, a US$ 25 mil cada.
Entre as curiosidades está uma garrafa que chegou ao topo do mundo: uma edição comemorativa levada ao Monte Everest pela família do explorador Edmund Hillary, o primeiro homem a atingir o cume da montanha (8.848 metros), no mesmo ano da coroação de Elizabeth II.
A arte de criar um blend
No armário Cullinan, onde antes já se guardou o maior diamante do mundo, com 3.106 quilates, repousa a joia da coroa do portfólio da Royal Salute: a coleção 62 Gun Salute, nomeada em referência à salva de 62 tiros disparada apenas em ocasiões extraordinárias da família real, como coroações ou aniversários do soberano. A base da conta é a salva-padrão de 21 tiros, herança da tradição naval britânica. Aos disparos iniciais somam-se outros 20 em homenagem à própria fortaleza real e mais 21 dedicados à cidade de Londres.
Os três blended uísques da série são apresentados em uma experiência imersiva, em que projeções na mesa revelam suas notas – cada um representando um momento simbólico da cerimônia, com frascos que espelham as cores das Joias da Coroa. O Original Reserve, na garrafa azul-safira, evoca o caráter solene do ritual; o American Oak Reserve, em vermelho-rubi, traduz o impacto do disparo dos canhões com notas mais vibrantes e frutadas; e o Peated Reserve, verde-esmeralda, busca reproduzir a fumaça que paira no ar após a salva.
Este último guarda um detalhe particularmente interessante: no seu blend está um uísque proveniente da Caperdonich, uma chamada “ghost distillery” – destilarias que já foram fechadas e demolidas, tornando o estoque restante um recurso finito. “Ela foi desmontada tijolo por tijolo”, explica Wood. “O que existe hoje é tudo o que teremos dessa destilaria.”

Por trás dessas garrafas limitadas (apenas 300 por ano de cada rótulo) está o trabalho de Sandy Hyslop, o quinto master blender da história da Royal Salute. Ele conta com um dos maiores acervos de uísques envelhecidos da Escócia: quase 7 milhões de barris pertencentes à Chivas Brothers. “Há mais barris de uísque do que pessoas na Escócia”, brinca Wood. Grande parte desse trabalho envolve analisar até 1.500 amostras semanalmente, quase sempre pelo aroma. Hyslop, então, faz a sua mágica.
É dessa alquimia que nascem as raridades que chegam às taças na Martin Tower. Degustar esse resultado ali, na quietude de uma fortaleza milenar vazia, faz a metáfora das “joias” ganhar um sentido muito literal. No fim, a verdadeira exclusividade da experiência não está apenas na raridade do uísque, mas no privilégio de ter o tempo – e os bastidores da história britânica – à sua disposição.
*Reportagem publicada na edição 139 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.