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Mercado de M&As Resiste e Tem Expectativas Positivas para o Segundo Semestre

Volume de operações caiu na primeira metade do ano pelo cenário econômico incerto e alta dos juros

6 min

Não é de hoje que o Brasil é palco de inúmeras fusões e aquisições (Mergers and Acquisitions ou M&As). Os números de 2024 são pujantes. No ano passado foram fechados 2.582 negócios, que movimentaram US$ 51,8 bilhões (R$ 280,24 bilhões), um aumento de 5% sobre os R$ 206,12 bilhões de 2023, segundo dados do banco BTG Pactual. No entanto, em termos de valores, a cifra de 2024 foi bastante inferior ao recorde de US$ 108 bilhões (R$ 584,28 bilhões) movimentados nos 1.320 negócios fechados em 2021.

Neste ano, apesar de a taxa referencial de juros Selic estar em 15% ao ano e a inflação ter variado 5,42% nos 12 meses até junho, as M&As de grandes empresas têm chamado a atenção. Um exemplo foi o acordo costurado entre Cobasi e Petz, duas varejistas de produtos e serviços para animais de estimação, processo encerrado no início de junho. Outras ainda estão em negociação, a exemplo da fusão entre os bancos BRB e Master, os frigoríficos BRF e Marfrig, e as companhias aéreas Azul e GOL.

Enquanto essas companhias tentam avançar em suas transações, a economia global tem sido pressionada pelo impacto econômico dos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, além da política tarifária dos EUA. Diante desse cenário, a Forbes Brasil conversou com especialistas para entender como está o mercado de M&As e quais são as expectativas.

Queda de 6% no trimestre

No primeiro trimestre, o número de fusões e aquisições caiu 6% em relação ao mesmo período de 2024, conforme levantamento da KPMG. Nos três primeiros meses de 2025 foram realizadas 330 operações. Ao menos 144 delas envolveram empresas de tecnologia, enquanto 118 foram entre companhias de internet e 15 entre instituições financeiras.

Quanto à nacionalidade dos envolvidos, 215 transações foram feitas entre brasileiras, seguidas pelas 83 que envolveram a compra de uma empresa nacional por uma estrangeira e as 19 instituições brasileiras que compraram empresas de outros países.

Para Paulo Guilherme Coimbra, analista e sócio da KPMG, a leve queda não indica uma desaceleração. “Esse recuo se deve a questões geopolíticas internacionais e à dinâmica do mercado, que é mais fraca nos períodos iniciais do ano”, aponta. Ele diz acreditar que a taxa de juros alta também desincentiva essas operações, já que eleva os custos de financiamento.

Questões como as tarifas impostas pelos Estados Unidos e as oscilações em diversos países fizeram os investidores ter uma postura mais analítica e menos ativa, segundo Lilian Luccas Crestana, managing director do banco BR Partners. Como consequência, há um efeito dominó.

“As empresas perdem valorização na bolsa e o custo de capital sobe, isso afeta toda a cadeia de fusões e aquisições. Portanto, todos os players se retraem, aguardando o melhor momento para tomar risco”, diz Jairo Loureiro, sócio fundador do BR Partners.

Na leitura de Alessandro Farkuh, Head de M&As do BTG Pactual, o recuo registrado no início deste ano é pontual. Em 2025, só o BTG executou 19 transações do tipo, o que equivale a 31% do market share em número de deals. Ele acredita que isso é um bom indicativo de que o mercado está retomando o fôlego, especialmente pelo bom número de compradores estrangeiros neste ano, que, até o momento, corresponde a 42,3% das fusões e aquisições, o maior patamar desde 2020.

Setores e capital

A liderança do segmento tecnológico não é novidade, segundo Loureiro, do BR Partners. “Faz parte do modelo desse setor acelerar o crescimento e desenvolver um modelo de negócio”, diz ele. “Porém, o setor mais representativo em termos financeiros é o de infraestrutura. Obras como a construção de um porto demandam bilhões de reais”. Segundo Loureiro, nos seis primeiros meses do ano, a maioria das operações com a participação do BR Partners foram desse segmento. Farkuh acrescenta os segmentos de energia e de consumo como destaques em termos de capital movimentado.

Os setores de tecnologia e saúde devem ser os maiores beneficiados neste semestre, por terem múltiplas vertentes e serem menos suscetíveis à dinâmica do mercado, segundo avaliação do BR Partners. Enquanto o segmento financeiro tende a se estabilizar, por conta da alta da Selic, hoje, em 15% ao ano, o que impacta nas margens e modelos de negócio.

Na leitura do sócio fundador do banco, o capital estrangeiro deve focar na parte de seguros, tecnologia e indústria, embora ele destaque que, em termos de fluxo financeiro, a concentração será ainda no setor de infraestrutura.

Expectativas

Segundo Loureiro, nos últimos dois anos, as incertezas econômicas – como a inflação e a vulnerabilidade à inconstância fiscal do país – afastaram investidores. Por essa razão, negociações envolvendo ações de empresas no lugar do dinheiro caíram. Para se ter ideia, no primeiro semestre deste ano, 80% do volume transacionado usou dinheiro.

“É uma grande mudança, pois você tem um ambiente em que o empresário não quer as ações da empresa como moeda de aquisição, pelo fato de que o valor delas está muito abaixo”, opina. Além disso, o número e o tamanho das transações diminuíram.

 Embora o mundo esteja em um momento de instabilidade, Crestana, do BR Partners, avalia que o setor tem boas oportunidades a serem exploradas, sobretudo no segundo semestre. A desaceleração da inflação e uma maior previsibilidade em relação à Selic devem reduzir a percepção de risco, destravando negociações que vinham sendo adiadas.

“O mercado financeiro opera melhor com previsibilidade. Informações claras, mesmo que negativas, ajudam empresas e investidores a tomarem decisões”, diz Crestana. Segundo ela, o mercado de M&A reflete o potencial estratégico do Brasil no médio e longo prazo.

Loureiro afirma que a estabilidade é uma conquista para o período e que deve ser um catalisador para negociações em andamento. Já Coimbra tem uma visão mais cautelosa para os próximos seis meses, embora também acredite que haverá boas oportunidades para essas transações por uma questão de necessidade. “Algumas empresas precisarão, eventualmente, fazer fusões, realizar integrações e vender portfólio, até por um valor mais abaixo, dependendo do deságio ou do ajuste no preço”, alerta.

Para 2026, o sócio fundador do BR Partners acredita que tudo será uma incógnita, já que terá eleições presidenciais. “Isso pode ser um freio de mão, dependendo de como for o comportamento do governo e os impactos da economia”, afirma.

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