A Selic subiu, mas isso não é importante

Aumento na taxa básica de juros e tendência de alta até o fim do ano impacta economia e investimentos; entenda .

Eduardo Mira
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Tom Werner/Getty Images
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É importante ficarmos atentos a esses movimentos para poder surfar com o que vai se sair melhor nesse momento e poder alavancar os resultados da sua carteira

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Depois de quase seis anos, a Selic volta a subir. Passamos por um longo período de queda na Selic, mas agora a economia brasileira inverte a tendência de baixa e entramos num ciclo de altas da taxa, porém – diferente do que todo o mercado acreditava – a Selic subiu 0,75 p.p., onde o consenso era 0,5 p.p. O mercado não apostava em uma alta tão grande devido ao comportamento do Copom, que demonstrava menores preocupações com a inflação, mas de forma unânime e surpreendente, fez um aumento de 0,75 p.p. de uma só vez.

Mas você pode estar se perguntando o que é essa tal de taxa Selic. A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira, ela é o parâmetro, é a referência dos juros que o governo paga na sua principal dívida e os juros que os investidores aceitam receber em parte dos investimentos de renda fixa. Todo tipo de investimento tem uma parcela de risco, por isso vamos sempre ponderar o risco, ou seja, se o risco do Brasil é maior, só aceitamos emprestar dinheiro para o governo brasileiro se for para receber uma taxa maior e é normal que se receba uma taxa menor quando o risco é menor. Logo, se a taxa Selic está aumentando é porque o risco do Brasil aumentou e o Brasil não é um país de baixo risco para ter uma taxa de 2% ao ano. Na verdade, a taxa só estava tão baixa porque era uma estratégia para pagar menos juros na dívida.

Já sei que você está pensando que até agora falei de investimento, mas o que isso tem a ver com a economia em si? Bem, a Selic é um instrumento de política monetária, ou seja, a taxa Selic aumenta e reduz com o objetivo de aumentar e reduzir a inflação, porque quando a taxa Selic sobe, nós temos uma redução da inflação, já que a Selic vai desestimular o consumo através do encarecimento dos empréstimos. Mas quando a taxa Selic cai, temos um estímulo ao consumo, com a redução das taxas dos empréstimos, porém esse consumo pode gerar inflação, então é reduzir a Selic e depois subir para conter a inflação.

Além do consumo, temos um efeito colateral ao aumento da Selic que é o interesse do investidor estrangeiro. Quando a taxa Selic cai os investidores estrangeiros também não têm tanto interesse em investir aqui em renda fixa e levam o seu dinheiro embora. Isso tem reflexo direto no dólar e indiretamente na inflação, mas quando a taxa Selic sobe é normal que eles tenham mais interesse em investir em renda fixa aqui e tragam seu dinheiro para cá, fazendo o dólar cair. Esse é um benefício colateral e ajuda na redução da inflação.

Mas essa alta da Selic não foi a parte mais importante, o mais importante é o que está por vir.

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Ontem (22) o Boletim Focus, do Banco Central, trouxe uma expectativa de Selic para o final do ano de 2021 bem mais alta, em exatos 5%.

E por que temos essa expectativa? O primeiro motivo foi a fala do Copom na divulgação da taxa na semana passada, dizendo que, se nada mudar drasticamente na condução da economia e da política no Brasil, na reunião de maio a taxa Selic vai subir, pelo menos, outros 0,75 p.p., mas o mercado não se animou, pois essa melhora no cenário econômico passa por uma melhor condução do combate à pandemia do coronavírus e então temos o segundo motivo.

O combate à pandemia é o grande drive para fazer a economia se recuperar. Logo, mais importante do que subir a taxa Selic, é toda a sinalização que o mercado, e até o próprio Copom, dá de que precisamos de movimentos mais duros e o mercado enxerga a necessidade desses movimentos não só nas taxas, mas também no combate à pandemia. Essa visão foi ratificada pela carta aberta que 500 membros do mercado financeiro fizeram no fim de semana.

Mas nesse ciclo de alta da Selic quem deve se sair bem?

Várias empresas podem se sair bem, mas destaco os bancos e seguradoras, porque os bancos melhoram o spread, entre o dinheiro que é emprestado aos tomadores e o dinheiro que é captado dos investidores. As seguradoras, por outro lado, vão melhorar seu resultado financeiro, porque o dinheiro do prêmio do seguro é investido em renda fixa de alta liquidez e com a melhora das taxas da renda fixa, os resultados financeiros das empresas vão melhorar também.

Além de empresas, os fundos imobiliários de recebíveis, que chamamos no mercado de fundos de papel, que tenham carteiras atreladas ao CDI tendem a se valorizar.

Por outro lado, as empresas de consumo de varejo, como lojas de roupas e utilidades domésticas em geral, sofrem com a redução do estímulo ao consumo e devem perceber uma redução em suas receitas.

Além delas, as empresas muito endividadas também sofrem com o aumento do custo da sua dívida.

Os fundos imobiliários de imóveis, aqueles que chamamos de fundo de tijolos, devem sentir o efeito da elevação dos juros, pois o investidor vai exigir mais retorno desses investimentos, uma vez que a renda fixa está pagando mais. Esse aumento se traduz na queda do preço das cotas, pois o mercado só vai aceitar pagar um valor mais barato nessas cotas.

Diante dessas possibilidades, fica claro que sempre teremos cenários onde empresas se saem bem e outras saem mal independente se o mercado ou as taxas de juros vão para cima ou para baixo. O importante é ficarmos atentos a esses movimentos para poder surfar com o que vai se sair melhor nesse momento e poder alavancar os resultados da sua carteira.

Eduardo Mira é formado em telecomunicações, com pós-graduação em pedagogia empresarial e MBA em gestão de investimento. É analista CNPI, certificado CPA10 e CPA20, ex-gerente do Banco do Brasil e da corretora Modal.

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