Cenário global e fiscal são mais relevantes para câmbio do que altas da Selic, afirma Santander Asset

A Santander Asset espera que o dólar feche 2022 em R$ 5,60.

Reuters
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Ricardo Moraes/Reuters
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Com o diferencial de juros entre Brasil e exterior já alcançado com o aperto monetário agressivo promovido pelo Banco Central, o cenário global e o debate fiscal interno são agora mais relevantes para os rumos da taxa de câmbio no curto prazo do que o patamar final da Selic, avaliou o economista-chefe da Santander Asset, Eduardo Jarra, que considera baixa a possibilidade de o BC entregar a inflação na meta neste ano.

A Santander Asset espera que o dólar feche 2022 em R$ 5,60. Como destacou Jarra, é basicamente o patamar de encerramento de 2021, com o real terminando o ano com variação pequena, mas vulnerável nesse ínterim a um vaivém orientado pelas incertezas globais – com destaque para a política monetária norte-americana – e pela baixa visibilidade num âmbito interno marcado pelas eleições e seus potenciais desdobramentos para o campo fiscal.

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“Diferentemente de 2021, em 2022 podemos andar com condições financeiras ainda apertadas, níveis de incerteza econômica acima do usual. Difícil falar em grande apreciação ou depreciação da taxa de câmbio”, afirmou Jarra.

“O movimento (do câmbio) depende da questão local, é um fator que abre um pouco a represa. Mais à frente, com base na modelagem, 2023 seria de um real convergindo para mais perto de seu valor justo, hoje em média de 5 reais (por dólar) para baixo. O câmbio hoje está mais depreciado do que os fundamentos sugerem”, completou.

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A valorização cambial vista neste ano – o real sobe 5,1% ante o dólar, um dos melhores desempenhos globais – ocorreu em meio ao retorno do fluxo estrangeiro para o Brasil num contexto amplo de demanda por ativos de mercados emergentes. Até agora cerca de 4 bilhões de dólares foram vendidos por investidores internacionais por meio de contratos de dólar futuro, cupom cambial e swap cambial da B3.

O campo de visão sobre a continuidade desse movimento, porém, é curto, disse o economista.

“Fomos surpreendidos pela intensidade do movimento (do fluxo). Acho que poderia ter pistas dele, mas não nessa intensidade. Os próximos passos são ainda mais difíceis de traçar. Temos de ficar monitorando, e continuará sendo um fator relevante curto prazo.”

O fluxo estrangeiro é atraído em parte pelo aumento dos retornos embutidos em contratos de renda fixa lastreados em real – que para um ano estão em mais de 11,5%. Mas segundo o economista-chefe da Santander Asset, o diferencial de taxas já está em patamar razoável e discutir se a Selic parará de subir em 11,75% ao ano ou 12,25%, por exemplo, é mais acessório em termos de cenários para o câmbio.

“E essa leitura se aplica também para os demais ativos (ações, renda fixa)”, disse. “Num espaço de três a seis meses à frente e dentro do que movimentaria de forma mais relevante os preços dos ativos eu colocaria o que o BC fez e o que pode fazer nas próximas reuniões em terceiro lugar. Colocaria o global na frente e em segundo o arcabouço de política fiscal no contexto da eleição.”

O efeito de atração de capital exercido pelo juro mais alto poderia se mostrar mais claramente em caso de uma redução de volatilidade cambial, fruto de desenvolvimentos a contento das variáveis global e interna, disse Jarra.

Meta de inflação

A Santander Asset estima que o Banco Central vai parar de subir os juros depois de promover elevação de 100 pontos-base da taxa Selic na reunião do Copom de março – cenário, segundo Jarra, já previsto pelo banco privado. A inflação deste ano ficará em 5,7% nas contas do economista, bem acima dos 5,00% definidos pelo CMN como limite superior da banda de tolerância, dentro da qual se encontra a meta de 3,50%.

O Banco Central elevou na quarta-feira a taxa básica de juros em 1,50 ponto percentual pela terceira vez consecutiva, a 10,75% ao ano, em continuidade ao agressivo ciclo de aperto monetário implementado para conter a inflação, e surpreendeu parte do mercado ao indicar uma redução no ritmo de ajuste na próxima reunião do Copom, em março.

“Essa sinalização reflete o estágio do ciclo de aperto, cujos efeitos cumulativos se manifestarão ao longo do horizonte relevante. O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar a convergência da inflação para suas metas, e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária”, disse o colegiado do BC em comunicado.

“O BC está dizendo com essa frase que está olhando, buscando (as metas dos) anos de 2022 e 2023, mas dentro dessa ponderação para ele 2023 é mais relevante que 2022”, disse o economista da Santander Asset.

“O BC está ainda de olho em 2022, agora a possibilidade de ele entregar a meta considerando os ‘lags’ (efeitos defasados) de política monetária e tudo mais é baixa”, finalizou.

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