O Copom manteve a Selic em 15% ao ano na noite de ontem (05). Embora a decisão fosse amplamente esperada pelos agentes do mercado, a escolha de palavras utilizadas no comunicado surpreendeu. Ao invés de um alívio na comunicação, o BC decidiu alterar muito pouco o texto que sumarizou o último encontro.
Para Daniela Lima, economista-chefe para Brasil da Kinea, as melhoras exibidas desde o último Copom eram suficientes para promover uma mudança no tom duro do comunicado. “Dado toda essa melhora, a gente questiona: ainda precisamos de uma taxa de juros em 15%? Podemos chegar à conclusão de que ela ainda precisa ficar em patamar neutro. Então, por mais que a expectativa fosse juros constantes, a gente esperava pelo menos que o Banco Central reconhecesse toda essa melhora que obtivemos no ambiente”, questiona a economista.
Apesar do cenário-base da instituição projetar um corte de juros apenas na reunião de março, Lima concorda que a surpresa com o comunicado deve recalibrar as expectativas daqueles que já esperavam uma redução na Selic no início de 2026. A economista, no entanto, alerta para o risco do BC perder uma importante janela de corte antes dos indicadores econômicos voltarem a mostrar fôlego no consumo e na economia — algo esperado com a aprovação da isenção de imposto de renda para aqueles que ganham até R$ 5 mil e o reajuste com ganho real do salário mínimo.
Na avaliação da economista, o Copom reconhece avanços, mas opta por cautela máxima diante das incertezas fiscais, eleitorais e externas. A ata da próxima semana será determinante para entender a lógica por trás das projeções de 2026 — e para medir a disposição do Banco Central em abrir caminho para o início do ciclo de cortes.
Confira os melhores momentos da conversa da economista-chefe da Kinea com a Forbes Brasil. As respostas foram editadas para maior concisão e clareza.
Forbes Brasil – O comunicado foi mais duro do que o esperado. O que ajuda a explicar a surpresa do mercado?
Daniela Lima – O comunicado foi mais duro do que a gente esperava. Por quê? Desde o último Copom, tivemos evoluções muito positivas do ponto de vista da inflação, de atividade, de expectativas. Foi talvez ali a maior queda de expectativas [de inflação] que a gente teve em um longo período de tempo. E não foram só as projeções do Focus de curto para 2025, mas também as mais longas, principalmente para 2026, 2027 e 2028. São essas datas que estão mais relacionadas com a questão da política monetária.
Desde o último Copom, também tivemos surpresas de curto prazo com a inflação. Além disso, a gente viu uma estabilização da taxa de desemprego, que vinha em sucessivas quedas, renovando as mínimas históricas. São duas ou três leituras de taxa de desemprego estável. Temos núcleo de inflação rodando abaixo de 4%, expectativas de inflação com uma queda em todos os horizontes de projeção e tivemos também uma consolidação dos dados de atividade do terceiro e quarto trimestre mostrando o crescimento próximo de zero. Dado toda essa melhora, a gente questiona: ainda precisamos de uma taxa de juros em 15%? Podemos chegar à conclusão de que ela ainda precisa ficar em patamar neutro, mas não em 15%. Então, por mais que a expectativa fosse juros constantes, a gente esperava pelo menos que o Banco Central reconhecesse toda essa melhora que obtivemos no ambiente.
Acho que o Banco Central não quer cometer o que ele julga ser um erro de 2023, quando começou a cortar juros aos primeiros sinais de atividade e depois teve que reverter.
Onde vocês esperavam alterações no comunicado?
A parte do manter o juros em patamar restritivo de forma bastante prolongada achamos que fosse ser mantida mesmo. Mas, por exemplo, na parte do “não hesitará em voltar a subir”, ou seja, de deixar ainda a porta aberta para uma alta, a gente achou que ele fosse não tirar, mas talvez fazer um atenuante, como ele fez em 2023. Não teve. Foi uma postura mais dura.
O que me chamou muito a atenção e foram as projeções de inflação. É algo que não consigo explicar: o BC subiu a projeção dele de IPCA livre em 2026. Ele revisou 2025 para baixo, mas subiu no ano seguinte. Isso nos chama a atenção por dois motivos. O primeiro é porque a projeção no Focus de 2026 caiu. Quando cai a projeção temos uma mudança no modelo e isso implica em um número mais baixo.Ponto número dois: tem a inércia. Quando ele revisa um ano para baixo, você tem uma inércia que também te joga para baixo em 2026. Então, você teve dois fatores que jogariam a projeção de 2026 para baixo, mas ele reviu para cima.
Por quê? Não sei dizer. Ele incorporou já a aprovação do IR que vai injetar mais renda nas famílias? Pode ser que sim. Ele não falou isso no texto. O desemprego ficou parado, e a utilização da indústria até caiu um pouco na margem. Então, não tem muita justificativa. Pode ser que ele incorporado justamente já a isenção do IR e o juros neutro pra cima e aí isso elevou o número de 2026. Mas deveria ter elevado 2027 também e não aconteceu. Isso é algo que a gente espera que seja explicado na ata.
Você acha que esse desencontro de expectativas com relação ao tom pode pesar no mercado?
Sim. A curva precificava cerca de 50% de chance de corte já em janeiro, e o comunicado reduz essa probabilidade. O mercado pode ajustar a precificação de juros para cima, já que ficou claro que o BC não pretende sinalizar cortes no curto prazo. Para janeiro virar uma possibilidade, algo teria que mudar muito no cenário — como uma desaceleração mais forte da atividade ou uma apreciação maior do câmbio — e isso hoje parece pouco provável.
Você acha que há riscos em um aperto exagerado da economia caso o BC demore para começar a cortar os juros? Ainda que a expectativa de vocês seja do primeiro corte em março.
Esse risco existe, sim, e a gente discute isso internamente. Hoje estamos numa janela muito positiva: câmbio apreciando, expectativas de inflação caindo, atividade praticamente rodando em zero e sem um cenário externo pressionando — o FED deve pausar, não subir. Nesse ambiente, se o BC demorar muito, pode perder uma janela importante para começar a cortar.
A partir de janeiro, você tem fatores que devem reaquecer a atividade: reajuste real do salário mínimo e entrada da isenção do IR, que aumentam renda e poder de compra na margem. Isso deve fazer o PIB do primeiro trimestre ser melhor que o do quarto trimestre. Ao mesmo tempo, temos a incerteza eleitoral e riscos externos que podem mudar o câmbio e a curva de juros global.
Então, se o BC estender demais essa postura, pode acabar tendo mais dificuldade para cortar depois. Esse risco existe — ainda que, na nossa leitura, ele não seja iminente.