Nuccio Caffo, CEO do Grupo Caffo 1915, empresa familiar italiana fundada em 1915, sediada em Limbadi, conhecida principalmente pelo licor Vecchio Amaro del Capo, anunciou no final de junho a aquisição da Cinzano, marca italiana de bebidas alcoólicas. Trata-se de um marco histórico para a companhia, que dá um salto de dimensão ao entrar no mundo do vermute, um vinho fortificado e aromatizado, e dos espumantes com uma marca lendária, fundada em 1757 e conhecida mundialmente.
Das etapas de uma negociação longa e complexa com o grupo Campari aos bastidores da operação, Caffo conta em entrevista à Forbes Itália as motivações estratégicas que levaram à escolha justamente da Cinzano. No centro da visão, o relançamento de uma marca símbolo da enologia italiana, a ampliação da oferta no segmento de aperitivos, novas sinergias entre marcas históricas e um crescimento internacional baseado em autenticidade, qualidade e raízes profundas.
Quais motivações levaram vocês a apostar justamente na Cinzano?
Para nós, a aquisição da Cinzano representa um passo estratégico de alcance excepcional. Trata-se de uma operação complexa, mas também, neste momento, é a única capaz de oferecer um potencial significativo para o nosso grupo. As razões são muitas, a começar pelo fato de que a Cinzano se integra perfeitamente ao nosso portfólio, sem se sobrepor a linhas existentes: nós ainda não tínhamos um vermute.
Ao contrário, reforçamos nossa oferta com um produto distintivo e reconhecido globalmente. Afinal, a Cinzano é a segunda marca de vermute do mundo, depois da Martini, mas nos últimos anos seu potencial esteve parcialmente inexplorado. Isso nos oferece uma oportunidade enorme: podemos relançá-la, valorizando sua identidade na Itália e nos 108 mercados onde já está presente, ativando novas sinergias e abrindo caminho para as nossas outras marcas.
A operação também nos permite enriquecer a oferta no segmento de espumantes, completando o portfólio com um nome histórico. Basta lembrar que os irmãos Cinzano foram pioneiros do espumante italiano, formados na França e que trouxeram esse know-how para a Itália. É uma história que fala de excelência e visão internacional. Diferente de outras aquisições semelhantes, mas restritas a poucos mercados, esta operação permite consolidar nossa presença global e, ao mesmo tempo, acelerar em mercados-chave. Na Alemanha, por exemplo, nossa filial se tornará a primeira do grupo graças ao legado Cinzano; na Espanha, nossa recente filial poderá contar com uma marca já bem enraizada, sobretudo nos vermute e no Bitter Soda.
Este último é um aperitivo pronto para beber que, na Itália, não é distribuído há anos, mas que pode voltar em breve, representando uma nova oportunidade de crescimento. Apostar na Cinzano significa para nós relançar uma marca icônica e aproveitar um trampolim internacional que fortalece nosso posicionamento e acelera nossa expansão. Sim, um escolha ousada, mas totalmente coerente com nossa estratégia de longo prazo.
A aquisição surgiu como resposta a uma oportunidade repentina ou foi fruto de uma negociação longa e planejada?
Na verdade, é resultado de um projeto iniciado há muito tempo. Mesmo sem um processo oficialmente aberto por parte da Campari, nosso interesse pela marca Cinzano já existia. Nos aproximamos em tempos não suspeitos, quando as condições ainda não estavam maduras e nada indicava uma abertura para venda.
De fato, a marca Cinzano sempre esteve integrada ao portfólio da Campari, onde teve um papel estratégico como aceleradora distributiva. Separá-la não era simples nem óbvio. Por isso, foi necessário esperar o momento certo e enfrentar um percurso longo e articulado. O processo se concretizou graças à valiosa consultoria da Broletto, empresa de fusões e aquisições, sob a liderança de Andrea Scarsi, profissional de grande experiência no setor de aquisições e operações societárias.
Aquilo que inicialmente parecia uma missão impossível se transformou em realidade. Depois das primeiras ofertas não vinculantes, passamos à fase de due diligence, conduzida nos últimos meses, até a formulação da oferta vinculante final, que foi aceita pela Campari. Gostaria de agradecer publicamente pela oportunidade: não estávamos em posição exclusiva, eles poderiam ter escolhido entre vários parceiros. No entanto, da parte deles também veio a vontade de manter esta marca histórica no panorama italiano, escolhendo confiá-la a outro grupo italiano.
Do ponto de vista econômico e estratégico, para nós é uma operação de grande relevância, um salto de dimensão importante. É uma escolha de confiança e visão, que dá ainda mais solidez a um projeto construído com paciência, determinação e espírito empreendedor.
Quais aspectos da identidade da Cinzano vocês querem preservar e quais pretendem relançar ou reinterpretar? Qual é o cerne de valor da marca?
A Cinzano é uma marca que reúne mais de 250 anos de história enológica italiana, nascida em uma pequena oficina artesanal. Uma história que sentimos profundamente próxima, porque reflete as mesmas raízes das quais também vem a nossa empresa: uma vocação produtiva autêntica, fundada na qualidade e na inovação, e um espírito empreendedor capaz de olhar longe.
Proteger este patrimônio significa, para nós, valorizar um legado precioso do verdadeiro made in Italy, reconhecido e amado no mundo todo. Basta pensar que já nos anos 1950 a Cinzano exportava seus produtos globalmente, com agências de vendas e unidades de engarrafamento presentes praticamente em todo o mundo, da América do Sul à Austrália, uma vocação internacional extraordinária, amplamente documentada. Em 1908, era o vermute mais exportado do mundo. Trata-se de uma liderança histórica que hoje queremos relançar, com a ambição de recolocar a marca no topo da sua categoria.
O cerne de valor da Cinzano, em nossa visão, reside em três dimensões fundamentais: a tradição enológica italiana, a versatilidade na coquetelaria e a capacidade de evoluir mantendo fidelidade à própria identidade. Não por acaso, o vermute Cinzano é um dos ingredientes-chave do negroni, um dos coquetéis mais consumidos no mundo, o que o torna um produto com uma vocação fortemente internacional, perfeito para o canal bar e o universo do aperitivo. É um segmento no qual queremos nos fortalecer.
Outro elemento distintivo que pretendemos potencializar é o vínculo com o território, em particular com a indicação geográfica protegida do Vermouth di Torino. Já estamos trabalhando para desenvolver a produção da Cinzano dentro desta denominação, com o objetivo de consolidar ainda mais sua autenticidade e seu valor enológico.
Mas a Cinzano não é apenas vermute: é uma marca de referência no mundo dos espumantes. A começar pelo Asti Spumante, produto histórico à base de Moscato, o Principe di Piemonte e o Marone Cinzano Pas Dosé, verdadeiras joias enológicas que hoje não estão mais em produção, mas que pretendemos recolocar no mercado. Além disso, marcas como o Prosecco Cinzano e o Tospritz continuarão desempenhando um papel estratégico, sobretudo no setor de hotéis, restaurantes e caterings, e no consumo fora do lar.
Queremos proteger o passado para dar nova vida ao futuro da Cinzano: uma marca icônica que voltará a ser protagonista pelo seu prestígio e sua extraordinária capacidade de dialogar com as novas gerações por meio de produtos de qualidade, autênticos e profundamente italianos.

Qual é a visão do sr. para o relançamento da Cinzano em nível global? De que maneira pretendem reposicioná-la no atual panorama do vermute e dos produtos para aperitivo?
O relançamento global da Cinzano se baseia em uma visão clara: valorizar a força da marca dentro de uma lógica de sinergia, sem nos limitarmos a uma simples soma de valores, mas criando um ecossistema dinâmico que relacione as excelências italianas. Por isso, a operação foi estruturada mediante a constituição de uma nova empresa dedicada, que nos permitirá preservar a forte identidade da Cinzano e, ao mesmo tempo, desenvolver um modelo de integração mais flexível e orientado ao crescimento internacional. A nova empresa atuará como uma plataforma de desenvolvimento autônomo, mas perfeitamente coordenada com as estratégias do grupo Caffo.
A ideia é construir um diálogo virtuoso entre a Cinzano e outras marcas icônicas do made in Italy, começando pelo licor Vecchio Amaro del Capo. A Cinzano se tornará a embaixadora internacional do grupo, levando consigo o licor para mercados onde já é forte — como Alemanha, América do Sul, Estados Unidos e Canadá e ainda vai contribuir para o relançamento da marca no mercado nacional.
No que diz respeito à reavaliação do posicionamento, o ponto de partida será naturalmente o vermute, núcleo histórico e valorativo da marca. Não vamos nos limitar à linha básica, mas apostaremos decididamente no Vermouth di Torino, valorizando a denominação geográfica e sua autenticidade. Paralelamente, já temos em desenvolvimento a introdução de novas reservas de vermute, que representarão a evolução do produto rumo a faixas premium, alcançando também as novas tendências de consumo de qualidade.
Vamos relançar também o segmento dos espumantes, começando pelo Asti, muito forte na Alemanha, até o Prosecco, o método clássico e referências icônicas como o Principe di Piemonte e o Marone Pas Dosé, que voltarão a ser prioritários. Queremos construir para a Cinzano um novo ciclo de crescimento sustentado por uma visão global e uma abordagem industrial sólida, respeitosa da tradição, mas aberta à inovação, para tornar a marca, mais uma vez, a protagonista da enologia italiana no mundo.
Como a Cinzano se encaixa no portfólio atual do Grupo Caffo 1915?
A Cinzano se encaixa no portfólio do Grupo Caffo 1915 de maneira perfeitamente complementar. Não existe sobreposição, nem em termos de produto, nem de posicionamento, e isso é um elemento estratégico fundamental. Não se trata de uma aquisição competitiva, mas sinérgica, em que cada marca reforça a outra em seus respectivos mercados de referência.
Especificamente, a Cinzano nos permite entrar em segmentos até hoje menos explorados pelo grupo, e sobretudo nos abre novas oportunidades no mundo do aperitivo, uma área na qual, até hoje, tínhamos uma presença menor. Por outro lado, nossas marcas — a começar pelo Vecchio Amaro del Capo — terão agora um aliado poderoso nos mercados internacionais em que a Cinzano já está consolidada, como Alemanha, América do Sul, América do Norte e Espanha.
É uma sinergia de mão dupla: nos mercados onde a Cinzano já é forte, ela impulsionará a distribuição de nossas marcas Caffo; nos mercados onde nós temos maior capilaridade, será o Grupo Caffo que apoiará o relançamento da Cinzano, particularmente na Itália, onde, nos últimos anos, a marca havia sido menos valorizada. A aquisição da Cinzano cria novas interações entre nossas etiquetas históricas.
Considerando as operações realizadas nos últimos anos, como a aquisição da marca holandesa Petrus Boonekamp, do licor Borsci San Marzano e de outras marcas históricas do setor, quais são os objetivos de médio prazo para a Cinzano?
A aquisição da Cinzano representa, até hoje, a operação mais significativa na história do Grupo Caffo 1915 pelo porte econômico e pelo impacto estratégico. É o ponto natural de chegada de um percurso de crescimento progressivo que, nos últimos anos, nos levou a consolidar nossa presença no mercado por meio da integração de marcas históricas como Petrus Boonekamp, Borsci San Marzano e outros ícones do panorama de licores.
Dez ou quinze anos atrás, uma operação desse porte teria sido impensável; hoje, graças à solidez e à reputação que construímos ao longo do tempo, tornou-se realidade. Os objetivos de médio prazo para a Cinzano são ambiciosos, mas concretos. No primeiro ano, vamos nos concentrar na continuidade operacional, garantindo a plena manutenção do faturamento existente e assegurando que a produção prossiga sem interrupções, também por meio de uma fase de transição na qual colaboraremos ativamente com a Campari.
Essa etapa é fundamental para garantir estabilidade à marca e nos preparar para uma transição gradual rumo a uma gestão totalmente autônoma, que nos permitirá desenvolver novas linhas, otimizar sinergias e personalizar ainda mais as estratégias comerciais.
Depois, nossa visão é ampliar a distribuição nos mercados-chave onde a Cinzano já é forte e, ao mesmo tempo, relançar a marca na Itália, por meio de nossa rede de distribuição consolidada. O objetivo não é apenas expandir volumes, mas valorizar a marca em uma perspectiva premium, investindo na qualidade, autenticidade e inovação do produto, a começar pelo Vermouth di Torino e pelas novas reservas atualmente em fase de desenvolvimento.
De modo mais amplo, a Cinzano representa um acelerador para o crescimento global do grupo e permite fortalecer a nossa posição nos mercados internacionais, ampliar nossa força comercial e criar novas sinergias operacionais com as demais marcas do portfólio. Uma operação que confirma nossa estratégia de longo prazo: construir um polo italiano de excelência enogastronômica, capaz de competir globalmente com credibilidade, visão e raízes profundas.
Essa aquisição pode ser considerada um ponto de chegada ou, ao contrário, um novo começo com vistas a outras operações de crescimento e consolidação?
A aquisição da Cinzano representa, sem dúvida, um marco histórico para nosso grupo, mas não a consideramos de forma alguma um ponto de chegada. É o início de uma nova fase, uma virada estratégica que nos projeta para o futuro com renovada ambição. Para nós, este passo tem um valor simbólico comparável ao vivido por nossa família nos anos cinquenta, quando meu avô e seus irmãos se mudaram da Sicília para a Calábria para lançar as bases do que hoje é a sede central do Grupo Caffo 1915. Da mesma forma, a aquisição de uma marca global como a Cinzano marca o começo de uma transformação profunda que envolverá toda a organização em termos estruturais, gerenciais e estratégicos.
Estamos preparando uma reorganização interna que nos permita enfrentar essa nova fase com a máxima eficácia, consolidando tudo que foi feito até aqui e criando as condições para um crescimento ainda mais sólido e sustentável. A integração da Cinzano em nosso ecossistema é uma verdadeira redefinição de nossa escala operacional e do nosso posicionamento internacional.
Ao mesmo tempo, continuamos abertos a novas oportunidades: vamos avaliar cada operação futura com atenção, caso a caso, seguindo uma lógica de coerência estratégica e respeito pela identidade das marcas. De certo modo, já podemos falar de um novo ciclo: o Grupo Caffo Cinzano, que une duas histórias centenárias em um projeto comum voltado para o futuro.
A operação não prevê a incorporação direta da Cinzano ao Grupo Caffo, mas sim a passagem por uma nova empresa. O sr. pode dar mais detalhes sobre essa nova sociedade?
A operação foi estruturada de forma a respeitar e valorizar a identidade histórica da Cinzano, mas também para garantir uma integração estratégica e eficaz ao nosso grupo. Atualmente, a Cinzano é uma divisão interna da Davide Campari S.p.A., empresa listada na bolsa. O primeiro passo será uma operação de cisão do ramo de atividade relativo à marca, que será transferido para uma nova empresa, com um nome de grande simbolismo: Francesco Cinzano & C., ou seja, a razão social original da empresa antes de entrar no grupo Campari em 1999.
Uma vez concluída essa cisão, vamos adquirir 100% das cotas da nova empresa, que passará a integrar o Grupo Caffo, assim como as outras empresas do portfólio, como Distilleria Caffo, Borsci San Marzano, Petrus Boonekamp e as demais realidades que fomos integrando ao longo dos anos. Dessa forma, a Francesco Cinzano & C. manterá autonomia operacional e produtiva, mas estará perfeitamente alinhada aos objetivos estratégicos do grupo.
No plano comercial, a abordagem será integrada: a distribuição na Itália ficará a cargo da rede de vendas da Distilleria Caffo, a mesma que hoje gerencia com sucesso marcas como Vecchio Amaro del Capo, Borsci, Petrus e outras marcas históricas. Isso nos permitirá reforçar ainda mais nossa presença no mercado, aproveitando a eficiência e a capilaridade de uma rede comercial consolidada e coesa.
A todos os nossos colaboradores e parceiros distribuidores, pedimos um compromisso claro e compartilhado: quem escolhe trabalhar com o Grupo Caffo, agora enriquecido pela marca Cinzano, passa a fazer parte de um projeto identitário forte. Seja Amaro del Capo, Cinzano ou Borsci, queremos construir uma única força comercial integrada, determinada e coerente.