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O Barco Queridinho do Brasileiro Trocou de Classe e de Tamanho

Se antes o sonho de consumo do público de alta renda ficava na faixa dos 30 a 50 pés, agora a régua sobe para patamares acima de 70 pés

6 min

O barco queridinho do brasileiro mudou de tamanho. Se antes o sonho de consumo do público de alta renda ficava na faixa dos 30 a 50 pés, agora a régua sobe para patamares acima de 70 pés — e o estaleiro Okean, licenciado exclusivo da Ferretti Yachts e único no mundo autorizado a fabricar modelos da grife italiana fora da Itália, está de olho justamente nesse tipo de consumidor.

Os números do estaleiro localizado em Santa Catarina mostram a mudança de escala. Em dez anos de operação, a empresa construiu 5.083 pés em embarcações. Só em 2025 foram 1.150 pés, em 16 barcos — uma média de 72 pés por unidade. O salto indica um portfólio cada vez mais concentrado em modelos maiores.

Essa mudança está diretamente ligada ao perfil do consumidor. “Quanto maior o barco, mais anos de náutica esse consumidor tem”, resume Manuel Macieira Pires, diretor comercial da Okean Ferretti. Entre os 85 clientes atendidos diretamente pela empresa, praticamente não há quem esteja comprando o primeiro barco; são proprietários com longa trajetória na água, muitas vezes de famílias que já navegavam antes.

Segundo Pires, o brasileiro é hoje um dos clientes que mais rapidamente “sobe de degrau” na náutica. A leitura interna do estaleiro é que, em média, o dono de barco no país aumenta cerca de 10 pés a cada troca, em ciclos de cinco a seis anos — um ritmo mais acelerado do que o observado entre europeus e norte-americanos, que tendem a atualizar modelos sem necessariamente crescer tanto em tamanho.

O novo objeto de desejo: Ferretti 850 (e acima)

Na prática, o “barco dos sonhos” desse público hoje atende por dois nomes: Ferretti 850 e Ferretti 1000 (de 100 pés e que vale algo em torno de R$ 60 milhões). O primeiro, de 85 pés, foi o segundo modelo da linha anunciado pela Okean, ainda em 2019/2020, depois da Ferretti 550. De lá para cá, tornou-se o centro da demanda brasileira por barcos maiores.

A combinação de tamanho, faixa de preço e posicionamento criou uma fila de espera longa. Pelas contas do estaleiro, um cliente que assinar hoje um contrato por uma Ferretti 850 deve receber a embarcação apenas em outubro de 2027, considerando o tempo de produção — entre seis e nove meses — e a ordem de matrículas já confirmadas na linha.

Esse apetite se apoia também na escassez de produtos equivalentes no mercado local. Pires define o Brasil como “carente de barco maior e de qualidade”, o que reduz a pressão competitiva direta na faixa de 85 a 100 pés. Não por acaso, a empresa já fabricou mais de 50 embarcações Ferretti no país, com mais de 60 unidades vendida.

O licenciamento exclusivo com a Ferretti Yachts coloca o estaleiro em uma posição particular: trazer para o Brasil modelos em série com assinatura italiana, produzidos localmente, em um segmento em que outros fabricantes nacionais ainda têm menos presença.

Fábrica maior para barcos maiores

A mudança no “barco típico” do cliente exigiu reconfiguração da produção. A Okean migrou a unidade do Guarujá para Santa Catarina com um plano claro: ter uma planta capaz de construir até 50 barcos por ano. Na prática, o número de unidades caiu em relação aos anos de modelos menores, mas o total de pés produzidos cresceu — reflexo da estratégia de reduzir o volume de barcos pequenos e ampliar o de grandes.

Para dar conta da nova escala, o grupo verticalizou etapas-chave. Comprou uma unidade de fibra em Porto Belo, responsável por toda a laminação dos cascos, e inaugurou um galpão em Rio Negrinho dedicado à marcenaria e às peças em teca. Somadas, as três plantas chegam a quase 40 mil m² de área, com espaço para expansão futura ao lado da unidade de montagem.

O avanço esbarra em um gargalo comum à indústria náutica: mão de obra. O estaleiro mantém parcerias com SESI e SENAI em Itajaí e com fornecedores para formação técnica, mas ainda trabalha com um déficit relevante. Hoje são cerca de 500 funcionários, e a empresa planeja abrir entre 80 e 100 vagas adicionais em função da expansão e da adoção de novos turnos na fábrica. Boa parte do trabalho permanece artesanal, com alinhamentos milimétricos que não podem ser totalmente automatizados.

Onde está o dono desses barcos

O mapa de vendas da Okean Ferretti confirma a concentração em grandes centros econômicos. São Paulo responde por mais de 50% dos negócios, seguido de Santa Catarina, com algo entre 20% e 30%, e um terceiro bloco formado por Rio de Janeiro e Paraná. Curitiba aparece como “point importantíssimo”, historicamente dominado pela concorrência e hoje visto como um dos focos de crescimento.

Enquanto a linha Ferretti é voltada integralmente ao mercado brasileiro, a marca Okean nasceu com foco em exportação. Os modelos foram concebidos e precificados para clientes que pagam em dólar, como forma de proteger o negócio da volatilidade cambial. Mesmo assim, a empresa começou a abrir novas matrículas da Okean para o Brasil, com destaque para o Okean 57, day boat de 57 pés que se tornou a “porta de entrada” da marca entre consumidores locais interessados em algo diferente do padrão.

O pano de fundo de todos esses movimentos é um dado simples: o brasileiro que já está há anos na náutica não quer repetir o mesmo barco. A cada ciclo, sobe alguns degraus, em pés, em ticket e em expectativa sobre o que um casco pode entregar. A aposta da Okean Ferretti é que esse ciclo agora se consolida em torno de iates como o Ferretti 850 e o Ferretti 1000, desenhados na Itália, produzidos em Santa Catarina e pensados para um mercado que se acostumou a olhar para o lado, na marina, e imaginar qual será o próximo upgrade.

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