Após registrar deflação de 0,11% em agosto, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,48% em setembro, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados nesta quinta-feira (9).
A alta, embora abaixo das previsões do mercado, foi impulsionada principalmente pelo reajuste nas tarifas de energia elétrica residencial, que subiram 10,31% com o fim do Bônus de Itaipu e o retorno da bandeira tarifária vermelha, patamar 2.
Com isso, a inflação acumulada em 12 meses passou de 5,13% para 5,17%, permanecendo acima do centro da meta do Banco Central, de 3%, com teto de 4,5%. No ano, o IPCA acumula alta de 3,64%.
Apesar da aceleração, o resultado veio um pouco abaixo da mediana das projeções, que indicava alta de 0,52%.
Energia e habitação lideram aumentos
A energia elétrica foi a principal vilã de setembro, respondendo sozinha por 0,41 ponto percentual do índice. O impacto foi maior em capitais que tiveram reajustes expressivos. Em São Luís, por exemplo, as contas de luz dispararam 27,30%. Em Vitória, a alta foi de 12,37%; em Belém, de 8,05%.
Além da energia, o grupo habitação subiu 2,97%, com aumentos também em água, esgoto e gás encanado. Já o grupo despesas pessoais (0,51%) foi pressionado pelos preços de pacotes turísticos (2,87%) e ingressos para cinema e teatro (2,75%).
Alimentos em queda freiam alta
Apesar da pressão dos custos de energia, houve algum alívio no grupo alimentação e bebidas, que caiu 0,26%. A redução foi puxada por alimentos consumidos em casa, como tomate (-11,52%), cebola (-10,16%) e alho (-8,70%). Essa foi a quarta queda consecutiva do grupo, ajudando a conter o impacto inflacionário geral.
O grupo transportes, que havia recuado em agosto, registrou leve alta de 0,01% em setembro. Os combustíveis subiram, com destaque para o etanol (2,25%) e a gasolina (0,75%), mas o avanço foi compensado por quedas em passagens aéreas (-2,83%) e seguro voluntário de veículos (-5,98%).
Maiores altas e quedas do mês
Altas:
- Energia elétrica residencial: +10,31%
- Pacotes turísticos: +2,87%
- Cinema, teatro e concerto: +2,75%
- Táxi: +1,73%
- Roupa masculina: +1,06%
Quedas:
- Tomate: -11,52%
- Cebola: -10,16%
- Alho: -8,70%
- Seguro de veículos: -5,98%
- Passagens aéreas: -2,83%
Regiões e INPC
Entre as regiões pesquisadas, São Luís registrou a maior inflação (1,02%), impulsionada pela alta da energia elétrica. Já Salvador teve a menor variação (0,17%), beneficiada pela queda nos preços de alimentos e seguros.
O INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que mede a inflação para famílias com renda de até cinco salários mínimos, também acelerou. O índice subiu 0,52% em setembro e acumula alta de 5,10% em 12 meses. Vitória teve a maior taxa regional (0,98%) e Salvador, novamente, a menor (0,16%).
O que dizem os analistas
Apesar do impacto da energia, economistas avaliam que o aumento da inflação foi pontual e não altera a tendência geral.
Para Pablo Spyer, conselheiro da Ancord (Associação Nacional das Corretoras de Valores), o resultado apenas confirma a expectativa de uma pressão temporária. “Os núcleos de inflação seguem bem-comportados, o que reforça a leitura de que as pressões atuais são passageiras”, afirmou.
O economista André Perfeito destacou que os núcleos desaceleraram e que o mercado de trabalho pressiona menos os preços. “A leitura é benigna para a política monetária”, disse.
Já Alexandre Maluf, da XP Investimentos, observou que o IPCA veio “levemente abaixo do esperado”. Segundo ele, os serviços subjacentes, como alimentação fora de casa, mostraram altas mais moderadas. “Houve alívio na margem”, avaliou, embora tenha ponderado que ainda é cedo para discutir novos cortes de juros.
Perspectivas para outubro
A expectativa é de desaceleração nos próximos meses, principalmente com o fim da bandeira vermelha nas tarifas de energia e a continuidade da queda nos alimentos.
Ainda assim, analistas alertam para os riscos fiscais e para o comportamento dos preços administrados. Apesar de o IPCA seguir acima do centro da meta, o consenso é de que a inflação está sob controle.
O Banco Central, portanto, deve manter a política monetária cautelosa e observar a evolução dos serviços e do consumo antes de definir novos passos. Atualmente a Selic está em 15%.
“Acho que esse ano não muda nada, mas, eventualmente, para o ano que vem, é uma boa notícia do IPCA mais bem comportado, que deve ajudar o BC no trabalho dele”, avalia Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master.