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A Maior Fábrica de Carros do Brasil Nasceu Onde Ninguém Esperava e Já Fez 18 Milhões de Veículos

Instalado longe do eixo automotivo do ABC Paulista, o polo de Betim (MG) completa cinco décadas com R$ 14 bilhões em investimentos previstos até 2030

7 min

Quando a Fiat decidiu instalar uma fábrica em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a indústria automotiva brasileira ainda tinha seu centro de gravidade no ABC Paulista. Meio século depois, a aposta fora do eixo tradicional de produção virou o maior complexo automotivo do país e um dos principais ativos industriais da Stellantis no mundo.

O Polo Automotivo Stellantis de Betim (nome oficial do espaço) completou 50 anos em julho de 2026 com mais de 18 milhões de veículos produzidos, mais de 4 milhões de unidades exportadas para aproximadamente 40 países e capacidade instalada para fabricar até 650 mil carros por ano. A unidade, que começou sua trajetória com o Fiat 147 em 1976, hoje produz modelos como Fiat Argo, Mobi, Pulse, Fastback, Fiorino, Peugeot Partner Rapid, Ram 700 e Fiat Strada.

A comemoração teve eventos em Belo Horizonte e em Betim no dia 22 de julho, reunindo executivos da companhia em um momento em que a fábrica mineira ganha novo peso dentro da estratégia global da Stellantis. O grupo, dono de marcas como Fiat, Jeep, Ram, Peugeot e Citroën, apresentou, em maio, um plano global de 60 bilhões de euros para os próximos cinco anos. Na América do Sul, estão previstos R$ 32 bilhões em investimentos até 2030, dos quais R$ 14 bilhões serão destinados ao polo de Betim.

A importância local também aparece em um dado simbólico: 40% dos carros da Fiat vendidos no mundo saem dessa fábrica. A unidade está em processo de contratação para o terceiro turno, movimento necessário para atingir sua capacidade máxima de produção.

De Betim para o mundo

A chegada da Fiat a Minas Gerais, em 1976, ajudou a redesenhar a geografia da indústria automotiva nacional. A decisão de produzir fora do principal eixo industrial do país criou uma nova cadeia de fornecedores, atraiu investimentos em infraestrutura e colocou Betim no centro de um projeto de longo prazo.

O primeiro produto da fábrica foi o Fiat 147, apresentado naquele ano em Ouro Preto. O modelo marcou a estreia da marca no Brasil e trouxe soluções consideradas inéditas para a indústria nacional, como motor transversal, pneus radiais e para-brisa de vidro laminado. Em 1979, o 147 também se tornou o primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo.

A partir dali, Betim passou a concentrar alguns dos modelos mais relevantes da história da Fiat no país, como Uno, Palio e Strada. A Strada, hoje, é o veículo mais vendido do Brasil desde 2021 e segue como um dos pilares da liderança da marca. A Fiat lidera o mercado brasileiro há cinco anos consecutivos e, em 2026, caminha para manter essa posição pelo sexto ano.

Em junho, a Strada registrou recorde de produção mensal no polo mineiro, com 19.261 unidades fabricadas, superando a marca anterior de 18.287 unidades, de setembro de 2025.

2,2 milhões de metros quadrados

O polo de Betim ocupa uma área total de 2,2 milhões de metros quadrados, com mais de 900 mil metros quadrados de área construída. A operação reúne cerca de 19 mil colaboradores, mais de 400 fornecedores diretos e uma das maiores estruturas de engenharia automotiva da América do Sul.

A presença da fábrica também mudou a dinâmica econômica da cidade. Entre 1996 e 2007, o PIB de Betim cresceu 261,5%, segundo levantamento do Ipea com base em dados do IBGE. O município também alcançou IDHM de 0,749, classificado como alto desenvolvimento humano.

Leo Lara / DivulgaçãoPlanta de Betim: área total é de 2,2 milhões de metros quadrados

Hoje, a unidade vai além da montagem de veículos. O complexo reúne manufatura, engenharia, desenvolvimento de produtos, segurança veicular, produção de motores e tecnologias de eletrificação. O Tech Center Stellantis conta com mais de 3 mil engenheiros, designers e técnicos, além de 60 laboratórios, Safety Center, Development Center, Virtual Center e TechMobility, área dedicada a tecnologias de eletrificação de baixa, média e alta voltagem.

Em 2024, essa estrutura resultou no lançamento dos primeiros modelos híbridos desenvolvidos no Brasil. Betim também se tornou sede do chamado Hub Global Bio-Hybrid da Stellantis, voltado ao desenvolvimento dessa tecnologia para diferentes mercados.

Motores

O polo mineiro abriga o maior centro de produção de Powertrain da América Latina. Com investimentos recentes, a capacidade foi ampliada para 1,1 milhão de propulsores por ano. A unidade abastece fábricas da Stellantis e também atende à exportação de componentes.

Desde o início das operações, Betim produziu mais de 19 milhões de motores das famílias Fire, Firefly e GSE Turbo, além de mais de 17 milhões de transmissões.

O plano global da Stellantis e o peso do Brasil

A Stellantis apresentou em 2026 um plano estratégico global de 60 bilhões de euros para os próximos cinco anos. A estratégia combina investimentos em marcas, produtos, plataformas, motores e inteligência artificial, ao mesmo tempo em que prevê uma redução anual de custos de 6 bilhões de euros, com captura total esperada a partir de 2028.

Do total anunciado, 36 bilhões de euros serão destinados a marcas e produtos. No desenho geral, 60% dos recursos ficam concentrados em produtos e marcas, enquanto os 40% restantes irão para plataformas globais, motores e inteligência artificial.

A América do Sul aparece como uma das regiões em que a Stellantis espera crescer. A projeção é de alta de 10% no faturamento, com foco em picapes, SUVs e carros de entrada. Esses três segmentos ajudam a explicar por que Betim continua relevante dentro do grupo.

Antonio Filosa, CEO global da Stellantis, esteve nos eventos da comenoração dos 50 anos de Betim e conhece a operação de perto. Antes de assumir o comando mundial da companhia, ele foi CEO para a América do Sul e morou em Belo Horizonte. Ao falar sobre a estratégia da empresa, afirmou que há dois caminhos de atuação: fortalecer as regiões e estreitar parcerias estratégicas.

Segundo Filosa, a Stellantis quer intensificar sua presença em segmentos como entrada e picapes, onde a concorrência é menor. Em SUVs, a ideia é usar os ativos globais da companhia para ganhar velocidade em tecnologia. “Esse plano foi desenhado para nos levar a um lucro de longo prazo”, disse o executivo ao apresentar a estratégia global.

O Argo X

O Novo Argo X será o primeiro produto inédito de Betim dentro do novo plano da Stellantis no Brasil. O modelo vai ocupar espaço na linha de entrada da Fiat e terá papel importante na estratégia comercial da marca. O Argo atual, segundo modelo mais vendido da Fiat no Brasil e quarto do mercado brasileiro em 2026, seguirá à venda.

A chegada do novo produto também está ligada à abertura de mais de 1.200 vagas de emprego na fábrica. Esse movimento reforça o objetivo de utilizar a capacidade instalada do complexo e preparar a unidade para uma nova etapa de produção.

Para Betim, o desafio dos próximos anos não será apenas manter volume. Será combinar escala, novas tecnologias, eletrificação, digitalização e eficiência industrial em um momento de transformação do setor automotivo.

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