Desde o seu lançamento, em 2008, o bitcoin passou por diversas “provações” até se provar como um ativo sólido o suficiente para compor a carteira de investimentos não só de entusiastas de criptomoedas, mas também de grandes gestoras globais — como BlackRock e Fidelity —, empresas de tecnologia e governos.
Ainda assim, há certa resistência na inclusão de ativos digitais (que incluem não só criptoativos, mas também ativos tokenizados) em portfólios de clientes de ultra high net Worth que utilizam Family offices ou private banks tradicionais para fazer a gestão de suas fortunas. E isso ocorre mesmo em um momento em que a demanda por ativos alternativos cresce no segmento de alta renda.
Pensando em abocanhar um mercado ainda inexplorado, o MB (Mercado Bitcoin), hoje a maior plataforma de ativos digitais da América Latina, lançou uma nova vertical de atuação — o MB Ultra, com foco em wealth management e a ambiciosa meta de atingir R$ 2 bilhões em ativos sob gestão já nos próximos anos.
Para chefiar a área, o MB chamou Felipe Whitaker, banker especializado em ativos digitais e ex-UBS e BTG Pactual, que desde 2021 já trabalha exclusivamente com clientes de alta renda. No MB, Whitaker será o responsável por conectar Family offices e wealth managers ao mundo dos ativos digitais.
“A dinâmica do mercado cripto encontrou solo fértil aqui: o público potencial é gigantesco e, para alcançá-lo, é necessário que o mercado fale a mesma língua dos family offices e administradores de carteiras wealth”, aponta em
Em entrevista à Forbes Brasil, Felipe Whitaker, chefe da área, conversou sobre o crescimento da demanda por parte de clientes de ultra high net worth e como o universo de criptomoedas está pronto para entrar em um novo momento.
As respostas foram editadas para maior clareza, concisão e fluidez.
Forbes Brasil – O mercado de alta renda ainda parece resistente à inclusão de ativos digitais em seus portfólios. Por que isso acontece?
Felipe Whitaker: Existe muito preconceito, mas principalmente desconhecimento. Não gosto de chamar de ignorância, porque não é isso – é uma falta de familiaridade com uma indústria ainda jovem. Esses investidores estão acostumados a um nível de compliance, governança e segurança muito elevado, e acham que o cripto não entrega isso. Só que hoje já temos regulação clara, supervisão do Banco Central e da CVM, provas de reservas, auditorias independentes… Nós, no MB, nunca sofremos um ataque hacker. Esse pilar da institucionalidade é a nossa pedra fundamental. O desafio é mostrar ao cliente de alta renda que esse setor já fala a mesma língua que ele, que pode ser tão seguro quanto qualquer outro investimento tradicional.
Quais ativos digitais têm despertado mais interesse dos clientes de ultra high net worth?
As stablecoins são, sem dúvida, a porta de entrada. Elas resolvem dores práticas, como uma transferência internacional que no sistema bancário pode levar três dias e, em blockchain, é liquidada em segundos. O investidor entende rapidamente o valor de pagar a escola do filho em Miami ou alugar um barco na Europa usando stablecoin, com custo menor e liquidez instantânea.
O segundo ponto é a tokenização. Estamos falando de transformar em tokens ativos reais como imóveis, obras de arte, ouro, frações de aeronaves ou até relógios de luxo. Um Rolex roubado, por exemplo, sem o token vinculado passa a ser um “Rolex de bandido”, porque não tem lastro na blockchain. Isso cria rastreabilidade e liquidez inéditas. Para famílias que já lidam com bens dessa natureza, faz todo o sentido.
E como é a recepção dos bancos e private banks tradicionais?
Naturalmente existe cautela. O papel do incumbente é questionar: “Onde o dinheiro fica guardado? Como evitar golpes? Isso não é pirâmide?”. Mas quando você explica o funcionamento do blockchain, percebe que a lógica é até mais robusta que a do mercado tradicional. O registro de cada transação é público, imutável e distribuído pela rede inteira – é quase uma tatuagem impossível de apagar.
Claro que os grandes bancos não têm incentivo para acelerar esse processo, porque o blockchain elimina intermediários. Mas esse gênio já saiu da lâmpada, não volta mais. Hoje já existem cinco vezes mais brasileiros investindo em cripto do que na bolsa de valores. É inevitável que o mercado de alta renda passe a olhar para essa classe de ativos com seriedade.
O MB Ultra nasce justamente para ser essa ponte com o institucional. Como vocês estruturam essa atuação?
Nosso papel é oferecer acesso. Não queremos competir com os bancos em multimercado ou crédito estruturado, e sim complementar o que já existe. Podemos oferecer fundos que se expõem a DeFi, ETFs no Brasil, nos EUA e na Europa, tokens imobiliários, stablecoins que rendem como aplicações em dólar, ou até alocações diretas em moedas digitais. Tudo sempre respeitando o suitability do cliente.
Se o perfil é conservador, dá para montar algo com renda fixa digital atrelada ao CDI ou ao dólar, que paga juros atrativos e tem liquidez 24/7. Se é mais arrojado, podemos incluir uma fatia em ether ou outros ativos com potencial de valorização maior. O importante é falar a língua do wealth management: diversificação, governança e risco-retorno.
Existe também uma mudança geracional dentro das famílias de alta renda que pode acelerar essa adoção?
Sem dúvida. Muitas vezes, é o filho que pressiona o pai a olhar para esse universo. O filho já transaciona stablecoin ou bitcoin, já investe em cripto e mostra para o patriarca como isso funciona. Essa mudança de mão do dinheiro entre gerações é um dos grandes vetores de transformação. A nova geração quer eficiência, modernidade, impacto e propósito. Não faz sentido para eles não ter exposição a ativos digitais no portfólio.
O mercado cripto tem uma fama de imediatismo, de quem busca enriquecimento rápido. Como essa mentalidade se contrapõe ao olhar do wealth management?
O “crypto bro” existe e teve seu papel: ganhou dinheiro surfando a onda do bitcoin que saiu de centavos para centenas de milhares de dólares. Mas isso não vai se repetir nessa escala. O investidor institucional busca consistência, governança, produtos estruturados. Nosso trabalho é justamente mostrar que cripto não precisa ser binário – “ter ou não ter bitcoin” – mas pode estar em fundos, ETFs, tokens, stablecoins ou alocações educacionais bem planejadas. É um olhar de longo prazo, não de aposta imediatista.
Qual é a meta de vocês nesse segmento?
Nossa ambição é que o MB Ultra represente de 10% a 25% dos ativos sob gestão do Mercado Bitcoin nos próximos anos, algo em torno de R$ 2 bilhões. Mas não temos pressa. Mais do que número, nosso objetivo é ser reconhecido como o “trusted advisor” do investidor de alta renda quando o assunto são ativos digitais. Queremos ser, para o universo cripto, o que um JP Morgan representa para o wealth management tradicional: um lugar de confiança, credibilidade e visão de longo prazo.