Foram oito segundos entre o início da descida e o fim de um projeto que levou mais de uma década para sair do campo das ideias. Em 2025, Sandro Dias, com então 50 anos, colocou o skate na borda de uma estrutura instalada a 70 metros do chão, na fachada do Centro Administrativo Fernando Ferrari, em Porto Alegre, e se lançou.
Chegou a 103,8 km/h. Durante o percurso, seu corpo enfrentou um pico de 3,9 g, quase quatro vezes o próprio peso. Quando terminou, havia estabelecido dois recordes mundiais reconhecidos pelo Guinness: a maior queda em um quarter pipe temporário e a maior velocidade alcançada nesse tipo de estrutura.
O feito é extraordinário pelos números. Mas talvez diga ainda mais sobre Sandro por ter acontecido quase quatro décadas depois de seu primeiro contato com um skate.
Nascido em Santo André, no ABC Paulista, ele ganhou o primeiro carrinho no Natal de 1986. Começou descendo a ladeira da garagem sem imaginar que aquele brinquedo se tornaria profissão. O apelido de infância, Mineirinho, acabou acompanhando-o para pistas ao redor do mundo.
A carreira ajudou a colocá-lo entre os nomes mais importantes do skate vertical brasileiro. Sandro foi seis vezes campeão mundial, conquistou mais de dez medalhas nos X Games e ganhou ouro na competição em 2004, 2006 e 2007. Entre 2001 e 2003, também foi tricampeão do Circuito Europeu.
No caminho, construiu uma carreira marcada por tentativas de ultrapassar limites. Foi o terceiro skatista do mundo a completar o 900°, manobra com dois giros e meio no ar, e o primeiro a encaixá-la dentro de uma linha de competição. Também estabeleceu um recorde de aéreo em halfpipe ao atingir 4,20 metros acima da borda da rampa.

Preparação para oito segundos
A descida em Porto Alegre condensou essa experiência, mas exigiu um tipo diferente de preparação. A fachada curva do prédio já fazia parte do imaginário de skatistas da cidade antes que a ideia pudesse ser transformada em projeto. Para Sandro, colocar o skate naquele paredão significou combinar treinamento físico, engenharia e uma sucessão de testes para situações que ele ainda não havia vivido.
Na mega rampa do skatista Gui Khury, em Curitiba, foram feitas adaptações e uma extensão de dois metros. Sandro realizou mais de 150 drops para acostumar o corpo às condições que enfrentaria.
Também treinou velocidade fora da rampa. Em uma das etapas de preparação, chegou a andar a 136 km/h atrás de um carro.
“O mais difícil foi encarar cada teste pela primeira vez. Eu tinha os números do estudo na mão, de velocidade, de força G, de impacto, e desde o início quis me preparar para o dobro do que o estudo dizia”, lembra.
Até o equipamento precisou mudar. O skate usado na descida não era o habitual: recebeu rodas empregadas no downhill e amortecedores de nylon desenvolvidos para limitar o movimento dos eixos e aumentar a estabilidade.
Antes da tentativa principal, Sandro fez quatro descidas partindo de alturas menores. Os 70 metros, porém, só foram enfrentados no momento definitivo.
Uma carreira que ainda não virou retrospectiva
A preparação e os bastidores daquela descida agora aparecem em “Sandro Dias e a Maior Rampa de Skate do Mundo”, documentário disponível no Globoplay e na Red Bull TV. O filme funciona também como uma retrospectiva parcial de uma carreira que o próprio skatista ainda não considera pronta para ser contada no passado.
“Já tive outras oportunidades de fazer um documentário, um livro, um filme sobre a minha vida, mas nunca achei que estivesse preparado. Dessa vez eu estava”, afirma. Essa disposição não significa despedida.
“Ando de skate há 41 anos e isso não é aposentadoria, não é hora de parar, ainda quero fazer muita coisa.”
Há precedentes para acreditar nele. Em 2019, Sandro já havia descido de uma estrutura montada a 30 metros de altura na Ponte Estaiadinha, na Marginal Tietê, em São Paulo. Anos depois, trocou a ponte pela fachada de um prédio de quase 89 metros e voltou a elevar o limite.
Aos recordes e títulos, ele acrescentou também iniciativas voltadas às novas gerações, incluindo um acampamento para crianças e jovens no interior de São Paulo.
O documentário registra um capítulo específico. A história de Sandro Dias, porém, continua menos interessada em olhar para trás do que em descobrir qual será a próxima borda.