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Como Viagens com Carros de Luxo Viraram um Negócio Milionário

Com roteiros que partem de R$ 400 mil por casal e podem se aproximar de R$ 1 milhão, a Driveness transformou supercarros, autódromos e acesso raro em um novo produto do turismo premium brasileiro

6 min

Durante muito tempo, o símbolo mais óbvio do turismo de luxo esteve no hotel. Suítes de frente para o mar, serviço impecável, gastronomia estrelada e uma coleção de facilidades pensadas para transformar conforto em linguagem universal do alto padrão. Esse eixo continua existindo, mas já não explica sozinho o desejo do viajante de alta renda. No Brasil, uma parte crescente desse público parece querer outra experiência: menos hospedagem como protagonista e mais acesso exclusivo, curadoria e experiências difíceis de replicar. É nesse espaço que a Driveness constrói um negócio próprio – e, ao que tudo indica, milionário.

A empresa, fundada por Gustavo Zschaber, transformou viagens com supercarros, autódromos, road trips, percursos off-road, gastronomia e hospitalidade de alto padrão em produto de turismo premium. Não se trata, segundo ele, de vender apenas deslocamento ou dirigir carros rápidos. A proposta é desenhar jornadas autorais para grupos reduzidos, com forte apelo aspiracional, conexão entre os participantes e uma camada de acesso que, na prática, vai além do que o dinheiro normalmente compra isoladamente.

O próprio nascimento da empresa ajuda a explicar essa lógica. Zschaber veio do turismo, com mais de 20 anos de experiência na formatação e operação de roteiros ao redor do mundo, mas sempre manteve o automobilismo no horizonte. “Meu sonho dourado era juntar um pouco desses dois mundos”, afirmou. A ideia saiu do plano e virou empresa durante a pandemia. A primeira validação veio em 2021, com uma viagem de 12 dias aos Emirados Árabes para 27 clientes. Segundo ele, a experiência funcionou como prova de conceito. Depois vieram Áustria e outros roteiros, já com um dado importante para esse tipo de negócio: recorrência. Em 2022, a viagem à Áustria teve 80% da turma repetindo a experiência. Outro indicador citado por Zschaber ajuda a entender a tração do modelo: para cada viajante, a empresa diz gerar, em média, cinco novos passageiros por indicação.

A escala, porém, não é o objetivo central. Zschaber diz preferir menos saídas, mas com mais monetização, patrocínio, ticket médio elevado e experiências incomuns. “A gente quer trabalhar cada vez de uma maneira mais escassa, para que a gente possa se posicionar como um produto realmente high luxury, triple A”, afirmou. Nesse desenho, a exclusividade deixa de ser só um efeito colateral do preço e passa a ser parte da estratégia de marca.

O preço da experiência

O que Gustavo Zschaber relata é um modelo de negócio sustentado por tíquete muito alto e forte capacidade de monetização por saída. Segundo ele, as viagens começam em R$ 400 mil por casal, podem subir para R$ 600 mil e, com upgrades, chegar perto de R$ 1 milhão. O faturamento por saída aparece na casa de R$ 10 milhões – uma cifra que ajuda a dimensionar como a Driveness transformou esse tipo de jornada em um negócio relevante dentro do turismo premium brasileiro.

Essa conta começa a fazer sentido quando se observa onde está o custo da operação. “Autódromo é o número um”, disse. Segundo ele, o fechamento de pistas para uso exclusivo do grupo pesa fortemente no orçamento, assim como seguro e hotelaria. Ainda assim, a Driveness sustenta que o valor principal da viagem não está em um item isolado, mas na combinação entre acesso, narrativa e tempo bem utilizado. “O nosso bem mais precioso é o tempo”, afirmou. “A ideia é proporcionar um tempo de qualidade com experiências nunca pensadas antes.”

O efeito Felipe Massa

Entre os projetos mais emblemáticos da Driveness está a Itália by Felipe Massa, marcada para outubro de 2026. O ex-piloto de Fórmula 1 e embaixador da marca entrou como peça central de um roteiro que mistura performance automotiva e lifestyle italiano. A viagem inclui autódromos históricos, pilotagem em pistas icônicas, visitas ao universo Ferrari e uma curadoria pensada para ampliar a experiência para além do carro.

Segundo Zschaber, o componente automotivo representa cerca de um terço da viagem. Os outros dois terços são ocupados por cultura, gastronomia e experiências locais. No caso do roteiro italiano, isso inclui alta costura em Milão, perfumaria em Bolonha, wine experiences, gastronomia estrelada Michelin, spas e hospedagens de luxo.

O próprio convite a Felipe Massa seguiu essa lógica de ampliar desejo e acesso. “Eu convidei o Felipe para fazer um projeto ousado. Vamos com a gente fazer uma viagem com uma curadoria especial, com acessos na Ferrari que eu sei que só você tem”, contou Zschaber. A presença do ex-piloto ajuda a elevar não apenas a visibilidade do produto, mas o grau de acesso a ambientes normalmente restritos ao universo da performance automotiva.

Curadoria, networking e escassez

Outro elemento central do modelo está na composição do grupo. As viagens costumam reunir 30 pessoas, normalmente divididas em 15 casais. A seleção de quem viaja também é tratada como ativo. “A gente precisa fazer a curadoria do cliente que está indo na viagem”, disse. Essa filtragem, segundo ele, é feita com apoio de agências e operadoras de luxo. O objetivo é preservar o tipo de convivência que a empresa vende como diferencial: um ambiente de afinidade, conexão espontânea e networking não forçado. “Pessoas já abriram empresas a partir da conexão na viagem”, contou.

No fim, o que a Driveness tenta provar é que o novo luxo se deslocou da posse para a narrativa. Ou, nas palavras do fundador, para aquilo que “o dinheiro por si só não acessa”. “A pessoa pode ter todo o dinheiro do mundo que ela não vai conseguir formatar o que a gente está formatando”, afirmou. Ao transformar supercarros, autódromos e viagens sob medida em produto de alto valor agregado, a empresa encontrou um espaço raro no turismo premium brasileiro: o de uma experiência em que o carro deixa de ser apenas objeto de desejo e passa a ser o próprio fio condutor de um negócio milionário.

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