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Gestora Lança Fundo Dedicado a Ações de Empresas Argentinas

Exchange Traded Fund (ETF) terá papéis negociados em Wall Street e visa ganhar com a regularização econômica do país vizinho

5 min

Pense em um país com moeda não conversível, controles cambiais e um mercado paralelo florescente. Um governo decididamente antimercado. Instituições pouco confiáveis. Uma inflação descontrolada e desconhecida. Parece a descrição da Coreia do Norte, ou de algum país bastante encrencado da África ou da região onde antigamente ficava a União Soviética. No entanto, até poucos meses atrás, essa descrição se encaixava perfeitamente à situação econômica da Argentina. Por isso, a valorização potencial dos ativos argentinos era enorme no caso de uma mudança, ainda que pequena, na situação.

Foi o que ocorreu após novembro de 2023, com a eleição do ultradireitista Javier Milei. Ao tomar posse na Casa Rosada, ele lançou um corte agressivo de gastos públicos e prometeu liberar as transações cambiais e acabar com as diversas taxas oficiais (e nem tanto) que regulam as relações entre pesos e dólares.

Apesar do custo social, os investidores gostaram: nos 12 meses após sua vitória, o índice Market Vector Argentina, que inclui 15 American Depositary Receipts (ADR) de empresas argentinas negociados em Wall Street, havia subido 330% em dólares. O índice atingiu seu pico no início deste ano, e recuou 25,4% desde o fim de 2024 em um movimento de realização de lucros.

Ações em Wall Street

Buscando atender os investidores brasileiros interessados em um país que até pouco tempo atrás estava totalmente fora do radar, a gestora de recursos Investo está lançando um Exchange Traded Fund (ETF) de papéis argentinos. O ETF será negociado na B3, em reais, e reproduz o índice americano US Listed Argentina Index. Esse indicador, desenvolvido pela gestora americana MarketVector, reúne 15 American Depositary Receipts (ADRs) de companhias argentinas negociados em Wall Street. “São ações principalmente dos setores de energia e financeiro, como a petrolífera YPF e os bancos Galicia, Macro e BBVA”, diz Cauê Mançanares, CEO da Investo.

Segundo Mançanares, a maior perspectiva de valorização é devido à normalização da Argentina no cenário dos investimentos. Após anos mantendo práticas econômicas heterodoxas, o país repeliu os investidores. “A bolsa argentina tem diversas restrições associadas às questões cambiais, por isso as ações de empresas argentinas não fazem parte de nenhum índice”, diz ele. “Elas não estão nos índices de economias desenvolvidas, não estão nos índices de países emergentes nem nos de países de fronteira.”

A aposta da Investo é que, com a adoção de uma política fiscal mais responsável e a possível liberação do câmbio, isso pode mudar e levar a uma valorização “automática” das ações. “Muitos investidores institucionais, como gestores de fundos e fundos de pensão, têm mandatos de seguir os principais índices”, diz Mançanares. “Se os papéis argentinos voltarem aos índices, os gestores serão obrigados a comprar.”

Papéis baratos

Em termos financeiros, as ações argentinas estão baratas. Uma das medidas é a relação entre preço e valor patrimonial atualizado, a chamada relação P/VPA. Em termos simples, é quanto a cotação das ações no mercado está acima do valor patrimonial dos papéis. A lógica é que uma empresa é mais do que a soma de suas partes, pois a organização de capital, tecnologia, mão de obra e práticas de mercado tem valor.

A média global da relação P/VPA é 3,96, diz Mançanares. Isso quer dizer que, em média, as ações valem quase quatro vezes mais que o patrimônio contábil que representam. A relação é menor em países emergentes, sendo 1,94. Um prêmio de menos de 100% sobre o valor patrimonial.

Por essa métrica, o Brasil está barato: a média era de 1,64 no fim de julho. E a média dos papéis argentinos é menor ainda, de 0,97. “É possível comprar uma ação argentina por menos dinheiro do que ela representa de seu patrimônio”, diz Mançanares. “Se a abertura de mercado e a desregulamentação do câmbio levarem o P/VPA das ações argentinas ao nível brasileiro, que já está abaixo da média, isso representa uma valorização potencial de 60%.”

Claro, há riscos. A variável mais importante dessa equação é a capacidade de o governo seguir com suas reformas econômicas e conseguir liberar o câmbio. Sem isso, qualquer perspectiva de valorização será frustrada, pois os papéis argentinos seguirão alheios aos principais índices.

Os ETFs começam a ser negociados na B3 nesta quarta-feira (27). O preço de lançamento é de R$ 10, e o código de negociação é ARGE11. O lançamento de um ETF requer a compra de papéis. No caso, ADRs de empresas argentinas que replicam o índice US Listed Argentina. Segundo Mançanares, a Investo destinou R$ 5 milhões em capital semente (“seed money”) para comprar esses papéis e lançar as primeiras cotas do fundo. “Vamos adquirir mais ações à medida que os investidores forem chegando”, diz ele.

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