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Dólar Poderia Estar Acima dos R$ 6 sem a Ajuda do Cenário Internacional, Aponta Solange Srour, do UBS

Para a diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, a articulação política para resolver a questão fiscal é mais importante que o detalhamento da 'MP do IOF'

8 min

Muita coisa mudou desde dezembro de 2024. Ao contrário da apreensão generalizada do fim do ano, a bolsa brasileira renova recordes, e o dólar saiu da casa dos R$ 6,30 e tenta se estabilizar próximo da faixa dos R$ 5,60. 

Em vez da crise fiscal que dominou a cautela de fim de ano, as manchetes dos últimos meses foram geradas pela caótica política econômica e tarifária de Donald Trump e pelo temor de uma recessão global. Nas últimas semanas, no entanto, a crise fiscal brasileira voltou aos holofotes.

Buscando elevar a arrecadação, o governo brasileiro anunciou um aumento do IOF — medida que se mostrou impopular e levou a diversos recuos e remediações. A última delas veio no domingo (08), com um plano de compensação da receita do IOF com o fim da isenção em instrumentos como LCI e LCAs, maior taxação de bets e aumento da CSLL de fintechs.

A medida provisória completa ainda não foi apresentada, mas relembrou ao mercado que o problema fiscal sempre esteve presente nos últimos meses.

Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, esse não é um problema que surgiu da noite para o dia, e sim um problema que vem sendo carregado há muito tempo de forma insustentável. “Estávamos trabalhando com metas irrealistas, um arcabouço que não é sustentável. O cenário internacional continua favorável para nós, mas a realidade se impôs, e veio a reação forte da sociedade, empresas e setor financeiro.”

Segundo Srour, a “crise do IOF” não se trata de um problema de comunicação do governo, e sim de raiz política, já que hoje não há uma base no governo capaz de apoiar reformas estruturantes, e o Congresso é avesso ao aumento de impostos — dificultando que as contas fechem e gerando uma inconsistência.

“Não é só uma questão de não ter base. Estamos na segunda metade de um mandato, e é muito difícil passar qualquer tipo de reforma que não seja popular. É uma impossibilidade política resolver o problema fiscal”, aponta a economista.

Srour acredita que, se não fosse o cenário internacional favorecendo os ativos brasileiros, o câmbio poderia nunca ter deixado a casa dos R$ 6, já que o fluxo de investimentos estrangeiros entrou no país em busca de diversificação e saída dos Estados Unidos.

“Não foi mérito nenhum nosso, muito pelo contrário. Se olharmos de novembro para cá, a situação do debate fiscal piorou. Tivemos mais anúncios de medidas fora do orçamento, promessas de expansão fiscal, continuidade do crescimento das despesas obrigatórias… Nada mudou”, completa. No momento, uma articulação bem feita entre Executivo e Congresso é vista como mais importante do que o próprio detalhamento da MP. 

Confira os melhores momentos da conversa entre Solange Srour e a Forbes Brasil abaixo.

Forbes: Qual a raiz da crise que tem se desenhado nas últimas semanas?

Solange Srour: Temos carregado por um bom tempo um arcabouço que não é sustentável a médio prazo, com as regras de despesas que temos hoje. As metas de [déficit] primário estabelecidas pelo governo não são suficientes para estabilizar a dívida desde o início, dependem de hipóteses muito difíceis de serem atingidas — se tirássemos essas projeções muito otimistas de crescimento do PIB ou de taxa de juros muito baixa, não haveria, de forma alguma, estabilidade da dívida.

O cenário internacional — com toda a incerteza em relação às tarifas, guerra comercial, crescimento dos Estados Unidos — está ajudando muito o Brasil. Só que a discussão [fiscal] ficou mais evidente porque o Ministério da Fazenda tentou trazer um cenário mais verdadeiro de despesas e receitas. O contingenciamento não foi suficiente e precisou da arrecadação extra do IOF.

O realismo acabou pagando seu preço, pois tivemos que recorrer a um aumento de carga tributária que não precisasse passar pelo Congresso nem ser discutido com a sociedade. Do contrário, ela não seria realizável.

O Congresso encontrou uma oportunidade de se expressar e pedir para participar da conversa, solicitando uma revisão nas despesas. A solução não é usar um imposto regulatório para tapar um buraco sem uma discussão mínima com os parlamentares. E aí estamos nessa encruzilhada.

Quais são as suas primeiras impressões sobre as medidas anunciadas no último domingo?

Por enquanto, é mais do mesmo, pelo menos do lado da arrecadação. Já tentamos diversas vezes, no Congresso — tanto no governo Temer quanto no governo Bolsonaro — taxar instrumentos incentivados [LCI e LCA]. Se hoje vai haver uma maior disposição do Congresso em aceitar, é um ponto de interrogação.

Eu acho que o aumento da CSLL, apesar de grupos contrários, pode passar em partes. As outras ideias que estão circulando, mas que ainda não estão na MP, também já foram tentadas antes. Eu tenho um pouco de ceticismo de que, desta vez, vai passar.

Do lado das despesas, estamos tentando mais do mesmo. E, no caso da tributação, muitas das propostas também já foram tentadas. Alguma coisa pode acabar passando, mas não o suficiente — principalmente para os próximos anos. Em 2025, você ainda tem uma situação em que a economia está crescendo bem e a arrecadação está surpreendendo para cima. Se os planos de aumento de impostos não passarem, o maior risco é que a meta de 2026 também fique mais suscetível de não ser cumprida.

Qual o maior risco que temos se a conta não fechar?

Vamos ter uma dificuldade muito grande de cumprir com a meta de primário. Vamos precisar fazer um contingenciamento maior, a ponto de paralisar algumas funções federais ou, no caso de descumprimento da meta, arcar com as penalidades do arcabouço. Eu não acho que sejam tão absurdas assim a ponto de precisar mudar o arcabouço, mas, em ano eleitoral, pode surgir essa discussão. E isso seria péssimo.

Você acha que essas questões fiscais ainda possuem potencial de impactar o futuro da nossa política monetária ou elas já estão precificadas?

Tudo vai depender de qual será a reação do mercado ao final dessa história toda. Muitas vezes, a reação do mercado não condiz com o fundamento. Por quê? Porque o mercado está se movendo mais com o cenário internacional e, muito também, com a visão de que os impactos serão futuros.

Pode ser que isso não reflita nos preços dos ativos que importam para o Banco Central — que são a taxa de câmbio e a expectativa de inflação —, mas, para mim, é uma questão de momento. O cenário internacional pode mudar e, se você não consertou o fundamento, isso vai acabar tendo impacto na inflação e no câmbio.

Se, em algum momento, o mercado deixar de acreditar que, em 2027, tudo vai se resolver, isso também vai ter impacto, porque, no fundo, precisa-se de um mínimo de sustentabilidade para as contas públicas.

Se não fosse o cenário de incerteza internacional, com essa expectativa de mudança de política econômica, o Banco Central veria necessidade de uma taxa de juros neutra maior. Não necessariamente o BC teria que subir muito mais a Selic, mas, com certeza, teria muito menos espaço para afrouxar.

Se não fosse o cenário internacional, o dólar ainda estaria nos patamares de R$ 6,30?

Provavelmente sim. Não dá para cravar, porque talvez a piora dos ativos pudesse trazer uma expectativa de mudança de política econômica também, e aí o câmbio não ficaria tão alto. Mas, no final das contas, acho que, se não fosse esse cenário de dólar fraco, estaríamos numa situação de prêmios mais elevados no Brasil — no câmbio, na taxa de juros e na bolsa.

Se as mudanças necessárias não forem feitas até 2027, o que pode acontecer?

Acho que podemos entrar em uma desaceleração bastante profunda e rápida, porque estamos trabalhando hoje com uma taxa de juro real extremamente alta. Se não houver uma expectativa de mudança de direcionamento da política econômica, a Selic vai subir ainda mais. Muito provavelmente, você vai ter um câmbio mais depreciado, inflação subindo — e já tivemos essa experiência no passado. E o que isso causou? A maior recessão da história do Brasil.

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