O primeiro carro 100% elétrico vendido pela Volkswagen no Brasil não chegou exatamente como novidade. O ID.4 já estava no país desde 2023, mas em outro formato: era oferecido pelo programa de assinatura, em um plano que começou em R$ 9.990 mensais por 24 meses e teve o valor reduzido ao longo dos anos. Agora, a estratégia muda. O SUV elétrico passa a ser vendido oficialmente no mercado brasileiro por R$ 299.990, com chegada às lojas em outubro.
A mudança mostra uma nova fase da eletrificação da Volkswagen no país. A primeira passagem do ID.4 serviu como uma espécie de laboratório para a marca entender o comportamento dos clientes, a rotina de recarga, o uso diário e a adaptação de um elétrico às condições brasileiras.
A apresentação oficial aconteceu durante o Rock in Rio, no Rio de Janeiro, em 5 de setembro. Para a Volkswagen, o lançamento abre a estratégia de eletrificação da marca no Brasil com um SUV global, construído sobre a plataforma MEB, desenvolvida pelo Grupo Volkswagen exclusivamente para veículos elétricos.
Ciro Possobom, presidente e CEO da Volkswagen do Brasil, afirma que a chegada do ID.4 representa uma nova etapa para a marca no país ao unir engenharia alemã e mobilidade elétrica em um produto vendido diretamente ao consumidor brasileiro.
Por que a Volkswagen mudou a estratégia?
A decisão de vender o ID.4 acontece em um mercado eletrificado que ganhou escala no Brasil, mas que passou a ser dominado por marcas chinesas. Em agosto, os eletrificados somaram 63.709 emplacamentos, o equivalente a 24,3% do mercado total, segundo a Bright Consulting. No acumulado do ano, foram cerca de 367,5 mil unidades, alta próxima de 134% sobre 2025.
A liderança nesse universo está concentrada principalmente na BYD. Entre os veículos 100% elétricos, a marca chinesa respondeu por 59,2% das vendas em agosto, com o Dolphin Mini como líder da tecnologia, somando 8.299 unidades. Nos híbridos plug-in, a BYD também aparece na frente, com 42,2% de participação e o Song Pro como principal modelo, com 4.269 unidades.
É nessa disputa que a Volkswagen quer entrar de forma mais direta. O ID.4 chega para enfrentar um ambiente já ocupado por BYD, GWM, Geely, Volvo e outras marcas que aceleraram a oferta de elétricos e híbridos no Brasil. A diferença é que a Volkswagen tenta usar um produto global, de plataforma dedicada e com DNA de SUV médio, para participar de uma briga que já deixou de ser nicho. Além, é claro, da grande reputação da marca.
Aspectos técnicos do Volkswagen ID.4
O ID.4 Pro 2027 chega ao Brasil com motor elétrico de 286 cv e 55,6 kgfm de torque. A bateria tem 84 kWh e garante autonomia de 389 km pelo ciclo do Inmetro. O carregamento rápido em corrente contínua aceita até 185 kW. Em um carregador de 180 kW, a carga vai de 10% a 80% em 25 minutos.
O SUV mede 4,58 metros de comprimento, com 2,77 metros de entre-eixos. O porta-malas tem 533 litros, e a cabine foi pensada para cinco ocupantes. O teto solar panorâmico de vidro ocupa quase toda a parte superior e reforça a sensação de espaço interno.
No desenho, o ID.4 segue a lógica de um elétrico dedicado. O coeficiente de arrasto é de 0,28, resultado de linhas mais limpas e aerodinâmicas. A assinatura visual inclui faróis IQ.Light Matrix em LED, lanternas traseiras com efeito 3D, maçanetas embutidas iluminadas e projeção do logotipo da Volkswagen no piso.
A gama terá duas opções de cor: Costa Azul, sempre com teto Preto Piano, e Preto Granadilho. As rodas são de 19 polegadas, com pneus 235/55 R19 na dianteira e 255/50 R19 na traseira.
Por dentro, o ID.4 aposta em uma cabine minimalista e tecnológica. O painel de instrumentos fica preso à coluna de direção, enquanto a central multimídia tem 12,9 polegadas, comando de voz nativo, GPS integrado, Apple CarPlay e Android Auto sem fio. O carro também traz carregador por indução e quatro entradas USB-C.
O pacote de assistência inclui Travel Assist, Lane Assist, controle de cruzeiro adaptativo com Stop&Go, frenagem autônoma de emergência com detecção de pedestres e ciclistas, detector de ponto cego e alerta de tráfego traseiro cruzado. Entre os recursos mais específicos estão o Emergency Assist, que pode assumir o controle do veículo em caso de perda de consciência do motorista, e o Memory Park Assist, que memoriza manobras frequentes de estacionamento.
No conforto, os bancos dianteiros ergoActive têm ajustes elétricos, memória, aquecimento e massagem. O ar-condicionado é de três zonas, com regulagens independentes para motorista, passageiro e banco traseiro. O acabamento usa materiais sintéticos premium livres de couro animal e microfibra sustentável com 71% de materiais reciclados.
Um elétrico alemão contra a onda chinesa
O desafio da Volkswagen não é apenas vender um elétrico. É disputar espaço em um mercado que mudou rapidamente. O avanço dos chineses criou uma nova régua de preço, tecnologia e volume. Ao colocar o ID.4 à venda, a marca alemã transforma uma operação antes restrita à assinatura em uma aposta comercial aberta.
O preço de R$ 299.990 posiciona o SUV em uma faixa em que tecnologia, autonomia, espaço e reputação de marca pesam na decisão de compra. A Volkswagen chega mais tarde do que as chinesas na venda direta de elétricos no Brasil, mas agora entra com um produto global, mais potente que a versão antes oferecida localmente e adaptado para ampliar a presença da marca em um segmento que já deixou de ser experimental.