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O Brasileiro Quer Barcos Cada Vez Maiores — e os Estaleiros Já Mudaram os Projetos

São Paulo Boat Show reforça uma mudança no mercado náutico brasileiro: consumidores migram para embarcações maiores e mais equipadas

7 min

O São Paulo Boat Show terminou na última terça-feira (29) deixando uma pista clara sobre a transformação do mercado náutico brasileiro: o barco que atrai o consumidor hoje está ficando maior, mais equipado e, principalmente, mais adaptado ao modo como ele pretende passar o dia a bordo.

Os números ajudam a mostrar que não se trata apenas de percepção dos estaleiros. Dados da Marinha apontam que o Brasil passou de aproximadamente 560 mil embarcações de esporte e recreio com registros válidos em 2020 para mais de 641 mil em 2023. É uma expansão de 14,4% em apenas três anos.

Ao mesmo tempo, os fabricantes enxergam uma mudança dentro desse mercado. As embarcações menores perderam algum ritmo, enquanto modelos maiores continuam encontrando compradores, segundo Márcio Schaefer, CEO da Schaefer Yachts.

“Os barcos grandes estão fortes”, resume o empresário, que acompanha o setor há décadas. Na operação da própria companhia, isso aparece de maneira objetiva: foram 86 embarcações entregues no ano passado. Em 2026, o total deve ficar pouco acima de 70 unidades. O volume diminui, mas, segundo Schaefer, os barcos produzidos são maiores, e mais caros.

O Boat Show ficou maior junto com os barcos

A edição de 2026 do São Paulo Boat Show reuniu mais de 160 embarcações e acima de 30 lançamentos no São Paulo Expo. Entre os modelos, mais de 40 estavam na faixa entre 30 e 40 pés — aproximadamente 30% do total contabilizado antes da abertura. É uma mudança que também pode ser observada pelos produtos levados ao pavilhão.

Um dos maiores era a Intermarine 25M, de 25,15 metros. O iate tem flybridge de 50 m², jacuzzi, bar panorâmico, uma varanda lateral de oito metros e capacidade para receber até 26 pessoas.

A Schaefer levou a 660, de 20,08 metros, com quatro camarotes, varandas retráteis e plataforma submergível. A NX62 by Pininfarina apareceu em sua configuração definitiva, com quatro camarotes e espaço para até 12 pessoas sentadas apenas na praça de popa.

A lista continuava com a Ventura V550 Crossover, de 16,50 metros e capacidade para 16 passageiros durante o dia, e a Solara 500 Fly, de 15,10 metros, cujo flybridge de 20 m² comporta até dez pessoas.

Mais do que uma disputa por comprimento, há uma mudança de projeto. Áreas antes destinadas principalmente à circulação passaram a ser transformadas em espaços de permanência, refeições e convivência.

O jeito brasileiro de usar um barco

É justamente aí que os projetos começam a ganhar características próprias para o mercado nacional. A Azimut Fly 58, produzida em Itajaí (SC), tem 17,8 metros e três cabines. Uma das soluções foi desenvolvida especificamente para o público brasileiro: a cozinha foi integrada à praça de popa, criando um ambiente único entre preparação de alimentos, estar e lazer.

Márcio Schaefer identifica comportamento semelhante entre seus clientes. Segundo ele, o brasileiro tende a usar a embarcação de maneira social, reunindo família e amigos e alternando constantemente entre áreas internas, convés e água. Isso muda desde a distribuição dos ambientes até os materiais empregados.

Para o CEO da Schaefer Yachts, não basta importar uma receita europeia e aplicá-la sem adaptações. Luminosidade, resistência dos revestimentos, áreas sociais e circulação precisam considerar onde e como aquele barco será efetivamente utilizado.

A fabricante levou essa leitura também para barcos maiores. Um de seus projetos de 26 metros já tem três unidades comercializadas — duas destinadas ao Brasil e uma aos Estados Unidos. Os primeiros testes estão previstos para janeiro, e a expectativa é colocar a embarcação na água em abril de 2027.

Mais espaço mesmo nos barcos menores

A preferência por áreas sociais maiores não aparece apenas nos iates de 15, 20 ou 25 metros.
A Fibrafort apresentou no salão a Focker 288 GTS Explorer, de 8,62 metros e capacidade para 13 passageiros. A lancha adota uma proa com sofá em formato de C e amplia também a área traseira, com uma plataforma de 1,50 metro.

O desenho segue uma referência já difundida no mercado norte-americano: aproveitar mais o barco durante o dia e destinar uma parcela maior da área disponível à convivência.

No cockpit, há sofá em L e bancos rebatíveis para piloto e copiloto. O projeto também inclui camarim com banheiro, chaise, compartimentos para armazenamento e geleira de 100 litros.

A resposta comercial veio ainda durante o evento. Com preço inicial de R$ 810 mil, cinco unidades foram vendidas no Boat Show, o equivalente a mais de R$ 4 milhões em negócios apenas com esse lançamento.

Um iate de 30 metros que nem precisou ir a São Paulo

Em alguns casos, o crescimento das embarcações já cria um problema físico: como colocá-las dentro de um salão fechado. A solução encontrada pela Azimut foi deixar em Santa Catarina o Grande 30 Metri, que ainda está sendo construído, e transportar para São Paulo uma reprodução em tamanho real de seu flybridge.

O mockup mede seis metros de altura, pesa 7,5 toneladas e reproduz os 105 m² do convés superior. Ou seja, o visitante conseguiu caminhar sobre uma das principais áreas de um megaiate de quase 30 metros antes de a primeira unidade ficar pronta.

A embarcação também muda a escala industrial da companhia no país. Ela será feita na fábrica de Itajaí, única unidade própria da Azimut fora da Itália, dentro de um ciclo de R$ 120 milhões em investimentos até 2028.

Uma indústria de 5 mil barcos por ano

O crescimento do tamanho das embarcações também amplia o efeito sobre a cadeia produtiva.
O Brasil fabrica aproximadamente 5 mil barcos de lazer por ano e o setor reúne cerca de 150 mil empregos diretos e indiretos. No primeiro semestre de 2026, as importações ligadas à construção de embarcações de esporte e recreio atingiram US$ 75,6 milhões, contra US$ 61,5 milhões no mesmo intervalo anterior — avanço de 23%.

Motores, sistemas elétricos, radares, estabilizadores, resinas, móveis e outros componentes fazem parte desse fluxo. Embora os barcos maiores tenham sido protagonistas, o Boat Show também serviu de vitrine para outras frentes da indústria.

A Sea-Doo apresentou a RXP-X Senna 350, edição limitada criada com a Senna Brand. Serão 1.991 unidades no mundo, número que remete ao terceiro título mundial de Ayrton Senna, conquistado em 1991. O Brasil ficará com metade da produção e o preço será de R$ 230 mil.

A dimensão dessa participação acompanha o peso do mercado nacional: o país é o segundo maior da Sea-Doo no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A marca concentra mais de 90% das vendas brasileiras de motos aquáticas, segmento estimado em cerca de R$ 2 bilhões anuais.

Já a Yamaha levou quatro novos motores de popa, a linha WaveRunner 2027 e um protótipo de propulsor movido a hidrogênio. O projeto faz parte dos estudos da fabricante para novas alternativas de motorização na náutica.

O barco virou mais do que um meio de navegar

A mudança talvez fique mais evidente quando se compara o que hoje define um lançamento. Comprimento e potência continuam importantes, mas dividiram espaço com tamanho do flybridge, possibilidade de abrir laterais, número de pessoas reunidas na popa, integração da cozinha e até a quantidade de ambientes disponíveis para passar o dia.

O próprio Boat Show reflete essa evolução. Em 2025, foram 120 marcas, 170 embarcações, 40 mil visitantes e 750 barcos negociados, número 7,14% superior ao da edição anterior. Para Ernani Paciornik, fundador do Grupo Náutica e do evento, o salão paulistano concentra aproximadamente 80% do movimento desse mercado no país.

Para os estaleiros, porém, a mensagem deixada pela edição encerrada nesta semana vai além do crescimento do setor. O consumidor que começou em uma embarcação menor está subindo de categoria — e, quando sobe, não procura apenas mais metros de casco. Quer mais área para receber pessoas, equipamentos melhores e um projeto que reproduza na água a forma como já vive em terra.

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