Já se passaram quatro anos desde que a Rolls-Royce revelou seu primeiro carro de produção totalmente elétrico, o Spectre. Muita coisa aconteceu no universo dos veículos elétricos nesse período, mas os clientes da Rolls-Royce são diferentes de quaisquer outros – e a empresa os conhece melhor do que ninguém. Por isso, em vez de apostar tudo em um modelo totalmente novo, o Spectre Series II chega com uma atualização tão contida quanto possível.
Na verdade, enquanto outras montadoras correm para adotar arquiteturas de 800 volts, novos motores, computadores atualizados, baterias maiores e carregamento mais rápido, mesmo em simples reestilizações de meio de ciclo, a Rolls-Royce decidiu reforçar ainda mais sua aposta na personalização.
O departamento Bespoke da empresa, apropriadamente batizado, tem trabalhado intensamente desde a chegada do Spectre original. A Rolls-Royce afirma que seu elétrico é o carro mais personalizado que vende, com exceção do Phantom, uma limusine extremamente cara que opera em outro universo. Em outras palavras, os clientes gastam mais – tanto em tempo quanto em dinheiro – criando seus próprios Spectre exclusivos do que fazem com o Ghost e o Cullinan.
Ele também é o segundo modelo mais popular da marca, superado apenas pelo SUV Cullinan – e, mais importante, a Rolls-Royce afirma que os proprietários do Spectre dirigem eles próprios o elétrico. Diferentemente do Phantom e, muitas vezes, também do Cullinan, este não é um carro para o motorista particular aproveitar.
Antes de chegarmos exatamente ao que o Bespoke pode fazer no seu Spectre Series II, o carro em si traz algumas melhorias selecionadas em relação ao antecessor. A autonomia aumentou de 529 para 627 quilômetros, e a Rolls-Royce afirma que o tempo de recarga foi reduzido em 14%. E, embora seja improvável que você veja um motorista de Spectre esperando na fila de um carregador público – a maioria dos Spectre é carregada quase exclusivamente em casa -, mais autonomia e menos tempo de recarga são sempre bem-vindos.
Também há mais potência. O modelo convencional agora produz 592 cavalos e 1.015 Nm de torque, acima dos 577 cavalos e 900 Nm do Series I. O mais esportivo Black Badge ficou ainda mais potente, com 670 cavalos no Infinity Mode e enormes 1.100 Nm quando o Spirited Mode é utilizado. Ele continua sendo o Rolls-Royce de produção mais potente já fabricado e, no Series II, passa a contar com acabamento externo Iced Black, no qual todos os detalhes que normalmente seriam cromados ou em preto brilhante passam a ter aparência acetinada.
Mudanças mais evidentes aparecem em um novo conjunto de rodas forjadas de 23 polegadas, altamente polidas e projetadas para dispersar a luz do sol enquanto giram. E, ao contrário de tantos veículos elétricos atuais, elas foram realmente desenhadas para ter boa aparência e deixar mais visíveis os potentes freios atrás delas, em vez de serem otimizadas exclusivamente para cortar o ar de forma mais eficiente e ajudar na autonomia.
Chris Brownridge, CEO da Rolls-Royce Motor Cars, descreveu o Spectre como “uma das telas mais atraentes para o Bespoke em nosso portfólio contemporâneo de produtos, inspirando clientes a buscar encomendas cada vez mais individuais e ambiciosas. Com o Spectre Series II, ampliamos ainda mais essas possibilidades.”
Depois vem a personalização. É aqui que a Rolls-Royce realmente elevou o nível com o Spectre Series II – e, para saber mais, recentemente dirigi até a fábrica de Goodwood, perto da costa sul da Inglaterra, para uma visita.
Visitar uma fábrica de automóveis é sempre fascinante, independentemente da fabricante. Mas conhecer a casa da Rolls-Royce é um verdadeiro privilégio. É ali que todos os Rolls-Royce vendidos desde 2003 são montados e onde funcionários dos departamentos de pintura, carroceria e acabamento interno trabalham constantemente em veículos exclusivos encomendados por meio da divisão Bespoke.
Em breve, mais Spectre passarão por lá, já que o Series II agora permite aos compradores especificar um novo tecido interno derivado do bambu chamado Duality Twill, composto por 2,2 milhões de pontos e que exige 12 horas de trabalho por carro. Há também um novo padrão de couro chamado Placed Perforation, um novo revestimento para o painel chamado Brindled Walnut e novas opções de pintura externa. Entre elas estão o novo Ethereal Blue e a marcante opção de acabamento em degradê, que passa do preto na traseira para uma de três cores – azul, violeta e gunmetal — na dianteira, como mostrado acima.
Esse processo específico é resultado de seis meses de trabalho dos engenheiros programando robôs para acertar o degradê, ajustando distância e velocidade até encontrar o método correto.
A pintura externa é uma parte extremamente importante da produção na Rolls-Royce. Fui informado de que algumas pinturas mais complexas exigem 14 camadas e que determinados trabalhos únicos levam tanto tempo que o carro precisa ser trabalhado durante os fins de semana para evitar interferir no cronograma normal da linha de produção. Durante minha visita à fábrica, também me disseram que, às vezes, uma cor candy particularmente complexa pode chegar à 13ª camada antes que um defeito seja identificado, o que significa que todo o processo precisa começar novamente. Em um caso, um problema desse tipo foi causado por uma única fibra de 3 mm que caiu sobre a pintura.
Para atender ao aumento das opções Bespoke do Spectre Series II – e ajudar os clientes a acessar as 44 mil cores de pintura oferecidas pela Rolls-Royce -, uma nova oficina de pintura está atualmente em construção na unidade de Goodwood. Ela faz parte de um investimento de £ 300 milhões (US$ 405 milhões), o maior aporte financeiro individual feito no local desde sua inauguração, em 2003, que ampliará as divisões Bespoke e Coachwork e ajudará a preparar a empresa para seu futuro elétrico.
Uma estrela do departamento Bespoke é Bailey, um cruzamento de Labrador com Golden Retriever pertencente a um cliente de longa data que, em 2025, ganhou um Spectre construído como homenagem a ele. Um retrato de Bailey aparece em marchetaria na seção traseira “Waterfall” do carro, um painel de madeira entre os dois bancos traseiros. Feito com 180 peças e surpreendentemente realista, o retrato utilizou nove lâminas de madeira – quatro das quais nunca haviam sido usadas anteriormente pela Rolls-Royce – representando 22 tonalidades naturais.
A isso se soma uma marca de pata, também em marchetaria, no painel do passageiro, repetida em ouro-rosa pintado à mão na linha lateral externa do carro. A pata aparece novamente gravada ao redor das soleiras das portas em ouro-rosa, ficando visível sempre que as portas são abertas.
Phil Fabre de la Grange, chefe do Bespoke da Rolls-Royce, afirmou quando o Spectre Bailey foi revelado: “Uma das grandes alegrias de uma encomenda Bespoke é mergulhar no mundo do cliente e na história única por trás de sua visão. Isso é perfeitamente capturado pelo Spectre Bailey, uma encomenda encantadora que reafirma que a inspiração pode vir de qualquer lugar. Nossa equipe ficou absolutamente encantada em colaborar com nossos clientes de longa data para dar vida a esse conceito de maneira divertida, porém atemporal, refletindo o lugar especial que Bailey ocupa em seus corações.”
Os interiores da Rolls-Royce já não são mais exclusivamente exercícios em madeira, couro e metal. Uma nova opção Bespoke para o Spectre Series II é um revestimento sustentável produzido artificialmente a partir de nogueira proveniente da indústria de frutas. Outro revestimento é feito de eucalipto oriundo da indústria de papel, que é transformado em um bloco e depois cortado em lâminas durante um processo de dez semanas. O resultado é uma tonalidade acinzentada com pigmentação roxa e um fino pigmento prateado que, segundo garante a Rolls-Royce, não ficará verde com a exposição aos raios UV. Por fim, fomos informados de que tramas de fibra de carbono tingidas também chegarão ao Spectre Series II, inicialmente nas opções verde e azul, com mais cores previstas.
Portanto, embora o novo Spectre ainda compartilhe muito com seu antecessor – algo que provavelmente agradará aos proprietários do modelo original -, ele demonstra a direção que a Rolls-Royce vem seguindo cada vez mais. Assim como suas rivais no segmento automotivo de ultraluxo, a empresa sabe que há dinheiro a ser ganho com personalização e com a oportunidade oferecida aos clientes de possuir algo único.
Para a Rolls-Royce, ao que parece, o futuro do carro elétrico tem tanto a ver com individualidade quanto com tecnologia de baterias.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com